Relatório Luso – 5

Ao longo de 2013, foram-me chegando notícias sobre Portugal, sobretudo dos episódios mais insólitos. 

No intervalo de outras coisas, acabei por resumir alguns desses temas em pequenas crónicas, que agora se recordam.


marionetaNo seguimento do que falei aqui, arrisco-me a traçar uma linha  – irregular mas plausível – que ligue duas questões.

Para começar, a constatação de que o lado rasteiro de certas mentes nacionais, cujo expoente máximo são os deputados que «elegemos» para «exercer o seu dever em consciência» mas que se limitam a cumprir o papel de marionetas amestradas ao serviço de uma «ideia» que parte de uma ou duas cabeças liderantes, encontra parte da sua origem na educação disponível.

É um assunto delicado, recheado de armadilhas argumentativas, sabendo-se que os mesmos pais podem oferecer exactamente a mesma educação a dois filhos que se transformam em seres humanos completamente diferentes. O exercício que vou fazer não é esse, mas antes o de encontrar pontos comuns e hipóteses estruturais que cumpram o papel de «causa-efeito».

Por exemplo, onde aprendeu um «deputado» que antes de ser deputado foi estudante numa faculdade qualquer (tendo antes disso sido ainda outra coisa que não serve agora o propósito), a obedecer religiosamente à disciplina partidária, muitas vezes sem questionar, ou questionando, cedendo aos «valores superiores» que se impõem?

Terá aprendido, ou reforçado essa aprendizagem, nas praxes académicas?

Não vou entrar nesse debate, muito menos cair na tentação de reduzir todas as praxes académicas a uma coisa só, pois estaria a ser tendencioso e inclusivamente mentiroso. Existem actividades de recepção aos novos alunos que são isso mesmo. Um comité de boas vindas, de integração e de ambientação, onde se fazem novos amigos, se percebe o funcionamento da faculdade, se combinam jantares e festas e se dão os primeiros passos numa nova realidade e estilo de vida. Sei-o bem, pois vivi o processo com todo o gosto e nunca, uma única vez, ao longo dessa semana experimentei, presenciei ou me relataram qualquer acto menos próprio, ou que não fosse bem recebido pelo «caloiro» ou em que tudo não se passasse por entre camaradagem da mais saudável. Não passei por praxes. Passei por uma semana de divertimento. Porque deve ser essa a única função de tal conjunto de actividades.

Uma coisa radicalmente diferente é aquilo que se passava, sempre se passou e pelos vistos se continua a passar até aos dias de hoje, noutras faculdades espalhadas pelo país. Em que não existem risos, antes gritos e humilhações gratuitas. Onde não existe camaradagem, antes lágrimas, discussões, ameaças, chantagens, pressão psicológica, e em mais casos do que aqueles que se tornam públicos, coisas muito mais graves, como violações. Ou mortes «acidentais».

O que me chega aqui sobre o que se passou no Meco, parece revestir-se de tais contornos. Um grupo de pessoas reúne-se «de livre vontade» numa praia, numa noite invernal, para se proceder a qualquer coisa, uma festa dizem uns, um ritual de praxe dizem outros.

Será sempre difícil saber o que aconteceu, e desconfio mesmo que determinados detalhes ficarão para sempre mergulhados na mente dos sobreviventes e mentores assim como no túmulo das vítimas. Se a entrada na água foi voluntária ou não, que argumentos e pressões psicológicas ou físicas serviram de instrumento para o que pode ter sido um sêxtuplo homicídio por negligência.

A vida é uma coisa demasiado frágil e a morte uma coisa demasiado fácil.

O que também parece ser fácil é o modo como a tal «disciplina de grupo» seja ela partidária ou estudantil, corporativa ou familiar, domina a vontade individual.

Perante a morte de seis pessoas, os que sobram fecham-se num tal de «pacto de silêncio» e ameaçam todos aqueles que o querem romper, família das vítimas e jornalistas incluídos. Ou muito me engano ou alguns destes «líderes académicos» estarão um dia à frente de juventudes partidárias, conselhos de administração e outros postos de relevo.

O que explica muita coisa.

 

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