Deambular – 1

Voltei a descobrir o tempo suficiente para deambular.

Parti rumo a Killiney, uma das cidades costeiras nos arredores de Dun Laoghaire. O percurso terminou em Killiney Hill, zona florestada que alberga diversos cumes montanhosos, miradouros para a extraordinária linha marítima que se estende até Bray.

Encontro sempre qualquer coisa de plácido nestes caminhos verdejantes, por entre a brisa no arvoredo, os cães que correm, as crianças que saltam. Seguindo pelo carreiro que contorna o lado direito da colina, chego ao primeiro monumento, um obelisco erguido em 1742 com o objectivo de dar emprego à população, numa época de fome acentuada no território.

Poucos metros depois, encontro a emblemática Wishing Stone (Pedra dos Desejos), uma construção piramidal de formas rectangulares, cujos degraus, subidos na totalidade no sentido dos ponteiros do relógio, parecem ter, segundo a lenda, a capacidade de conceder todos os desejos.

Não existem garantias quanto ao misticismo, mas sentado no topo, não me sobram quaisquer dúvidas acerca da beleza panorâmica que oferece. Recordo a primeira vez que ali estive, e de como foram locais e momentos deste género que motivaram a minha vinda definitiva para este país.

Regresso pelo caminho mais longínquo, que me permite encontrar um dos famosos pubs da região, o Druid’s Chair (Cadeira do Druida) assim baptizado em honra do monumento em pedra com o mesmo nome, perdido entre as florestas de Killiney.

Gasto cerca de uma hora por entre estradas secundárias que servem propriedades luxuosas, ocultas entre o arvoredo ondulante. Dizem ser aqui que as classes altas se resguardam, o que atrai os turistas desejosos de descobrir o castelo de Enya ou o refúgio de Bono.

Por fim, chego a Killiney Beach, enseada muito explorada pelos fazedores de postais. As primeiras impressões registam a ondulação em baixo ritmo e o intenso odor a maresia. À semelhança da maioria das praias nesta latitude, tudo é mais feito de pedra do que de areia, mas isso não me retira o interesse, antes pelo contrário.

Aproxima-se o fim da tarde, feita de um sol morno, espelhado nas águas límpidas que desembocam pacificamente sobre os seixos perfeitos que formam a praia. Vislumbro um idoso a peneirar o espaço com um detector de metais. Atrás de mim, à esquerda, as colinas que acabei de descer, a linha do comboio, vivendas salpicadas. À direita, a baía de Bray. É neste cenário que acolho uma verdadeira paz interior, um alheamento total sobre qualquer coisa que exceda as fronteiras desta ilha.

É real, mas é em simultâneo demasiado perfeito para abdicar de uma espécie de impossibilidade metafísica.

Instantes de luz, é tudo o que se pode ambicionar.

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