Uma entrevista a Joan Palmer – Assassina Iletrada

Joan Palmer nasceu nos Estados Unidos em 1977, filha de imigrantes russos, exilados voluntários depois da Perestroika. Os seus pais, ambos jornalistas, inspiram muitos dos seus romances, que têm como fundo o ambiente negro da Rússia em busca da sua identidade. Entre os seus livros contam-se um de poesia e dois romances, sendo o mais conhecido  Mil invenções inúteis.

A entrevista que se reproduz foi publicada pela revista literária Pentagramme na sua edição de Janeiro de 2004.


 

Model Wearing Navy Suit with Fur Trim


 

Nunoh: Quando começou a escrever?

Joan Palmer: Com 15/16 anos. Não sei bem…

N: Foi na altura que ganhou a alcunha?

JP: (risos) Acho que sim. Eu matava a escrever. Tive um período de rebeldia adolescente de que me orgulho. Embora cometesse muitos erros, porque na minha casa só se falava russo.

N: Isso é curioso, porque às vezes parece que lemos coisas escritas por um miúdo, sobretudo nos momentos mais amargos das suas personagens.

JP: Sim. Isso é uma escolha consciente. Os momentos de maior agonia são sempre momentos simples, e as crianças têm o dom de dizer as coisas simples de maneira mágica.

N: O conhecimento que tem do lado mau das coisas parece próprio, mas vem-lhe dos seus pais, exilados.

JP: Os meus pais são de certo modo exilados de luxo. Tinham dinheiro para o bilhete de avião e para o hotel, mesmo que pudessem não arranjar emprego. Mas tem razão quando diz que muito do que eu transmito vem, numa primeira instância, deles. Um filho fica sempre humilde perante as experiências má dos seus pais.

N: Humilde ao ponto de ter de as exorcizar?

JP: (pensativa) Não, acho que não.

N: A viagem completou o processo de dor? Acabou de certo modo com a ligação entre Dor e Rússia?

JP: Eles disseram-me, lembro-me bem: «Quando vimos a Estátua da Liberdade, chorámos por ter de sair do nosso país para termos segurança para os nossos filhos». Isso diz tudo. Ficou a mágoa de ter de sair, mas a alegria era o futuro dos filhos deles. O futuro foi sempre o que os guiou.

N: No «Mil invenções inúteis», fala de um homem que procura toda a vida soluções para problemas impossíveis. É assim que vê a condição humana, e o futuro da condição humana?

JP: Liga-se ao que lhe disse antes. Queremos sempre ter um futuro melhor, por isso nos preocupamos tanto. O homem é um ser que inventa problemas, mais problemas do que soluções. Além do mais, nunca encaramos as coisas evidentes primeiro, mas sempre as impossíveis. Nessa perspectiva, a condição humana é um labirinto da nossa própria vontade. Podíamos tornar as coisas mais fáceis.

N: Como?

JP: (pensativa) Principalmente confiando mais.

N: Mas o mundo que nos descreve é tudo menos seguro. A sua Rússia é tudo menos segura.

JP: O elemento criminoso vive na natureza humana e alimenta-se das nossas fraquezas: o dinheiro e o medo de agir em conjunto contra o mal. Se eu falo do que está mal é também porque apontar o que a Humanidade tem de pior, serve para a melhorar desde dentro.

N: O facto de ser mulher influí nessa visão, de certo modo optimista do mundo?

JP: (risos) Acho que não temos de ser mulheres para ser optimistas. Mas talvez a mulher sinta mais de perto o que é perder alguém para a morte, sobretudo quando é o próprio filho por exemplo. Embora haja certamente mulheres frias, a mulher é também mais aberta a todas as emoções, dentro de um estereotipo social que impede os homens de serem tão livres.

N: Quer dizer que as mulheres têm uma vantagem social desconhecida?

JP: De certo modo, sim.

N: Essa vantagem serve para ver mais fundo no que acontece no tecido urbano, por exemplo nos bairros de imigrantes da nova Moscovo?

JP: É preciso ter sensibilidade, acho, para ver seja o que for e escrever sobre isso. Por essa razão, os jornalistas como os meus pais não são menos sensíveis do que alguém que apenas seja escritor. Eu vou à Rússia com frequência e nunca fico em hotéis, temos família lá e ficamos sempre com eles. Ver mais fundo é também viver mais perto, é sobretudo não ter medo de viver mais perto.

N: Uma critica a escritores que fazem ficção pura?

JP: Não posso falar disso. Só sei como eu funciono e não posso saber mais do que isso. Mas parece-me lógico que se fale do que se sabe. Nessa perspectiva, ficção pura é impossível.

N: Há ainda um livro que deseje escrever?

JP: Claro. O definitivo. Há sempre um livro que define um escritor.

N: O seu já chegou?

JP: Penso que vai ser o próximo.

N: Tem titulo?

JP: (risos) É segredo . Mas posso dizer que tem a ver com rios.

N: Travessias?

JP: (risos) Travessias.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s