Esperei por Godot em Dublin

Desloquei-me ao Smock Alley Theatre.

Foi reaberto em 2012, após 3,5 milhões de euros de investimento, de forma a recuperar uma infraestrutura originalmente construída em 1662, o que faz deste um dos teatros mais antigos de Dublin. Esteve activo até 1787, tendo depois passado por uma série de peripécias até recuperar a sua função original.

Foi com agrado que aproveitei a oportunidade para assistir a uma das mais famosas peças de sempre, «À espera de Godot» de Samuel Beckett, um irlandês nascido a poucos quilómetros de Dun Laoghaire, em 1906.

O que há para dizer sobre esta peça que não tenha sido inúmeras vezes repetido ao longo das décadas? Que outra análise, sob que perspectiva poder-se-á ainda analisar o texto, depois de tantas leituras religiosas, sociais, filosóficas e políticas? De tudo se disse, até se desencantou uma análise homo-erótica sobre os protagonistas.

A seguir algum destes caminhos, escolheria naturalmente o existencialista, ainda que Beckett nunca se tenha comprometido com nenhuma baliza. «Trata sobre simbioses» foi o mais específico que se ouviu sobre o caso.

Parece-me contudo incontornável associar aquela árvore à «Árvore da Vida», Godot a todas as utopias que presumimos constituírem a «salvação-felicidade» e os dois companheiros a diversos binómios, sobretudo o Mente-Corpo e seus derivados (optimismo-pessimismo, acção-reacção, activo-passivo, contemplativo-prático).

Seria patética presunção garantir o que Beckett quis dizer, porque talvez não tenha querido dizer especificamente nada, havendo por isso espaço para a tal «simbiose» e para os inúmeros raciocínios. Posso apenas resumir o que retive com maior segurança.


En Attendant Godot, Paris, 1953


A vida vivida em termos humanos é Absurdo. É uma espera castradora e inútil. É Percepção enganadora. É perspectiva. É espelho. É repetição. Repetição pode ser inferno. Vida pode ser Inferno. A luz está lá para ser vista, mas nunca o é. Esperamos até ao fim por uma luz que não chega, porque já lá está, ainda que invisível para quem não olha. O Homem não olha. O Homem não Vê. Godot é salvação. Godot é prisão. Homem é prisioneiro de si próprio.

 

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