Berlim – 4

2010-museum-island-in-berlin-winter-it-is-better-to-be-insideDevia-me ter rendido às evidências muito mais cedo.

Berlim não é uma cidade fácil de visitar. Não tem um «centro» onde se reúnam os pontos «de interesse». Não é possível tirar um par de tardes e «ver o que há para ver». É antes um conjunto de zonas, de peças que encaixam, cada uma com o seu centro, cruzadas e entrecruzadas por intermináveis, largas e geladas avenidas. Impraticável de conquistar a pé, seja em que altura for, e muito menos no pico deste insuportável Inverno. Se quero reter uma ideia básica, tenho de gastar um dia nos típicos autocarros turísticos, um para a zona Ocidental, outro para a Oriental.

Numa viagem onde as coisas estivessem em velocidade de cruzeiro, onde o astral fosse alto e tudo fluísse, teria certamente concluído que era preferível, em todos os sentidos, começar pela parte oriental, deixando para o fim os bairros mais agradáveis e seguros. Numa viagem como esta, é fácil de ver qual foi a minha opção.

Começo então pelo ocidente, apreciando agora no conforto do autocarro muitos dos locais que já vislumbrara nos dias anteriores – Checkpoint Charlie, Reichstag, Berliner Dom, Brandenburger Tor – e outros pela primeira vez, como o Mauerreste (outra secção do Muro, sem pinturas) ou a Siegssaüle (monumento de glorificação militar). A volta acaba por ser agradável, já que por fim consigo embrulhar uma secção da cidade na mão e no espírito. Quando regresso ao ponto de partida para almoçar, sinto que valeu a pena sair de casa. A refeição volta a ser retemperadora, e a súbita leveza de espírito é tal, que me atrevo a encarar com um certo entusiasmo a segunda parte do percurso.

Não tive em linha de conta, porém, que o último autocarro saía às 15h45, o que inserido num horário de Inverno, no norte da Europa, significa noite cerrada e abrupta quebra de temperatura. Não é por isso de estranhar que o motorista estivesse eléctrico e o transporte quase vazio. Infelizmente, tal não me provocou a desconfiança imediata, imerso que estou naquele súbito relaxamento.

A Oriente, revejo a East Side Gallery, e atravesso uma imensa Karl-Marx-Allee (Avenida), dominada pela bruma crescente, pelo vazio dos passeios e pelos gigantescos e soturnos blocos de apartamentos. Parece sem dúvida exagero a quem lá não esteve, mas são ainda, quase trinta anos depois, duas cidades aglutinadas numa só. Berlim Oriental é o irmão mal-encarado, agressivo e deprimido, talvez até ressentido em relação ao irmão privilegiado que é Berlim Ocidental.

Se o espírito se desanuviara durante a manhã, já quase disso me esqueci. A noite tomba, negra e fria, e a bruma arrepia os contornos dos prédios. Cai-me um súbito cansaço, um abatimento desmotivado, uma vontade irreprimível de me ir embora. Como aquela pessoa que durante toda a noite tentámos conhecer, tolerar e compreender, até por fim nos enfadarmos da sua personalidade antagónica, do seu humor despropositado, das frases desconexas, e decidirmos que nada daquilo resulta, nada daquilo irá a lado algum, pelo que o melhor é levantar e sair.

O que o motorista não nos disse é que nem todas as paragens eram apropriadas para ir embora. São agora 17h30, e a noite está dominada por um clima brumoso, quase inquietante. Ao virarmos no que descobrimos ser a última paragem do dia, uma extensa zona descampada junto ao Parlamento, damos de caras com uma fila interminável de carrinhas da polícia, em redor das quais pululam enxames de agentes do corpo de intervenção.

«Esta zona hoje não é aconselhável a estrangeiros», atira-me o condutor quando me preparo para sair. O momento escolhido parece-me inenarrável.

«Ah sim? Então?»

«É que está prestes a começar a manifestação nazi…muito perigosa para forasteiros».

O acaso quis que um táxi surgisse logo atrás do autocarro turístico, e que eu rapidamente conseguisse nele entrar. Dei a morada de casa e se fiz alguma coisa o resto da noite, neste momento pouco importa.

Agora já não é uma questão de humor, bom ou mau. Nem sequer de atitude, preconceito ou mera embirração. É a premonição inexplicável de que toda esta viagem foi um erro.

Ao mergulhar no sofá de casa, respiro fundo. Apesar de tudo, terminou. A partida é no dia seguinte. Uma rápida noite de sono e tudo ficará para trás. O frio, a chuva, o vento, os multibancos sem dinheiro, as ruas desertas, os alemães soturnos.

Sim, acabou. Ou pelo menos, assim parecia.

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