A Norte

A ilha padece de uma cicatriz a nordeste. Em 1920, foi alvejada com violência e desde então nunca mais foi inteira. A ferida recebeu a designação de Irlanda do Norte, nada mais do que uma bolsa de ódio incurável.

Existem no entanto dois planos, e o primeiro e mais importante recorda que a Natureza é superiormente indiferente à mesquinhez humana. Rasgando caminho por entre a paisagem geográfica, conclui-se com facilidade que não existe qualquer divergência entre as regiões. O mesmo verde, as mesmas pastagens salpicadas de gado, diferenças na temperatura apenas justificadas pela latitude. De tão semelhante, é exigível atenção redobrada para assimilar a entrada noutro «país». À época, cada divisão administrativa foi artificialmente concebida, reordenando-se as diferentes populações de acordo com a crença religiosa, de modo a congregar protestantes nas maiores e mais influentes áreas, renegando católicos para zonas periféricas em todos os sentidos. Cada uma delas, e de facto cada bairro dentro dessas zonas, identifica a sua origem através de uma obcecada exibição da bandeira, seja ela nacionalista ou unionista.


Union Flag protests


 

Belfast é a capital e símbolo da segregação. As ruas são desertas e desconfiadas. Os muros são panfletos irados ou lamentos sem esperança. O porto, enquanto espaço mais amplo, é ironicamente uma homenagem ao Titanic e à tragédia que o afectou. Naqueles estaleiros ganhou forma, antes de rumar a Southampton.

Prosseguindo pela costa até ao topo da ilha, embrenhamo-nos mais e mais em lugarejos perdidos no tempo, de olhar mortiço num agora plácido mar de prata que deixa adivinhar fúrias rigorosas em tempo de Inverno. A atmosfera exerce um estranho fascínio, negra e magnética em simultâneo.


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© Robert Thompson


 

Diz o mito que um gigante irlandês, tendo agendado um combate épico com um semelhante escocês se decidiu por construir uma calçada que ligasse as duas ilhas, para que a refrega fosse possível. O escocês terá batido em retirada, destruindo a passagem atrás de si. Hoje, a Giant’s Causeway é local de culto e meditação.

 

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