O Assalto Infame

«O Assalto Infame» é um texto de Eric K. Peterson, autor nascido na Suécia em 1945 e falecido em 1988. Traduzido aqui da versão francesa, no livro de contos «Oito Sonhos Incas».


Mexican Stone Carvings

Ressureição

Allan Merkin chegou ao México em 1923. Era verão e um calor húmido descia sobre a floresta tropical. Às onze e meia da noite, o seu guia trocou o caminho de umas ruínas desconhecidas por um punhado de pesos. Deixou Merkin à beira da descoberta, depois recusou-se a andar mais: es un entorno sagrado señor. Teve de continuar sozinho, tirando um, dois arbustos da frente, com a lâmina mal afiada que tinha comprado na aldeia. Na penumbra depararam-se-lhe duas filas de dois, solenes na pedra, sem nome, sem identidade, duas filas de dois, sacrificados. Ficou sem saber o que fazer, só a olhar, dormente. A luz que trazia deixou-se cair em foco para o chão. Merkin chegou-se à parede para ver melhor. Tirou o papel que trazia na mochila e desenhou o melhor que sabia as expressões vazias das ossadas em pedra. Ao lado viam-se textos ideográficos, mas era impossível saber o que diziam. O seu significado passou pelos seus olhos: aquí ponen los cuerpos de esos sacrificados a la luna y a las estrellas en la noche del solisticio, antes de nuestro fin. Pensou na morte e depois pensou na fama. Não lhe interessavam realmente as pessoas, mas a arte pela arte. A arqueologia servia regimes, porque não poderia servir igualmente a sua ambição? Pela primeira vez em 650 anos, aquelas caras tinham sido vistas, desde que foram abandonadas, desde que colapsara o Império para a Noite dos 500 anos. Merkin desenhou com cuidado os ideogramas: en una Luna llena, seré renacido del mundo oscuro, y entre ustedes mi memoria volará como el loro sobre los cielos dela jungla. Há uma lenda inca perdida que fala de um pássaro dourado que aparecia pela noite, na floresta, no dia a seguir à morte de uma pessoa que tivesse sido bondosa em vida. Dizia-se que o pássaro cantava uma canção como nenhum outro, mas que a uns soava apenas a um estridente grito de metal. Para os menos virtuosos, vinha um pássaro negro, pela manhã seguinte, com um esgar de ódio nos olhos, que ficava num ramo alto sem dizer nada, só de olhar fixo, violento, impiedoso. Hay un pájaro en su destino. Elija su destino como usted elegiría un pájaro. ¿usted tiene gusto por las plumas bellas, un dulce canto o una voz poderosa?

Arrependimento

O dia 13 de Fevereiro de 1477 foi memorável por duas razões. Primeiro, as colheitas tinham sido favoráveis, segundo o Império vivia uma paz inesperada. Nenhuma paz é verdadeiramente inesperada, mas apaziguada. Paz apaziguada por tributos, por oferendas. Sempre tinha sido assim. No entanto, neste dia, o conselho decidiu pela primeira e única vez fazer caçar sacrifícios. Era o terceiro circulo do quarto ano milenar do condor, quando Apalachiuacaua, senhor dos ventos, partiu em caçada com a corte para Oeste. Duzentos homens, de armadura de peito dourada fizeram trovejar o chão duro por pouco mais de duas horas de caminho. Chegaram como um relâmpago a uma pequena aldeia de agricultores. Sem critério, puxaram crianças, mulheres, homens e velhos das suas camas, das suas ocupações. A festa do Condor foi uma semana mais tarde. Os prisioneiros, a quem não tinha sido dada nenhuma comida, apenas folhas de coca e água, foram forçados a subir à pirâmide e empurrados um a um para o abismo. A praça central da cidade ficou a escorrer sangue e de noite os chacais ladravam incontrolavelmente na luta da sua posse. Ficou esta incursão em tempo de paz conhecida como «O Assalto Infame». A partir desta data, reinou um mau estar por todo o Império e diz-se que a chegada da Noite dos 500 anos foi a punição solar para o coração escuro do monarca caído em desgraça. As crianças cantam Apalachiuacaua, senhor dos ventos da desgraça, enquanto saltam umas por cimas das outras, na nova cidade da reconquista insular e as velhas amaldiçoam o seu nome quando a chuva cai por uma telha partida do tecto pobre.

O seu nome passou a significar arrependimento, arrependimento pela audácia de ser cruel sem razão.

Ressureição II

Abalipachiacua, apaziguamento dos mortos. Era um ritual antigo entre este povo. Mirkin olhou para uma série quase interminável de ideogramas fora do comum, com figuras de crocodilos, de aves em voo e de rios. Pensava em ouro e em cálices de barro, em campesinas vestidas com tecidos floridos e uma criança ás costas, que ri a apontar para o céu azul. Qualquer coisa nestas clareiras cheira a proibido e ele sentia-se um pouco como o guia, só sendo diferente por ser Europeu.

Os Europeus só têm medo de outros Europeus, todos os outros medos são superstições ultrapassadas.

Há um ideograma para superstição, é dos poucos que se podem traduzir. Mas ainda não o tinha visto. Agora era aquela imensa fila de símbolos, que o atraiam pela magia de um movimento na pedra, quando a pedra é o último sitio que o pode manifestar. Magia poderosa. Magia natural. Es una gran Magia. Vinimos aquí de las estrellas y volveremos a ellas, no importa nuestra vida mortal. Acariciemos a la nuestra madre naturaleza que nos cuida y aprenderemos la inmortalidad de ella en las flores y en los vientos. Entonces seremos renacidos repetidamente en su maravilla, y seremos para siempre hijos de su corazón.

 

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s