Dez Mandamentos do Escritor

1. Escreve para ti mesmo

Será sempre impossível responder à pergunta clássica: porque se começa a escrever?

É no entanto extremamente simples responder ao seu oposto: porque se deixa de escrever. Fundamentalmente, por causa dos outros e das respectivas opiniões. Não existe altura para começar, mas se por acaso o fazemos na tenra idade, temos alguns anos de tolerância pela frente. Sejam quais forem as tontices que metemos no papel, será visto como «engraçado». A adolescência traz consigo os primeiros problemas (não só nisto, mas também nisto).

Quem escreve, tradicionalmente, não é popular. Para um adolescente, ser popular é ser tudo, e o seu contrário, é ser nada. No estado adulto, o golpe final. Em paralelo com a primeira pergunta, segue a outra: «Porque não arranjamos um trabalho sério?».

Para aqueles que sobrevivem a todos os testes (tempo, aborrecimento, pressão exterior), este é o primeiro mandamento.

Se a vontade de escrever é forte a este ponto, pouco importa o que o mundo pensa.

Escrevemos porque sim. E escrevemos para nós. Se os outros gostam, é secundário. Se os outros não gostam, é secundário. Se formos publicados, é secundário. Se não formos publicados, é secundário. O objectivo é escrever.

2. Aprecia a Viagem

Como tudo o que é realmente importante na vida, o segredo não está na velocidade.

Nos meus tempos de estudante, durante demasiados anos, mantinha uma competição não-assumida com alguns colegas. O primeiro a acabar o teste e a aparecer no recreio, era «o melhor». Estava subentendido que quanto mais depressa tivéssemos concluído o exercício, menos dificuldades tínhamos encontrado, logo éramos forçosamente «mais inteligentes». Com os anos, isto revelou-se uma falácia, hoje óbvia.

Apressarmos o raciocínio, as respostas, o cuidado que colocamos no trabalho não é sinal de brilhantismo. É sinal de displicência e arrogância. E algumas vezes, de reprovação. Da mesma forma, a tentação de «despacharmos» uma história rapidamente, quase nunca é sinal de qualidade. Em muitos aspectos é como estar na cozinha. O pré-embalado, pré-cozinhado, pronto a servir pode resolver a vida dos ociosos, mas será prejudicial a longo prazo. E passado pouco tempo, o enjoo é notório. O tempo e concentração que gastamos com cada ingrediente (personagem, cenário, enredo), será evidente no paladar final.

3. A Magia está no Detalhe

Nos meus tempos de infância, era um aficionado dos jogos informáticos. Por diversas razões preferia estar sozinho, mas ocasionalmente, era divertido partilhar determinadas emoções com um companheiro de brincadeira. Tinha dois ou três que encontravam paciência para as minhas «peculiaridades». A principal, prendia-se com o tempo que concedia aos detalhes de cada jogo. Porque para mim, desde sempre, a magia, a alma de cada um, estava nos detalhes.

Em todos os detalhes. Sem eles, o processo activo (jogo jogado) era algo completamente insípido. Não passavam de gestos autómatos e inúteis, por vezes incompreensíveis. Se não se ponderavam as estratégias e as substituições, passando compulsivamente os menus até à partida, onde estava o interesse? Se não se debatiam os nomes, não se viam até ao fim as apresentações, não se liam os menus entre os níveis, ou se procuravam constantemente «batotas» para apressar o resultado final, qual era o objectivo? Sempre fui pouco compreendido neste aspecto. Na importância do detalhe.

Um dos piores inimigos de uma boa história é uma escrita preguiçosa. Descrever não é cinema. Não basta dizer «o herói saltou e derrotou o inimigo. Os amigos aplaudiram, a mulher bonita abraçou-o.» Mesmo um filme assim filmado é um mau filme. Um livro assim escrito é ilegível. E bem sabemos como estamos fartos de livros ilegíveis.

4. Demonstrar sem Dizer

Este aspecto está de certa forma ligado ao anterior. Escrever dá trabalho. Muito. Demasiado. O mínimo que podemos exigir é que o leitor seja solidário com isso. Que se esforce o mínimo indispensável. Que pense. Sozinho e connosco. Que se interrogue sobre as razões que fazem a história e o personagem seguirem aqueles caminhos. Que conclua. Que depreenda. Que imagine. Que arrisque. Que acerte. Que falhe. E sobretudo, que construa também ele a sua história. Que ajude a compor os personagens. Que conceba os seus próprios finais. Para coisas previsíveis, já existem as telenovelas.

5. Ler e Reler. E Reler.

Infelizmente, nem sempre dei ouvidos a alguns conselhos. Em parte, porque não os entendi na totalidade quando os ouvi, mas também porque era demasiado novo para ser modesto. Quando me diziam que devia estudar gramática, respondia que não era preciso, uma vez que nunca dava erros ortográficos. Quando me diziam para reescrever o texto, considerava que era assim que o queria, não havia razão para fazer outro. Quando finalmente me diziam que me «faltava literatura» considerava os autores dessas palavras arrogantes e indisponíveis. Mas não eram eles. Era eu.

Não podemos saltar de pára-quedas sem aprender em terra. Não podemos jogar um jogo sem treiná-lo. Ou melhor, podemos fazê-lo, mas o desastre será inevitável. Da mesma forma, ninguém escreve sem ler o que outros escreveram antes de nós.

Mas não basta ler, como quem desfolha uma revista, ou apenas para nos entretermos «com a ideia geral». Temos de ler – evidentemente – com…detalhe. Ler uma primeira vez para sabermos onde estamos, e uma segunda para sabermos onde realmente estamos. Por fim, uma terceira, para confirmar que não fomos parar a outro sítio. Como afirma Woody Allen, «se tiveres de te inspirar nos outros, inspira-te nos melhores». Para sabermos quem são, há que lê-los. Ler muito.

E depois, ler mais uma vez.


escrita


6. Aberto ao Mundo

Existe mais do que uma maneira de interpretar isto. Nunca fui o centro das coisas, mas não deixei de observar entrelinhas. Por mais rebuscada que seja a forma de escrita, esta só é possível se retirada de qualquer lado. Por mais leve que seja, é essencial fazer investigação. Se falarmos de uma doença, se descrevermos um acidente ou uma indisposição, se arquitectarmos uma discussão acesa ou um diálogo enamorado, teremos de utilizar todos os meios para que tal seja credível. Nada nos obriga a estar de caneta ou microfone em punho, a perguntar tudo a todos, ou constantemente a fazer «trabalho de campo» por entre grupos de pessoas ou a desarrumar as estantes nas bibliotecas. Basta estarmos um pouco mais atentos do que o cidadão despreocupado. Questionarmos, ainda que essas questões nunca abandonem o silêncio da mente.

7. Escrever e Reescrever. E depois, Editar.

O irmão gémeo do ponto cinco. Nas primeiras coisas que escrevi, era convictamente amador.

Ou seja, fazia o que alguns autores parecem gostar de dizer em entrevistas. «Peguei na caneta e pousei-a na folha em branco à espera da musa». Aqui, a musa é a inevitável inspiração. Portanto, algo virá não se sabe bem de onde, e «a história escrever-se-á a si mesma». Sem plano, sem estrutura, sem detalhes registados, «ao sabor da pena». Metade dos profissionais assim faz. A diferença para os amadores (iguais a mim, naquela época) é que depois, mergulham num longo e moroso processo de edição. Até à versão final, passam por dezenas de «rascunhos». Hoje em dia, prefiro poupar tempo, fazendo parte do outro grupo. Daqueles que quando começam a escrever, já têm na cabeça o esqueleto do texto. Enchê-lo de carne e pele, torna-se infinitamente mais simples.

Contudo, obedecer ao esquema prévio, não provoca o nascimento da versão final à primeira tentativa. O que surge tem sempre de ser considerado um ensaio. Que se edita superficialmente, parágrafo a parágrafo, durante o processo. Que se reedita no fim do dia. E que se edita uma terceira vez, depois de concluída a obra. Se deixarmos passar algum tempo, somos normalmente prisioneiros deste fenómeno: de cada vez que se relê, reedita-se. Cabe a cada um abandonar o processo na altura adequada.

8. Lidar com a Rejeição

Se obedecermos convictamente ao ponto um, este resolve-se sem esforço. Contudo, a maioria das vezes escrevemos para alguém, para outro que não nós. A fraqueza humana dita que estejamos dependentes da comunicação, que passa pela reacção alheia à nossa mensagem. Família e amigos são um público fácil, porque nos apoiam sempre, quer gostem quer apenas finjam gostar. Mas outros poderão começar a criticar a «criança-livro», o que é sempre custoso, mesmo que seja verdade. Sobretudo quando é verdade.

Existem duas fases. Quando o ego nos impele a mostrar um produto inacabado, todas as críticas são mais do que bem-vindas. Cumprem o papel do doloroso tratamento que irá, por fim, curar a doença. Por outro lado, se dispensámos o tempo e esforço suficientes para criar um produto profissional, as primeiras portas fechadas poderão ser uma desilusão e desmotivar alguns ao ponto da desistência. É uma lei da vida. Muitas coisas boas ficam na sombra e muitas coisas más recebem elogios injustos.

A escrita não está fora deste ciclo. É obrigatório perceber quem, quando, porquê, como, rejeitou ou criticou o texto. Muitas vezes, essa rejeição pode não estar em nada relacionada com a sua qualidade. O que é um princípio. A lista de dificuldades é longa, mas a lista de opções também. Desistimos quando estivermos mortos. Isto para não falar de todos os casos de autores publicados postumamente.

9. Aprender com os Outros

Já todos fomos crianças com uma folha em branco no colo e um lápis na mão. Todos os génios cometeram erros. Todos eles tiveram dúvidas, hesitaram, riscaram frases, rasgaram papel, e muitos se consideraram indignos até ao fim dos dias. Alguns chegaram ao extremo do suicídio. Outros pediram aos sobreviventes para destruírem tudo o que fora feito, convictos que não tinham qualidade. A vida parece longa, mas é curta, ainda que o contrário também seja aceitável. A informação está hoje muito mais acessível, e tudo o que as gerações anteriores fizeram (bem e mal) está lá para ser descoberto e analisado. Não há segredos. Imitar o positivo e evitar o negativo.

10. Não desistir. Agora a sério: Não Desistir.

Acabemos com os rodeios. Desistir é escandalosamente fácil. Olhamos para os rabiscos de infância e gargalhamos com a inocência. Recordamos os rabiscos da adolescência e sorrimos com a inocência. Na faculdade temos demasiado que estudar e demasiado que fazer, ainda que muito do que se fez hoje em dia não tenha grande importância. Ou então começamos a trabalhar demasiado cedo, demasiado cedo com horários, com responsabilidades, com prisões e desilusões. Quando concluímos os estudos, lá voltamos ao chavão da «profissão séria» que dificilmente passa por algo que não nos colocará um cêntimo na mesa. Divagaremos de emprego em emprego, com horários trocados, com esgotamentos ao virar da esquina, com a vida a manipular, subverter e minar de forma permanente toda a nossa energia e disponibilidade.

Se mesmo assim descobrirmos umas horas diárias, ou muito provavelmente semanais, para a escrita, começaremos a descobrir todas as suas dificuldades próprias, que nos demonstram que nunca abandonaremos o estado de «amador com boa vontade» se não mudarmos radicalmente os nossos horários. Se por qualquer milagre o conseguirmos, teremos de saber o que fazer, durante quanto tempo, como e porquê. Quando acabarmos o primeiro livro, teremos de começar o segundo, e depois do segundo terá de vir o terceiro, pois são muitos os autores que escondem diversos manuscritos nas gavetas. Para cada um deles, de acordo com o tamanho e complexidade, será muito difícil dispensar menos de um ano.

Portanto, depois de uma vida inteira a procurar obter as condições ideais para um trabalho sério, e de mais alguns anos (muitos, conforme o número de livros planeados) a ser disciplinado nesse trabalho (evitando horários desencontrados, distracções familiares, saídas nocturnas, ataques de letargia, desinspirações, entre outros engulhos), teremos ainda de lidar com a muito forte possibilidade de nunca vermos os nossos textos aprovados. E convenhamos, pode ser extremamente poético no caso alheio, mas quando nos toca, a que propósito precisamos que alguém nos publique depois de mortos? A cereja no topo do bolo é a dita publicação. São incontáveis os autores amargamente arrependidos de tal estatuto. Tanto, que «renegam» o trabalho, estando mais preocupados em ser esquecidos do que reconhecidos. É que o livro que temos na cabeça e aquele que chega ao mundo é demasiadas vezes assustadoramente diferente. Portanto, devido a inúmeros constrangimentos, temos de publicar «aquele» e não o «nosso».

Deixo de fora outras dificuldades. E a conclusão é só uma:

Temos de ser completamente loucos para fazer isto.

Porém, se o formos, que diabo: Escrita ou Morte!

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