Berlim – 3

Funny+faces+East+Side+Gallery+Berlin


Ao terceiro dia, a sombra que desde o início pairava entre os recantos envolve-me por completo. A manhã nasce chuvosa e fria. O sono foi agitado e irregular. Tomo um pequeno-almoço reforçado num café do bairro, mas permaneço apático e soturno.

De guarda-chuva aberto, dirijo-me a uma das mais famosas secções do Muro de Berlim, conhecida como East Side Gallery. «Galeria», sobretudo porque ambos os lados da velha barreira de betão estão agora cobertos quase na totalidade por pinturas artísticas associadas ao tempo da divisão, da queda do Muro, ou de sonhos que se sonharam até hoje, sem que disso passassem. Do lado Oeste, um rio gelado, blocos de apartamentos de charme; do lado Leste, hotéis, centros de congressos e vazio. Um vazio encharcado, um vento que geme entre as torres altas.

Podemos encarar a situação de duas maneiras: ou é apenas um muro pintado, ou é um testemunho. Ou é tangível, ou é simbólico. Ou se ignora, ou se entranha, deixando o escuro escorrer pela mente, da mesma forma que as goteiras invadem as ruas feitas de neve enlameada.

De regresso, sem rumo definido ou outro local que me apeteça visitar, atravesso a Oberbaumbrücke, uma ponte de piso duplo que cruza o rio Spree, considerada um dos marcos da cidade e um símbolo da reunificação.

Já perto de casa, em Kreuzberg, entro numa livraria, não porque pretenda comprar nada escrito em alemão, mas apenas para cumprir o velho hábito. Por qualquer razão, alguém tira uma fotografia, o que desperta o olhar sisudo do responsável.

«Podemos tirar uma foto?» – Pergunta o visitante, em tom de arrependimento.

«Se considera necessário» – Cospe o funcionário, sibilando a palavra «necessário» com a agressividade de uma serpente.

Retiro-me de imediato, contendo a vontade de bater com a porta. Se me restava alguma vontade de sair depois do jantar, rapidamente se evaporou.

Outra peculiaridade de Berlim é a dificuldade que existe em fazer pagamentos com cartão. Praticamente ninguém os aceita. Dinheiro ou nada, o que me parece incompreensível, pouco prático e francamente retrógrado numa capital europeia. Tal obriga-me a procurar um multibanco para pagar a pizza que pretendo levar para casa.

Rio-me sarcasticamente com a crescente animosidade entre mim e a cidade. O primeiro multibanco não funciona. Longos metros adiante, o segundo também não. As ruas estão escuras e desertas, com lixo a espreitar entre os montículos de neve. Por fim, o terceiro concede-me a esmola de um par de notas.

Regresso ao restaurante, coloco a caixa com a pizza debaixo do braço e desapareço rumo a casa.

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