Sobre Livrarias – 2

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© Pedro Teias


Há poucos dias, voltaram a confidenciar-me o sonho de trabalhar numa livraria.

De cada vez que isto me acontece, não consigo evitar aquele sorriso condescendente de quem já sonhou o mesmo e viveu esse sonho até ao ponto de o desmistificar.

Se todos partilharmos a mesma imagem, o idílio de «trabalhar numa livraria» deve ser algo aproximado ao que se exibe no cinema, onde um charmoso e romântico espaço de esquina, inserido numa rua florida de um bairro tradicional, alberga em montras imaginativas e estantes altíssimas, impregnadas pelo perfume da madeira velha, todo um oceano de livros, desordenadamente arrumados. É um espaço onde todos encontram o que procuram, entram e saem com sorrisos estampados, as vendas nunca diminuem embora o trabalho seja reduzido, feito em ritmo de passatempo, o pó é inexistente ou bem-vindo, fazendo parte do livro sem se tornar um incómodo. As prateleiras estão sempre repletas, os livros pedidos estão sempre disponíveis, as encomendas nunca chegam tarde e a más horas, muito menos quando temos a casa cheia. Os livros saltam dos caixotes munidos de asas e arrumam-se sem esforço pela ordem desejada, seja alfabética, temática, ou outra. O horário é fantástico, cinco ou seis horas de prazer laboral. Não há roubos, nem medidas de segurança.

O livreiro (nós, que queremos sê-lo e ali trabalhar) é uma espécie de Deus. Sabe tudo sobre todos os livros do passado, presente e futuro, encontra o que procura sem esforço, agrada a todos, alivia os idosos da solidão, faz amizades com facilidade, encanta as mulheres e seduz boa parte delas. Não existem maus clientes. Não se lê dentro da livraria sem intenção de comprar, não se desarrumam os escaparates por pura maldade, não existem clientes ignorantes que não fazem a mínima ideia do que querem, não existem casos mentais, nem aqueles que pensam saber tudo, muito menos malcriados e arrogantes, novos-ricos, ou sovinas.

É por isto que todos querem trabalhar em livrarias. Os que por lá passaram, como eu, limitam-se a sorrir perante a inocência.

 

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