Dez Mandamentos do Escritor

1. Escreve para ti

 

Talvez não seja possível responder à pergunta clássica: «porque se começa a escrever?».

Podemos, no entanto, inverter as coisas: «Nunca deve começar a escrever se…».

 – Está preocupado com a opinião alheia;

 – Precisa de ter «um trabalho sério»;

– Desconhece que o tempo se alimenta de sonhos;

– Ou que o aborrecimento se alimenta de sonhos fracos. E da falta de carácter.

Escrevemos porque sim. E escrevemos para nós. Se os outros gostam, é secundário. Se os outros não gostam, é secundário. Se formos publicados, é secundário. Se não formos publicados, é secundário. O objectivo é escrever.

2. Aprecia a Viagem

 

Como tudo o que é realmente importante na vida, o segredo não está na velocidade.

Apressarmos o raciocínio, as respostas, o cuidado que colocamos no trabalho, não é sinal de brilhantismo. É sinal de displicência e arrogância. E algumas vezes, de reprovação.

Da mesma forma, a tentação de «despacharmos» uma história rapidamente, quase nunca é sinal de qualidade.

Em muitos aspectos é como estar na cozinha. O pré-embalado, pré-cozinhado, pronto a servir pode resolver a vida dos ociosos, mas será prejudicial a longo prazo. O tempo e concentração que gastamos com cada ingrediente (personagem, cenário, enredo), será evidente no paladar final.

3. A Magia está no Detalhe

 

Um dos piores inimigos de uma boa história é uma escrita preguiçosa. Descrever não é cinema. Não basta dizer «o herói saltou e derrotou o inimigo. Os amigos aplaudiram, a mulher bonita abraçou-o.» Mesmo um filme assim filmado é um mau filme. Um livro assim escrito é ilegível.

E bem sabemos como estamos fartos de livros ilegíveis.

4. Demonstrar sem Dizer

 

Este aspecto está de certa forma ligado ao anterior. Escrever dá trabalho. Muito trabalho.

Devemos esperar que o leitor seja solidário com isso. Que se esforce o mínimo indispensável. Que pense. Sozinho e connosco. Que se interrogue sobre as razões que fazem a história e o protagonista seguirem aqueles caminhos. Que conclua. Que depreenda. Que imagine. Que arrisque. Que acerte. Que falhe.

E sobretudo, que construa também ele a sua história. Que ajude a compor as personagens. Que conceba os seus próprios finais.

Se querem coisas previsíveis, já existem as telenovelas.

5. Ler e Reler. E Reler.

 

Não podemos saltar de pára-quedas sem aprender a fazê-lo em terra. O desastre será inevitável.

Da mesma forma, ninguém escreve sem ler o que outros escreveram antes de nós.

Há que ler uma primeira vez para sabermos onde estamos, e uma segunda para sabermos onde realmente estamos. Por fim, uma terceira, para confirmar que não fomos parar a outro sítio.

Como afirma Woody Allen, «se tiveres de te inspirar nos outros, inspira-te nos melhores». Para sabermos quem são, há que lê-los. Ler muito.

E depois, ler mais uma vez.


escrita


6. Aberto ao Mundo

 

Por mais rebuscada que seja a forma de escrita, esta só é possível se retirada de qualquer lado. Por mais leve que seja, é essencial fazer investigação.

Se falarmos de uma doença, se descrevermos um acidente, se arquitectarmos uma discussão acesa ou um diálogo enamorado, teremos de utilizar todos os meios para que tal seja credível.

Nada nos obriga a fazer constantemente «trabalho de campo» ou a desarrumar as estantes nas bibliotecas. Basta estarmos um pouco mais atentos do que o cidadão comum.

Questionarmos, ainda que essas questões nunca abandonem o silêncio da mente.

7. Escrever e Reescrever. E depois, Editar.

 

Alguns autores parecem gostar de dizer em entrevistas: «Peguei na caneta e pousei-a na folha em branco à espera da musa».

Aqui, a musa é a obrigatória inspiração.

Portanto, algo virá não se sabe bem de onde, e «a história escrever-se-á a si mesma».

Sem plano, sem estrutura, sem detalhes registados, «ao sabor da pena».

Metade dos profissionais assim faz. A diferença para os amadores é que depois mergulham num longo e moroso processo de edição. Até à versão final, passam por dezenas de «rascunhos».

Depois, há o outro grupo. São aqueles que quando começam a escrever, já têm na cabeça o esqueleto do texto. Enchê-lo de carne e pele, torna-se infinitamente mais simples.

Contudo, obedecer ao esquema prévio, não provoca o nascimento da versão final à primeira tentativa. O que surge tem sempre de ser considerado um ensaio. Que se edita superficialmente, parágrafo a parágrafo, durante o processo. Que se reedita no fim do dia. E que se edita uma terceira vez, depois de concluída a obra.

Se deixarmos passar algum tempo, somos normalmente prisioneiros deste fenómeno: de cada vez que se relê, reedita-se. Cabe a cada um abandonar o processo na altura adequada.

8. Lidar com a Rejeição

 

Se obedecermos convictamente ao ponto um, este resolve-se sem esforço.

Contudo, a maioria das vezes escrevemos para alguém. A fraqueza humana dita que estejamos dependentes da comunicação, que passa pela reacção alheia à nossa mensagem.

Família e amigos são um público fácil, porque nos apoiam sempre, quer gostem quer apenas finjam gostar. Outros, porém, irão criticar a «criança-livro», o que é sempre custoso, mesmo que seja verdade. Sobretudo quando é verdade.

Existem duas fases. Quando o ego nos impele a mostrar um produto inacabado, todas as críticas são mais do que bem-vindas. Cumprem o papel do doloroso tratamento que irá, por fim, curar a doença. Por outro lado, se dispensámos o tempo e esforço suficientes para criar um produto profissional, as primeiras portas fechadas poderão ser uma desilusão e desmotivar alguns ao ponto da desistência.

É uma lei da vida. Muitas coisas boas ficam na sombra e muitas coisas más recebem elogios injustos. A escrita não está fora deste ciclo.

É obrigatório perceber quem, quando, porquê, como, rejeitou ou criticou o texto. Muitas vezes, essa rejeição pode não estar em nada relacionada com a sua qualidade. O que é um princípio.

A lista de dificuldades é longa, mas a lista de opções também. Desistimos quando estivermos mortos. Isto para não falar de todos os casos de autores publicados postumamente.

9. Aprender com os Outros

 

Todos os génios cometeram erros. Todos tiveram dúvidas, hesitaram, riscaram frases, rasgaram papel. Muitos consideraram-se indignos até ao fim dos dias, alguns chegaram ao extremo do suicídio. Outros pediram aos sobreviventes para destruírem tudo o que fora feito, convictos que não tinham qualidade.

A vida parece longa, mas é curta, ainda que o contrário também seja aceitável.

A informação está hoje muito mais acessível, e tudo o que as gerações anteriores fizeram (bem e mal) está lá para ser descoberto e analisado. Não há segredos. Imitar o positivo e evitar o negativo.

10. Não desistir. Agora a sério: Não Desistir.

 

Desistir é escandalosamente fácil.

Olhamos para os rabiscos de infância e gargalhamos com a inocência. Recordamos os rabiscos da adolescência e sorrimos com a inocência. Na faculdade temos demasiado que estudar e demasiado que fazer, ainda que muito do que se fez hoje em dia não tenha grande importância. Ou então começamos a trabalhar demasiado cedo, demasiado cedo com horários, com responsabilidades, com prisões e desilusões. Quando concluímos os estudos, lá voltamos ao chavão da «profissão séria» que dificilmente passa por algo que não nos colocará um cêntimo na mesa. Divagaremos de emprego em emprego, com horários trocados, com esgotamentos ao virar da esquina, com a vida a manipular, subverter e minar de forma permanente toda a nossa energia e disponibilidade.

Se mesmo assim descobrirmos umas horas diárias, ou muito provavelmente semanais, para a escrita, começaremos a descobrir todas as suas dificuldades intrínsecas, que nos demonstram que nunca abandonaremos o estado de «amador com boa vontade» se não mudarmos radicalmente os nossos horários.

Quando por qualquer milagre o conseguirmos, convém saber o que fazer, durante quanto tempo, como e porquê. Ao acabarmos o primeiro livro, teremos de começar o segundo, e depois do segundo terá de vir o terceiro, pois são muitos os autores que escondem diversos manuscritos nas gavetas. Para cada um deles, de acordo com o tamanho e complexidade, será muito difícil dispensar menos de um ano.

Portanto, depois de um longo período a procurar obter as condições ideais para um trabalho sério e de mais alguns anos (muitos, conforme o número de livros planeados) a ser disciplinado nesse trabalho (evitando horários desencontrados, distracções familiares, saídas nocturnas, ataques de letargia, desinspirações, entre outros engulhos), teremos ainda de lidar com a muito forte possibilidade de nunca vermos os nossos textos aprovados.

A cereja no topo do bolo é a dita publicação. São incontáveis os autores amargamente arrependidos de tal estatuto. Tanto, que «renegam» o trabalho, estando mais preocupados em ser esquecidos do que reconhecidos.

É que o livro que temos na cabeça e aquele que chega ao mundo é demasiadas vezes algo de muito diferente. Porém, devido a inúmeros constrangimentos, temos de publicar «aquele» e não o «nosso».

A conclusão é só uma: Temos de ser completamente loucos para fazer isto.

Por outro lado,  a sanidade serve para quê?

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