Berlim – 1

Hauptbanhof, Berlin

© Bernardo Martins

Há quem diga que Berlim é uma cidade absolutamente encantadora durante os meses de Verão.

Destacam as árvores floridas ao longo das intermináveis avenidas, os parques repletos de vida e de turistas, de crianças que brincam, de famílias. O sol é intenso, as ruas são animadas, o ambiente é agradável e convidativo.

Porém, não foi no Verão que me desloquei a Berlim.

Os senhores que redigem o guia de viagens já me tinham avisado. Evitar a todo o custo visitar a cidade entre Novembro e Fevereiro. Encontrará chuva, ou mesmo neve, os dias serão curtos e escuros, ficará enregelado com o assobiante vento de leste.

Como é fácil de perceber, escolhi ignorar tão valorosos conselhos. E parti rumo à capital alemã nos primeiros dias do ano.

A energia para a viagem não era a habitual, e menor ficou perante o horário absurdo do avião, que praticamente me roubou a noite. O voo passou-se sem percalços, pelo que aterrei a meio da manhã no velho aeroporto de Tegel, rodeado pela alvura cinza da neve tombada na véspera.

Talvez cada cidade seja o reflexo do povo que a constrói e habita, ou talvez não, mas torna-se difícil não defender essa ideia quando atravessamos as ruas simétricas da metrópole, linhas direitas que rodeiam edifícios rectangulares e monocórdicos, imensos, gigantes, soturnos, perfurados por dezenas de pequenas janelas gémeas. Blocos de betão todos eles riscados de pinturas urbanas, artísticas algumas, dispensáveis quase todas.

O táxi segue rumo a Kreuzberg, um bairro encalhado na fronteira entre as antigas zonas americana e russa (não esquecer que no pós-II Guerra a cidade foi esquartejada entre as quatro potências vencedoras – EUA, União Soviética, França e Reino Unido).

Hoje em dia é um bairro dito alternativo, de população maioritariamente turca, onde se refugiam também «artistas» e comunidades minoritárias. É lá que me oferecem alojamento.

Depois de um almoço tranquilo, decido ocupar o que resta da tarde numa zona central e relativamente próxima, pelo que apanho um autocarro rumo ao denominado Checkpoint Charlie – nome dado a um dos postos militares que dividiam Berlim Ocidental e Oriental durante a Guerra Fria – hoje obviamente transformado em memória turística.

Recordo pela primeira vez as palavras do guia de viagem: a tarde é fria e cinzenta, e o famoso «vento de leste» chicoteia-me os passos ao longo da Friedrischstrat (extensa e famosa avenida) antes de por fim desembocar na Under der Mitte (uma espécie de Avenida da Liberdade). E sim, isto é Berlim. Uma sucessão de intermináveis alamedas.

Num dos extremos desta última, encontro um dos mais famosos monumentos alemães, a Porta de Brandeburgo, equivalente ao Arco do Triunfo parisiense. Arrependo-me amargamente de não ter trazido luvas. As minhas mãos mal se mexem, envoltas numa vermelhidão elucidativa. Oiço de súbito palavras portuguesas, uma constante sempre que viajo. Em todos os pontos do globo tenho visto portugueses, ou estrangeiros que lá viveram – alguns falam a língua na perfeição.

Com uma curva à direita, torna-se de imediato visível o Reichstag – Parlamento Alemão.

A hora avança, porém, o frio torna-se quase insuportável, e a paciência para usufruir da oferta turística cai a pique. Mergulho num autocarro convencido que estou a caminho da Potsdamerplaz, mas em vez de descer para sul, acabo transportado para leste, rumo à Alexanderplatz.

Estou cansado, abatido pelo frio e tolhido por uma noite mal dormida. Entro num café situado na cobertura de um centro comercial e tento recuperar as energias.

Por fim, encerro o primeiro dia e regresso a casa.

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