O Tempo do Papalagui

Douglas Fairbanks


Deparei-me com excertos do velho clássico «Papalagui», conjunto de reflexões de um selvagem, líder de uma tribo da Samoa, gravadas e transcritas por um expedicionário alemão em 1920. Os discursos ilustram a sua visão do «Papalagui», termo que na sua língua designa o «homem branco» ou «europeu».

Eis o que o nativo tem a dizer sobre o Tempo:

«O Papalagui nunca está contente com o tempo que lhe coube e censura o Grande Espírito por não lhe ter dado mais. Chega mesmo a blasfemar contra Deus e a sua grande sabedoria, dividindo e subdividindo cada novo dia que nasce, segundo um plano bastante preciso. Corta-o como se cortaria em pedaços uma noz de coco mole com um cutelo.

As várias partes têm todas um nome: segundo, minuto, hora. O segundo é mais pequeno do que o minuto e este mais pequeno do que a hora. As horas são feitas de todos os segundos e minutos juntos, e é preciso ter sessenta minutos e muitos mais segundos para fazer uma hora.

É uma coisa muito confusa, que eu na realidade nunca percebi, pois me indispõe reflectir mais do que o devido em coisas tão pueris».

(…)

«Ao ouvir o barulho da máquina do tempo, queixa-se o Papalagui assim: ‘Que pesado fardo; mais uma hora que se passou!’ E ao dizê-lo, mostra geralmente um ar triste, como alguém condenado a uma grande tragédia. No entanto, logo a seguir principia uma nova hora!

Como nunca fui capaz de entender isto, julgo que se trata de uma doença grave. ‘O tempo escapa-se-me por entre os dedos!’; ‘O tempo corre mais veloz que um cavalo!’; ‘Dá-me um pouco mais de tempo.’ – tais são os queixumes do homem branco.

Dizia eu que se deve tratar de uma espécie de doença…suponhamos, com efeito, que um Branco tem vontade de fazer qualquer coisa e que o seu coração arde em desejo por isso: que, por exemplo, lhe apetece ir deitar-se ao sol, ou andar de canoa no rio, ou ir ver a sua amada. Que faz ele então? Na maior parte das vezes estraga o prazer com esta ideia fixa: ‘não tenho tempo de ser feliz’. Mesmo dispondo de todo o tempo que queira, nem com a melhor boa vontade o reconhece. Acusa mil e uma coisas de lhe tomarem o tempo e, de mau grado e resmungando, debruça-se sobre o trabalho que não tem vontade nenhuma de fazer, que não lhe dá qualquer prazer e que ninguém, a não ser ele próprio, o obriga a fazer. Quando, de repente, se dá conta de que tem tempo, que tem realmente todo o tempo à sua frente, ou quando alguém lhe dá tempo – os Papalaguis dão frequentemente tempo uns aos outros, é mesmo a acção que mais apreciam – nessa altura, ou já não tem vontade, ou já se cansou desse trabalho sem alegria. E geralmente deixa para o dia seguinte o que podia fazer no próprio dia».

(…)

«Raros são os que, na Europa, dispõem realmente de tempo. Ou talvez nem sequer existam. É por isso que eles passam a vida a correr à velocidade de uma pedra lançada no ar. A maior parte olha para o chão, quando caminha, e balança muito os braços para ir mais depressa. Quando os detêm, gritam indignados: ‘Que ideia a tua, de me vires perturbar! Não tenho tempo! E tu, trata de empregar bem o teu!’ Tudo se passa como se o que anda depressa tivesse mais valor e bravura do que o que vai devagar».

(…)

«A meu ver, é precisamente por o Papalagui tentar reter o Tempo com as mãos, que este se lhe escapa por entre os dedos, como uma serpente por mão molhada.
O Papalagui nunca deixa que ele venha ao seu encontro. Corre sempre atrás dele de braços estendidos, não lhe concede o repouso necessário, não o deixa apanhar um pouco de sol. Tem de ter sempre o tempo ao pé de si, para lhe cantar ou contar qualquer coisa.
Mas o tempo é calma, é paz e sossego, gosta de nos ver descansar, estendidos na nossa esteira. O Papalagui não se apercebeu ainda do que o tempo é, não o compreendeu. É por isso que o maltrata, com os seus modos rudes».

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