Autores Argentinos – Jorge Luís Borges


Viveu entre 1899 e 1986. Foi escritor, poeta, tradutor, crítico literário.

Em 1914 a sua família mudou-se para a Suíça, local onde aproveitou para fazer os estudos, e depois para Espanha. No regresso à Argentina, em 1921, Borges começou a publicar poemas e ensaios em revistas literárias surrealistas. Também trabalhou como bibliotecário e professor universitário público. Em 1955 foi nomeado director da Biblioteca Nacional da República Argentina e professor de Literatura na Universidade de Buenos Aires. Em 1961, destacou-se no cenário internacional quando recebeu o primeiro prémio internacional de editores, o Prémio Formentor Internacional.

O seu trabalho foi traduzido e publicado extensamente nos Estados Unidos e Europa. Borges era fluente em várias línguas.

A sua obra abrange o «caos que governa o mundo e o carácter de irrealidade em toda a literatura». Os seus livros mais famosos, Ficciones (1944) e O Aleph (1949), são colectâneas de histórias curtas interligadas por temas comuns: sonhos, labirintos, bibliotecas, escritores fictícios e livros fictícios, religião, Deus. Os seus trabalhos têm contribuído significativamente para o género da literatura fantástica. Estudiosos notaram que a progressiva cegueira de Borges ajudou-o a criar novos símbolos literários através da imaginação, já que «os poetas, como os cegos, podem ver no escuro». Os poemas do seu último período dialogam com vultos culturais como Spinoza, Luís de Camões e Virgílio.

A sua fama internacional foi consolidada na década de 1960, ajudado pelo boom latino-americano e o sucesso de Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Márquez. Numa homenagem a Borges, surge em O Nome da Rosa, um romance de Umberto Eco, o personagem Jorge de Burgos, que além da semelhança no nome, é cego – assim como Borges foi ficando ao longo da vida. Além da personagem, a biblioteca que serve como pano de fundo do livro é inspirada no conto de Borges A Biblioteca de Babel (uma biblioteca universal e infinita que abrange todos os livros do mundo).

O escritor e ensaísta John Maxwell Coetzee disse sobre ele: «Borges, mais do que ninguém, renovou a linguagem de ficção e assim, abriu o caminho para uma geração notável de romancistas hispano-americanos».

Jorge Luís Borges nasceu numa família de classe média, com boa educação. A mãe veio de uma tradicional família uruguaia. O seu livro de 1929, Cuaderno San Martín, incluiu um poema, Isidoro Acevedo, em homenagem ao seu avô materno, um soldado do exército de Buenos Aires que era contra o ditador Juan Manuel de Rosas. Isidoro de Acevedo Laprida morreu de congestão pulmonar na casa onde o seu neto, Jorge Luís Borges, nasceu.

Segundo um estudo, Jorge Luís Borges tem ascendência portuguesa: o bisavô de Borges teria nascido em Portugal, em 1770, e vivido na localidade de Torre de Moncorvo, situada no Norte de Portugal, antes de emigrar para a Argentina.

Aos sete anos de idade, Borges já teria revelado ao pai que seria escritor. Aos nove, escreve o seu primeiro conto, La visera fatal, inspirado num episódio de Dom Quixote. Em 1914, muda-se com os pais para a Europa, morando inicialmente em Genebra, na Suíça, onde conclui os estudos, e depois em Espanha. Em 1921, regressa a Buenos Aires, onde participa activamente na efervescente vida cultural da cidade. Em 1923, publica o seu primeiro livro de poemas, Fervor de Buenos Aires. Iniciava-se, assim, uma das mais brilhantes carreiras literárias do século XX.

Borges morreu em Genebra com cancro de fígado e enfisema, e lá foi sepultado, por opção pessoal, no Cimitiere des Rois.

A sua obra destaca-se por abordar temáticas como a filosofia (e os seus desdobramentos matemáticos), metafísica, mitologia e teologia, em narrativas fantásticas onde figuram os «delírios do racional» (Bio Casares), expressos em labirintos lógicos e jogos de espelhos. Ao mesmo tempo, também abordou a cultura das Pampas argentinas, em contos como O Morto, Homem da esquina rosada e O Sul. Lida com campanhas militares históricas, como a guerra argentina contra os índios durante a presidência, entre outros, do escritor Domingo Faustino Sarmiento; trata-as, porém, como pano de fundo para criações fictícias, como História do Guerreiro e da Cativa.


alephLivro de histórias curtas de Jorge Luís Borges, publicado em 1949, que contém, entre outros, o conto que dá nome ao livro. O escritor aborda vários pontos paradoxais como a Imortalidade, a Identidade, o Duplo, a Eternidade, o Tempo, a Soberba, a Condição Humana e as suas crenças, com um alto grau de criatividade e escrita superior, e com elevadíssimo grau cultural, submetendo o leitor a um intrincado labirinto de ideias e reflexões.

A literatura de Borges exige e desafia o leitor. A sua escrita, repleta de alusões e simbolismos, introduz o leitor num labirinto de palavras que remete para toda a construção literária. O simbolismo utilizado, em conjunto com uma escrita que mistura diversas raças, países, e referências culturais, são a assinatura de Borges. Mário Vargas Llosa, escritor peruano e vencedor do prémio Nobel de Literatura, no seu livro Sabres e Utopias, onde admite a influência de Borges no seu trabalho, acredita que o conto, pela sua brevidade, era o género mais apropriado para a escrita borgiana, pois permitia ao autor, com o seu espantoso talento para a condensação, escrever de forma atractiva, com dramaticidade e até mesmo com abstracção, graças ao seu imenso domínio literário.

No conto Aleph, especificamente, o protagonista depara-se com a possibilidade de conhecer o ponto do espaço que abarca toda a realidade do universo num local bastante inusitado: no porão de um casarão situado em Buenos Aires, prestes a ser demolido. Este ponto recebe a alcunha de Aleph – a letra inicial do alfabeto hebraico, correspondente ao alfa grego e ao «A» dos alfabetos romanos.

O universo (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas. De qualquer hexágono, vêem-se os andares inferiores e superiores: interminavelmente. A distribuição das galerias é invariável. Vinte prateleiras, em cinco longas estantes de cada lado, cobrem todos os lados menos dois; a sua altura, que é a dos andares, excede apenas a de um bibliotecário normal.

Como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, talvez do catálogo dos catálogos; agora que os meus olhos quase não podem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer, a poucas léguas do hexágono onde nasci. Morto, não faltarão mãos piedosas que me joguem pela balaustrada; a minha sepultura será o ar insondável; o meu corpo cairá demoradamente e se corromperá e dissolverá no vento gerado pela queda, que é infinita.

Afirmo que a Biblioteca é interminável.

A cada um dos muros de cada hexágono correspondem cinco estantes; cada estante encerra trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro é de quatrocentas e dez páginas; cada página, de quarenta linhas; cada linha, de umas oitenta letras de cor preta.

Há quinhentos anos, o chefe de um hexágono superior deparou com um livro tão confuso como os outros, porém que possuía quase duas folhas de linhas homogéneas. Mostrou seu achado a um decifrador ambulante, que lhe disse que estavam redigidas em português; outros lhe afirmaram que em iídiche. Antes de um século pôde ser estabelecido o idioma: um dialeto samoiedo-lituano do guarani, com inflexões de árabe clássico. Também se decifrou o conteúdo: noções de análise combinatória, ilustradas por exemplos de variantes com repetição ilimitada. Esses exemplos permitiram que um bibliotecário de génio descobrisse a lei fundamental da Biblioteca. Esse pensador observou que todos os livros, por diversos que sejam, constam de elementos iguais: o espaço, o ponto, a vírgula, as vinte e duas letras
do alfabeto. Também alegou um facto que todos os viajantes confirmaram: «Não há, na vasta Biblioteca, dois livros idênticos». Dessas premissas incontrovertíveis deduziu que dos vinte e tantos símbolos ortográficos (número, ainda que vastíssimo, não infinito) ou seja, tudo o que é dado expressar: em todos os idiomas.

Quando se proclamou que a Biblioteca abarcava todos os livros, a primeira impressão foi de extravagante felicidade. Todos os homens se sentiram senhores de um tesouro intacto e secreto. Não havia problema pessoal ou mundial cuja eloquente solução não existisse em algum hexágono. O universo estava justificado, o universo bruscamente usurpou as dimensões ilimitadas da esperança.

À desmedida esperança sucedeu, como é natural, uma depressão excessiva. A certeza de que alguma prateleira em algum hexágono encerrava livros preciosos e de que esses livros preciosos eram inacessíveis afigurou-se quase intolerável. Uma seita blasfema sugeriu que cessassem as buscas e que todos os homens misturassem letras e símbolos, até construir, mediante um improvável dom do acaso, esses livros canónicos. As autoridades viram-se obrigadas a promulgar ordens severas. A seita desapareceu, mas na minha infância vi homens velhos que demoradamente se ocultavam nas latrinas, com alguns discos de metal num fritilo proibido, e debilmente arremedavam a divina desordem.

Outros, inversamente, acreditaram que o primordial era eliminar as obras inúteis. Invadiam os hexágonos, exibiam credenciais nem sempre falsas, folheavam com fastio um volume e condenavam prateleiras inteiras: ao seu furor higiénico, ascético, deve-se a insensata perda de milhões de livros.

Excerto de Biblioteca de Babel 

Nunca se tinha demorado nos prazeres da memória. As impressões resvalavam sobre ele, momentâneas e vívidas; o vermelhão de um oleiro, a abóbada carregada de estrelas que também eram deuses, a lua, de onde tinha caído um leão, a lisura do mármore sob as lentas gemas sensíveis, o sabor da carne de javali, que gostava de rasgar com dentadas brancas e bruscas, uma palavra fenícia, a sombra negra que uma lança projeta na areia amarela, a proximidade do mar ou das mulheres, o pesado vinho cuja aspereza o mel mitigava podiam abarcar por inteiro o âmbito da sua alma. Conhecia o terror, mas também a cólera e a coragem, tendo sido uma vez o primeiro a escalar um muro inimigo. Ávido, curioso, casual, sem outra lei que a do gozo e da indiferença imediata, andou pela terra vária e olhou, numa e noutra margem do mar, as cidades dos homens e os seus palácios. Nos mercados populosos ou no sopé de uma montanha de cume incerto, onde bem podia haver sátiros, tinha escutado complicadas histórias que recebeu como recebia a realidade, sem indagar se eram verdadeiras ou falsas.

Gradualmente, o formoso universo foi-o abandonando; uma teimosa neblina confundiu-lhe as linhas da mão, a noite despovoou-se de estre­las, a terra era insegura sob os seus pés. Tudo se afastava e confundia. Quando soube que estava a ficar cego, gritou; o pudor estóico ainda não fora inventado e Heitor podia fugir sem deslustre. «Já não verei — percebeu — nem o céu cheio de pavor mitológico, nem esta cara que os anos transformarão.» Dias e noites passaram sobre esse desespero na sua carne, mas uma manhã acordou, olhou (já sem espanto) as indistintas coisas que o rodeavam e inexplicavelmente sentiu, como quem reconhece uma música ou uma voz, que tudo isso já lhe tinha acontecido e que o encarara com temor, mas também com júbilo, esperança e curiosidade. Então desceu à sua memória, que lhe pareceu interminável, e conseguiu tirar daquela vertigem a recordação perdida que reluziu como uma moeda sob a chuva, talvez porque nunca a tivesse olhado, salvo, quem sabe, num sonho.

A recordação era assim. Outra criança havia-o insultado e ele fora ter com o seu pai e tinha-lhe contado a história. Este deixou-o falar como se o não ouvisse ou compreendesse e despendurou da parede um punhal de bronze, belo e carregado de poder, que a criança tinha furtivamente cobiçado. Agora segurava-o nas mãos e a surpresa da posse anulou a injúria sofrida, mas a voz do pai dizia: «Que alguém saiba que és um homem», e havia uma ordem na voz. A noite cegava os caminhos; abraçado ao punhal, em que pressentia uma força mágica, desceu a brusca ladeira que rodeava a casa e correu até à beira-mar, julgando-se Ajax ou Perseu e povoando de feridas e batalhas a obscuridade salobra. O que procurava era o preciso sabor daquele momento; não lhe importava o resto: as afrontas do desafio, o torpe combate, o regresso com a lâmina ensanguentada.

Outra recordação, em que também havia uma noite e uma iminência de aventura, brotou daquela. Uma mulher, a primeira que lhe enviaram os deuses, tinha-o esperado na sombra de um hipogeu, e ele procurou-a por galerias que eram como redes de pedra e por declives que se afundavam na sombra. Porque lhe chegavam essas memórias e porque lhe chegariam elas sem amargura, como uma mera prefiguração do presente?

Com grave assombro compreendeu. Nessa noite dos seus olhos mortais, onde agora descia, aguardavam-no também o amor e o risco. Ares e Afrodite, porque já adivinhava (já o cercava) um rumor de glória e de hexâmetros, um rumor de homens que defendem um templo que os deu­ses não salvarão e de baixéis negros que procuram no mar uma ilha que­rida, o rumor das Odisseias e Ilíadas que era seu destino cantar e deixar ressoando concavamente na memória humana. Sabemos estas coisas, mas não as que sentiu ao descer à última sombra.

O Fazedor

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