Século XV-XVI – A Narrativa

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Fernão Lopes

De origem humilde, terá nascido entre 1380 e 1390. Tabelião geral do reino, em 1418 é nomeado, por D. João I, guarda-mor da Torre do Tombo e no ano seguinte escrivão da puridade (secretário de confiança) deste e depois de D. Duarte. Em 1454 foi substituído pelo cronista Gomes Eanes de Zurara. Julga-se que morreu em 1460.

Da sua obra destacam-se as Crónicas dos reis D. Pedro I, D. Fernando e D. João I.

Perspectivou a vida nacional como um grande painel onde sobressaísse a sociedade no seu todo, nas múltiplas facetas: políticas, económicas e sociais. Procurou, com um espírito crítico, investigar os factos, ordená-los e tentar transmiti-los sem influências de qualquer espécie. Primou pelo relato objectivo da verdade.

Pêro Vaz de Caminha

Crê-se que é natural do Porto, onde terá nascido por volta de 1450. Era seu pai Vasco Fernandes de Caminha. Como ele, desempenhou o cargo de mestre da Balança da Casa da Moeda. Foi cavaleiro da casa de D. Afonso V, de D. João II e de D. Manuel I. Em 1500 alistou-se na armada de Pedro Álvares Cabral, o que lhe permitiu escrever a Carta sobre o Achamento do Brasil.

Pelas revelações da Carta parece conhecer razoavelmente os povos de África, talvez por ter realizado algumas viagens a esse continente. É também por ela que sabemos que Jorge de Osório era seu genro, casado com a sua filha Isabel de Caminha, fruto do seu possível casamento com Catarina Vaz de Caminha.

Se nem tudo é claro sobre a sua vida, a Carta porém, merece um destaque especial dentro da literatura de viagens, na medida em que se apresenta como um documento rigoroso, fidedigno, crítico e conciso da chegada ao Brasil e dos contactos com uma fauna, uma flora e uma civilização totalmente diversas das conhecidas pelos Europeus.

Bernardim Ribeiro

No género narrativo, Menina e Moça impôs Bernardim Ribeiro como criador de uma novela sentimental e saudosista, numa época em que o gosto popular se habituara aos enredos de gestas de cavalaria. Aqui é o amor, a força dominadora que arrasa os corações e exige submissão. As personagens são vítimas indefesas de um destino que as desperta para o amor, mas que lhes nega a felicidade de serem amadas. E são principalmente as mulheres as que mais sofrem as consequências da infelicidade.

No solilóquio inicial, a novela afirma que «este livro, só os tristes o poderão ler». A psicologia da alma humana analisada pelo autor vem de encontro ao espírito saudosista e nostálgico dos portugueses, a que não é estranha uma certa melancolia amorosa e fatalista.

A estrutura da obra, mais do que novelesca, é psicológica, na medida em que a acção e sentimento trágico são comandados e orientados pelo amor. Este torna-se o valor dominante do qual devem depender os restantes.

Ao longo das várias histórias de aventuras e desventuras, assistimos à admirável análise da psicologia feminina através das confidências das personagens, da expressão da sua afectividade e sensibilidade, dos ardis do enamoramento, da capacidade de espera e submissão, da revelação das saudades e do sofrimento e das mudanças negativas.

Do ponto de vista da narrativa, o que está escrito no livro é a história de amores frustrados e o propósito da obra é relatar o que, visto e ouvido «em coisas alheias», a faz (à personagem) reviver o seu próprio sofrimento.

Trata-se assim de uma novela intimista, confessionista e autobiográfica de carácter sentimental e de tendência feminista. As influências do classicismo encontram-se no inerente e transversal fatalismo.

Camões

A Epopeia – Os Lusíadas

Definição: narrativa, geralmente numa estrutura de poema, que traduz as façanhas ou o espírito de um povo e que tem interesse para esse povo e para a Humanidade. Reporta-se ao tempo do mito, quando o homem não adquirira ainda plena consciência de si. Alterna-se o humano e o maravilhoso.

Partes de uma epopeia:

  • Proposição (apresentação do assunto)
  • Invocação (súplica da inspiração)
  • Dedicatória (oferecimento da obra)
  • Narração (desenvolvimento do assunto)

Os Lusíadas:

  • Proposição – referências às navegações e conquistas do Oriente entre os reinados de D. Manuel e D. João III, as vitórias em África de D. João I e a organização do país durante a 1ª dinastia.
  • Invocação – súplica às ninfas do Tejo (Tágides); súplica a Calíope.
  • Dedicatória – oferecimento do poema a D. Sebastião.
  • Narração

Narradores ao longo da obra: Camões, Vasco da Gama, Paulo da Gama, Fernão Veloso.

Elementos de uma epopeia:

Acção – Personagem/Herói – Maravilhoso – Forma

Na obra:

  • Acção: viagem marítima de Vasco da Gama à Índia.
  • Personagem/Herói: o Povo Português, representado por Vasco da Gama.
  • Maravilhoso: Intervenções do Deus Cristão e das divindades mitológicas.
  • Forma: narrativa, verso decassilábico, poema dividido em dez cantos.

Planos

Plano da Viagem, Plano da História de Portugal, Plano do Poeta, Plano da Mitologia

Fernão Mendes Pinto

Viveu entre 1510 e 1583. Nascido em Montemor-o-Velho, muito cedo foi para Lisboa, para o serviço de uma dama importante. Entretanto foi para Setúbal, para casa do fidalgo Francisco de Faria, onde foi moço de câmara. Num dia em que se dirigia de barco para essa cidade, foi aprisionado por piratas franceses que o pretendiam comercializar como escravo em Marrocos, mas que acabam por deixá-lo na praia de Melides. Em 1537, foi para a Índia onde viveu as mais estranhas aventuras ao longo de 21 anos. Participou em actos de pirataria e em missões diplomáticas, foi mercador, vendido como escravo e prisioneiro, passou pelas mais diversas experiências desde a Etiópia ao Japão. Foi companheiro de S. Francisco Xavier, a quem acompanhou nas missões apostólicas na China e no Japão. De regresso à pátria, ainda procurou que lhe reconhecessem os serviços prestados no Oriente, mas tal apenas lhe valeu dois alqueires de trigo concedidos por Filipe II.

Acabou por ir viver para Almada, onde faleceu.

A Peregrinação foi o que o celebrizou a nível nacional e universal, na medida em que é uma das mais fascinantes obras de literatura de viagens. As dúvidas que a veracidade da obra levanta não prejudicam a narrativa nem as descrições dos costumes e das terras orientais. Podemos assistir aos naufrágios, à pirataria, à pesca e roubo das pérolas e de outros materiais preciosos, à vida nas masmorras, às relações comerciais, às actividades diplomáticas, à vida nos palácios ou às missões apostólicas. Na busca da riqueza, deparamos com verdadeiras selvajarias, mas, de seguida, vemos mercadores ou piratas a rezarem a Deus. Num misto de realidade e ficção, podemos ver a beleza exótica do Oriente e compreender um pouco melhor o aventureiro português que conquistou os mundos.

Conta a Peregrinação aventuras do autor em mar e em terra, desde a Arábia à Etiópia, passando pela Índia, China, Japão, Indonésia e outros recantos do Mundo. É por isso e em princípio, um livro autobiográfico.

É hoje em dia reconhecida unanimemente como uma peça autêntica em que se reúnem descrições de terras e usos até então desconhecidos na Europa. É também um contraponto à epopeia dos Descobrimentos.

Isto porque não há falsos patriotismos em Fernão Mendes Pinto. O português fica reduzido no seu livro às proporções que verdadeiramente tinha no seu tempo: heróico, ambicioso, sem escrúpulos de maior e um odre de vaidade. Através de toda a obra sente-se na verdade como os piores instintos facilmente irrompem do coração dos homens que trazem constantemente Jesus na boca, uma curiosa particularidade do cristão português.

Quanto ao estilo e linguagem, é algo de muito fluente, espontâneo e natural, sem artifícios literários, encontra-se exotismo oriental nos dialectos indígenas, e está ainda presente um grande realismo descritivo.

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