De como Começa

© Eder Chiodetto – O Lugar do Escritor

Ultrapassa-me, e nem considero relevante, se realmente nascemos com aquilo que se entende por talento. Quando se questionam os «como» e os «porquê», não raras vezes se procura simplificar, sendo simplista: «É algo inato».

Parece-me uma explicação pífia, pois parece servir de pouco nascer ou não com alguma capacidade entranhada nos genes se depois o meio envolvente não reunir as condições para que esse «talento» seja descoberto. Digamos que um canalizador, por exemplo, poderia ser bom a matemática nos poucos anos em que frequentou a escola, mas rodeado de condições sociais inadequadas, acabou como canalizador, continuando perfeitamente ignorante acerca do «talento» intrínseco que parecia possuir para se tornar um engenheiro civil. Aceitando até que alguma composição considerada brilhante acabe por permitir a «descoberta» de um «talento» especial para a escrita, os degraus que essa pessoa precisa de subir até chegar a um prémio literário relevante, ou a uma carreira feita de livros, parecem-me a todos os níveis praticamente intransponíveis.

Seria por isso complexa, longa, e até aborrecida, a reflexão sobre todos os factores internos e externos, sociais e psicológicos, que permitem ou impedem que cada um descubra esse «talento» e através dele se realize.

No meu caso, suspeito que tudo é muito mais maldição do que bênção. Porque inserido num contexto solitário e literariamente entusiasmante, senti a natural tendência para responder a esse estímulo, tendo muitos outros factores contribuído à sua maneira para que a semente germinasse. Inevitavelmente, a imitação do que era lido, um toque aqui, uma adição acolá, para que um pequeno extra se destacasse da mediania do meio. Pequenos troféus que se exibem, qual notas de música, para a plateia familiar.

Sedutora e perigosa, alimentando-se as duas emoções de forma autofágica, a fase amadora. Sem rede, sem plano, sem esquema, sem estrutura. Ideias como um rio solto, que à semelhança deste, podem transportar para longe ao mesmo tempo que arrastam para o fundo. E essas profundezas estão repletas de «talentos».

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