Fiodor Dostoievski

fiodor-dostoievski-lViveu entre 1821 e 1881. Foi considerado um dos maiores romancistas da literatura russa e um dos mais inovadores artistas de todos os tempos. É tido como o fundador do Existencialismo, sobretudo devido a Notas do Subterrâneo, descrito como «a melhor proposta para o existencialismo alguma vez escrita».

A obra dostoievskiana explora a autodestruição, a humilhação e o assassinato, além de analisar estados patológicos que levam ao suicídio, à loucura e ao homicídio. Os seus escritos são por isso apelidados de «romances de ideias», devido ao retrato filosófico e atemporal de tais situações. O modernismo literário e várias escolas da teologia e psicologia foram influenciadas por estes conceitos.

Dostoievski logrou atingir um certo sucesso com o seu primeiro romance, Gente Pobre, que foi imediatamente elogiado pelo poeta Nikolai Nekrasov e por um dos mais importantes críticos da primeira metade do século XIX, Vissarion Bielínski. Porém, não conseguiu repetir o sucesso até regressar à Sibéria, quando escreveu Recordações da Casa dos Mortos, sobre o tempo passado na prisão. Posteriormente, a sua fama aumentaria, sobretudo graças a Crime e Castigo.

O seu último trabalho, Os Irmãos Karamazov, foi considerado por Sigmund Freud o melhor romance já escrito. Homem perigoso, segundo Estaline, até 1953 era definido como «expressão da ideologia reaccionária burguesa individualista». Segundo o próprio, o seu mal era uma doença chamada consciência. A obra de Dostoievski exerce uma grande influência no romance moderno, legando um estilo caótico, desordenado e que apresenta uma realidade alucinada.

Fiodor foi o segundo de sete filhos. A mãe morreu quando ele era muito jovem, de tuberculose, e o pai, que era médico, pode ter sido assassinado pelos próprios servos, que o consideravam autoritário. Alguns biógrafos afirmam que foi nessa altura que Dostoievski teve a sua primeira crise epiléptica, facto que carece de confirmação.

É no entanto provável que o doutor Mikhail Dostoievski, seu pai, tenha sido assassinado pelos próprios servos da sua propriedade rural, em Daravoi, indignados com os maus tratos sofridos. Tal facto teria exercido enorme influência sobre o futuro do jovem Fiodor, que desejou impetuosamente a morte do seu progenitor e em contrapartida se culpou por isso, contexto que motivou Freud a escrever o polémico artigo Dostoievski e o Parricídio. Este foi muito criticado por ter escrito o seu ensaio baseado em rumores, sem uma pesquisa profunda sobre a vida de Dostoievski.

Início da carreira literária

Na Academia Militar de Engenharia, em São Petersburgo, Dostoievski aprendeu Matemática e Física. Estudou também a obra de Shakespeare, Pascal, Victor Hugo e Hoffmann, uma vez que a faculdade tinha um bom programa de Literatura, focado principalmente na produção francesa. Nesse mesmo ano, escreveu duas peças românticas, Mary Stuart e Boris Godunov, influenciado pelo poeta romântico alemão Friedrich Schiller. Dostoievski descrevia-se como um «sonhador» na sua juventude e, em seguida, um admirador de Schiller. Em 1843, terminou os estudos de Engenharia e adquiriu a patente de tenente militar, ingressando na Direcção-Geral dos Engenheiros.

Em 1844, Honoré de Balzac visitou São Petersburgo, e Dostoievski, numa espécie de homenagem, fez a sua primeira tradução, Eugenia Grandet, e saldou uma dívida de 300 rublos com um agiota. Esta tradução despertou a sua vocação, levando-o pouco tempo depois a abandonar o exército para se dedicar exclusivamente à literatura. Antes, ainda trabalhou como desenhista técnico no Ministério da Guerra e fez traduções de Balzac e George Sand.

Alugou por fim uma casa em São Petersburgo e dedicou-se à escrita de corpo e alma. Começou a escrever a sua primeira obra, o romance epistolar Gente Pobre, trabalho que iria valer-lhe elogios da crítica literária, sobretudo de Bielínski, o mais influente crítico da literatura russa, que o definiu como «a mais recente revelação do cenário literário do país».

Em O Diário de um Escritor recordou que após concluir Gente Pobre deu uma cópia ao seu amigo Dmitry Grigorovich, que a entregou ao poeta Nikolai Alekseyevich Nekrasov. Estes, ao lerem o manuscrito em voz alta, ficaram extasiados com a percepção social da obra. Às quatro horas da manhã foram ter com Dostoievski para dizer que o seu primeiro romance era uma obra-prima. Nekrasov entregou mais tarde a obra a Bielínski. «Apareceu um novo Gogol!» – disse-lhe.

Foi considerado o primeiro exemplo russo de um romance realista.

Saí da casa dele [Bielínski] em estado de êxtase. Parei por um instante na esquina da sua casa, olhei para o céu, para o sol luminoso, para as pessoas que passavam, e compreendi, no mais fundo do meu ser, que aquele tinha sido um momento solene na minha vida, um marco decisivo, que alguma coisa inteiramente nova havia começado. – Dostoievski sobre as palavras de Bielínski, em, O Diário de um Escritor.

O livro foi publicado no ano seguinte, fazendo de Dostoievski uma celebridade literária aos vinte e quatro anos de idade. Ao mesmo tempo, começou a contrair algumas dívidas e a sofrer de uma enfermidade nervosa, frequentemente confundida com a sua epilepsia, que começou a manifestar-se muitos anos mais tarde. Os romances seguintes, O Duplo (1846), que retrata uma dupla personalidade, Noites Brancas (1848), que retrata a mentalidade de um sonhador, Niétochka Nezvánova (1849), nunca acabado, e a Inveja do Marido, não tiveram o êxito esperado, e sofreram críticas muito negativas, inclusive de Bielínski, que criticava aquilo que, no futuro, se tornaria a marca principal de Dostoievski: a psicologia dos personagens. Nessa época entrou em contacto com alguns grupos de socialistas utópicos, que discutiam a liberdade humana.

 Exílio na Sibéria

Dostoievski foi detido e preso a 23 de Abril de 1849, por participar em reuniões de um grupo intelectual revolucionário chamado Círculo Petrashevski, sob acusação de conspirar contra Nicolau I. Depois das Revoluções de 1848, Nicolau mostrou-se relutante a qualquer organização clandestina que pudesse pôr em risco a sua autocracia.

A principal acusação contra Dostoievski foi ter lido em público, em duas ocasiões, uma carta aberta de Bielínski, então falecido, ao escritor Nikolai Gogol, na qual este é criticado pelas suas visões políticas e sociais conservadoras.

O Círculo Petrashevski dedicava-se principalmente à discussão das condições de vida na Rússia, centrada na imensa biblioteca de obras proibidas de Petrashevski, obras que, segundo os registos da sociedade, Dostoievski consultou em várias ocasiões. Na verdade, este não ia às reuniões do Círculo há mais de três meses quando foi preso, e participava sim numa organização radical liderada por Nikolai Spechniev, que se tornaria o protótipo para Nikolai Stavróguin, protagonista de Os Demónios. Esta organização, porém, não foi descoberta pelas autoridades e sua existência só veio a público em 1922.

Fiodor passou oito longos meses na cadeia até que, a 22 de Dezembro, a sentença de morte por fuzilamento foi anunciada. A 23 de Dezembro, os membros foram levados para o lugar da execução, e três deles, inclusive o próprio Petrashevski, foram amarrados aos postes em frente ao pelotão. Dostoievski era um dos próximos. Antes da ordem para o fuzilamento, chegou uma ordem do Czar para que a pena fosse comutada para prisão com trabalhos forçados e exílio. Mais tarde, os membros souberam que a ordem havia sido assinada há dias, mas que o Czar exigira a falsa execução como punição extra. Dostoievski recebeu os grilhões e partiu para o exílio na noite de Natal. Todos estes factos foram contados pelo escritor numa carta ao seu irmão Mikhail, na qual faz várias referências à obra Os Últimos Dias de um Condenado à Morte, de Victor Hugo.

O príncipe Myshkin, de O Idiota, oferece uma descrição sobre essa mesma experiência. Após a simulação da execução, Fiodor passou a apreciar a vida como um dom incomparável e, ao contrário do determinismo e do pensamento materialista, o valor da liberdade, integridade e responsabilidade individual.

Anos mais tarde, descreveu o seu sofrimento ao irmão, dizendo-se um «silenciado num caixão» e que o local onde estava «deveria ter sido demolido há anos».

No Verão, confinamento intolerável, no Inverno, frio insuportável. Todos os pisos estavam podres. A sujidade no chão tinha uma polegada de espessura; alguém poderia tropeçar e cair… Éramos empilhados como anéis de um barril… Nem sequer havia lugar para caminhar… Era impossível não nos comportarmos como suínos, desde o amanhecer até ao pôr-do-sol. Pulgas, piolhos, besouros a gosto – Dostoievski sobre a prisão.

Uma das maiores surpresas foi descobrir que na prisão existiam as mesmas diferenças sociais que existiam no exterior. Este conta como os camponeses desprezavam os intelectuais, devido à sua falta de destreza física nos trabalhos. Quando tentou participar num protesto contra a má qualidade da comida, os prisioneiros não aceitaram, dizendo que ele comprava a própria comida. Quando lhes explicou que o fazia por camaradagem, eles ficaram atónitos e perguntaram como podia um senhor ser camarada de um camponês. Estas experiências são contadas no livro Recordações da Casa dos Mortos.

Foi também na prisão que Dostoievski sofreu o seu primeiro ataque de epilepsia, doença que o acompanharia para o resto da vida, e que também atinge vários dos seus personagens, como o Príncipe Myshkin (O Idiota), Kiríllov (Os Demónios) e Smerdiákov (Os Irmãos Karamazov). Embora alguns biógrafos insistam que a primeira crise aconteceu antes da prisão, as cartas que ele enviou ao irmão deixam bastante claro que só começou a apresentar a doença durante esse período. Os estudos médicos nunca chegaram a um acordo. Freud afirmou que era uma doença histérica, e não epilepsia.

Quer pelas cartas quer pelos testemunhos deixados por contemporâneos, podemos perceber que Dostoievski nunca abandonou a religião ortodoxa, na qual fora criado, ao contrário da lenda que se formou posteriormente.

Foi libertado em 1854 e condenado a quatro anos de serviço no Sétimo Batalhão, na prisão de Semipalatinsk, no Cazaquistão, além de permanecer como soldado por tempo indefinido. Apaixonou-se por Maria Dmitriévna Issáieva, mulher de um conhecido. Com a morte do marido casaram-se no ano seguinte, em Fevereiro de 1857. Na noite de núpcias, sofreu uma violenta crise de epilepsia.

Maria Dmitriévna Issáieva já tinha um filho de oito anos, do primeiro casamento, Pavel Issáieva, frequentemente referido pelo apelido de Pácha na biografia do escritor. Ela sofria de tuberculose, e é vista como o modelo para Katerina Marmeladova de Crime e Castigo.

Carreira literária tardia

Dez anos depois, voltou à Rússia. Considerou a experiência na Sibéria uma «regeneração» das suas convicções, rejeitou a atitude condescendente de intelectuais, que pretendiam impor os seus ideais políticos sobre a sociedade, e chegou a acreditar na bondade fundamental da dignidade e do povo comum. Descreveu esta mudança no esboço que aparece em O Diário de um Escritor: «Sou filho da descrença e da dúvida, até ao presente e mesmo até à sepultura. Que terrível sofrimento me causou, e me causa ainda, a sede de crer, tanto mais forte na minha alma quanto maior é o número de argumentos contrários que em mim existe! Nada há de mais belo, de mais profundo, de mais perfeito do que Cristo. Não só não há nada, como nem sequer pode haver».

Por esta altura começou a escrever Memórias da Casa dos Mortos, baseado nas suas experiências como prisioneiro. Como os ex-condenados eram proibidos de escrever memórias e relatos, Dostoievski disfarçou a obra como ficção, um suposto conto de um homem preso por assassinar a esposa numa crise de ciúmes. Isso gerou um equívoco, e durante anos muitas pessoas acreditaram que tinha sido esse, de facto, o crime do escritor. A obra foi um grande sucesso na Rússia, e restabeleceu a reputação literária de Dostoievski.

Em 1859, após meses de árduo esforço, conseguiu ser libertado sob a condição de residir em qualquer lugar excepto em São Petersburgo ou Moscovo, pelo que acabou por mudar-se para Tver. Conseguiu publicar O Sonho do Tio e Adeia Stepánchikovo. As obras não obtiveram as críticas esperadas. Em Dezembro do mesmo ano, foi finalmente autorizado a regressar a São Petersburgo, e fundou com o seu irmão Mikhail a revista Vremya (O Tempo), onde publicou o romance em folhetim Humilhados e Ofendidos, que teve grande sucesso. A obra Memórias da Casa dos Mortos foi também um enorme sucesso depois de publicada em capítulos no jornal O Mundo Russo.

Entre 1862 e 1863, fez várias viagens pela Europa, incluindo Berlim, Paris, Londres, Genebra, Turim, Florença e Viena. Durante essas viagens teve um relacionamento amoroso fugaz com Paulina Súslova, uma estudante de ideias progressistas. Perdeu muito dinheiro no jogo e regressou à Rússia em finais de Outubro de 1863, sozinho e sem recursos. Entretanto, o seu jornal tinha sido proibido, por publicar um artigo sobre a Revolução Polaca de 1863.

Em 1864, conseguiu editar com o irmão o jornal Epokha (Época), no qual publicou Memórias do Subsolo. O ânimo, contudo, desapareceu após a morte da esposa, seguida pouco depois pela do irmão. Além disso, este deixou uma viúva, quatro filhos e uma dívida de 25 mil rublos, pelo que se viu obrigado a sustentá-los. Sustentava também o enteado Pavel Issáiev e outro irmão, arquitecto formado mas um famoso alcoólico. Tentando dar continuidade à revista, acumulou inúmeras dívidas. Para sanar os problemas financeiros e resguardar a saúde, partiu para o estrangeiro, onde perdeu em casinos o restante dinheiro que ganhara. Dostoievski é frequentemente descrito como viciado em jogo, mas nunca jogou na Rússia, apenas na Alemanha e em França. Reencontrou Paulina Súslova e tentou reatar o relacionamento, mas foi rejeitado.

Em 1865 começou a elaborar Crime e Castigo, uma das suas obras capitais, que apareceu na revista O Mensageiro Russo, com grande sucesso. Quando o seu editor estabeleceu um curto prazo para que terminasse o livro, contratou a estenógrafa Anna Grigórievna Snítkina, na época com vinte e quatro anos, a quem dedicou o livro O Jogador. O relacionamento com Anna terminou em casamento, em 1867.

Para fugir da pressão dos credores, resolveram viajar pela Europa. O casal residiu em Dresden (onde Dostoievski viu o quadro Cristo Morto de Hans Holbein, o Jovem, de grande importância em O Idiota), Genebra – onde nasceu e morreu pouco tempo depois a sua primeira filha, Sónia, evento que deixou o escritor arrasado – Milão, Florença e novamente em Dresden, onde nasceu a segunda filha do casal, Liubóv. Em 1868 escreveu O Idiota e em 1871 terminou Os Demónios, publicado no ano seguinte. A ideia inicial de O Idiota surgiu a partir de uma notícia de jornal sobre uma jovem de quinze anos, Olga Umetskaya, que ateou fogo à casa da família após anos de maus tratos e espancamentos. A personagem Nastássia Filipóvna foi baseada nela. Já Os Demónios surgiu a partir do assassinato do jovem I. I. Ivanov, que queria abandonar uma organização radical e foi morto pelos colegas, comandados por Sergey Nechayev. Este era um conhecido radical, ligado a Mikhail Bakunin, que depois o rejeitou, escandalizado com os seus métodos.

A partir de 1873 publicou num jornal Diário de um Escritor, que escreveu sozinho, compilando histórias curtas, artigos políticos e críticas literárias, tendo obtido grande sucesso. Em 1875, publicou O Adolescente, na prestigiada revista Os Anais da Pátria. O romance foca um tema que sempre preocupara o escritor: as famílias acidentais. Esta publicação seria interrompida em 1878 para dar início à elaboração do seu último romance, Os Irmãos Karamazov, que foi publicado em grande parte no jornal russo O Mensageiro.

Em 1880 participou na inauguração do monumento a Aleksander Pushkin em Moscovo, onde proferiu um discurso memorável sobre o destino da Rússia no mundo. A 08 de Novembro desse ano, termina Os Irmãos Karamazov, em São Petersburgo. Morreu nesta cidade, a 09 de Fevereiro de 1881, de uma hemorragia pulmonar associada a um enfisema e a um ataque epiléptico. Foi enterrado no Cemitério Tijvin. Estima-se que o funeral tenha tido cerca de sessenta mil pessoas.

Obra

Estilo

Dostoievski necessitava de dinheiro e fora sempre apressado na conclusão das suas obras, tendo confessando a sua incapacidade para atingir a plenitude literária. Mais tarde, por saber bem o que tais palavras significavam, afirmou: «A pobreza e a miséria formam o artista». Embora a frase pareça abrangente e generalizada, Fiodor sempre se desviou do estilo de escritores que descreviam o círculo da família moldados na tradição e nas «belas formas», tendo incluído no caos familiar os que humilhavam e insultavam. Essencialmente um escritor de mitos (e às vezes comparado a Herman Melville), criou um trabalho com uma enorme vitalidade e de um poder quase hipnótico, caracterizado por cenas febris e dramáticas, onde os personagens apresentam comportamento escandaloso, e atmosferas explosivas, envolvidas em diálogos socráticos apaixonados, a busca de Deus, do mal e do sofrimento dos inocentes.

Os seus romances ocorrem num período curto (por vezes apenas alguns dias), o que permite ao autor fugir de uma das características dominantes da prosa realista: a degradação física que ocorre ao longo do tempo. Os seus personagens encarnam valores espirituais que são, por definição, atemporais. Outros temas recorrentes são o suicídio, o orgulho ferido, a destruição dos valores familiares, o renascimento espiritual através do sofrimento, a rejeição do Ocidente e da afirmação da ortodoxia russa e o czarismo. Estudiosos como Mikhail Bakhtin têm caracterizado o trabalho de Dostoievski como diferente de outros romancistas; pois parece não aspirar a uma visão única e vai além da descrição sob diferentes ângulos, caracterizando-o como autor de um estilo de romance polifónico. Dostoievski concebeu romances cheios de força dramática em que os personagens e os opostos pontos de vista surgem livremente, em violenta dinâmica.

O espaço e o tempo em Dostoievski são analisados às vezes como «discretos, onde o inesperado não só é possível como inevitável». Através da minimização do tempo de passagem, onde os factos aparecem de forma repentina, o instante surge e logo desaparece. Certos autores comparam o tempo e o espaço nas obras com cenas cinematográficas: o uso constante da palavra russa vdrug (de repente), que aparece 560 vezes na edição russa de Crime e Castigo, pretende provocar no leitor a impressão de tensão, de desigualdade e de nervosismo, elementos característicos da estrutura do romance dostoievskiano. Além disso, a literatura do autor utiliza muito os números, às vezes com extrema precisão: «a dois passos», «duas ruas à direita», ou valores elevados e redondos (100, 1000, 10000). Acredita-se que esses elementos pretendem ser «mitopoéticos». Crime e Castigo possui sete partes (seis partes e o epílogo), sendo que, na composição do romance, é dividido em sete capítulos (cada parte), e a «hora fatídica» é indicada como depois das 7.30. Na literatura dostoievskiana, o processo de evolução da humanidade dá-se pela repetição de dificuldades e ocasiões, e também pelo uso da memória e da lembrança, por mais infernal que tudo isso possa parecer ao personagem.

Personagens

Provavelmente foi muito influenciado por tradições folclóricas. Algumas acreditavam que as águas de rios, mares e lagos representavam a fronteira entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Geograficamente, coexistem vários meios aquáticos, por isso a cidade de São Petersburgo tornou-se fantástica e diabólica, o que influenciou a cultura popular e a literatura russa. Outro motivo para o surgimento do chamado «mito de Petersburgo» foi a morte, durante a construção da cidade, de centenas de milhares de pessoas, que ficaram enterradas nas suas fundações, pela impossibilidade de se retirar tantos corpos. O mito de Petersburgo foi desenvolvido, na literatura, por Pushkin, em O Cavaleiro de Bronze, e Gogol, em Avenida Niévski. Por conta da influência que arrecadou através dessa cultura – onde o homem está entre a vida e a morte –, as personagens da literatura de Fiodor estão constantemente expostas a ocasiões complexas, nos limites da razão e da lógica, e nos limites do que o ser humano é capaz de realizar diante de problemas universais. Podem ser classificadas em diferentes categorias: cristãos humildes e modestos (Príncipe Myshkin, Sónia Marmeladova, Aliosha Karamazov), autodestrutivos e niilistas (Svidrigaïlov, Smerdiákov, Stavróguin, Maslobóiev), cínicos e libertinos (Fiodor Karamazov, Prince Valkorskii), e intelectuais rebeldes (Rodion Romanovich Raskolnikov, Ivan Karamazov).

Legado e influência

O russo Alexey Rémizov, durante o exílio em Paris, em 1927, escreveu: «A Rússia é Dostoievski. A Rússia não existe sem Dostoievski». A maioria dos críticos concorda que este, Dante Alighieri, William Shakespeare, Miguel de Cervantes, Johann Wolfgang von Goethe, Luís de Camões, Victor Hugo e outros (poucos) escolhidos tiveram uma influência decisiva sobre a Literatura do século XX, especialmente no Existencialismo e Expressionismo.

A influência de Dostoievski é imensa, de Herman Hesse a Marcel Proust, passando por William Faulkner, Albert Camus, Franz Kafka, Yukio Mishima, Roberto Arlt, Ernesto Sábato ou Gabriel Garcia Márquez, para citar alguns autores. Na verdade, nenhum dos grandes escritores do século XX foi alheio ao seu trabalho (com algumas excepções, como Vladimir Nabokov, Henry James ou D.H. Lawrence). O romancista americano Ernest Hemingway também citou Dostoievski numa das suas últimas entrevistas como principal influência.

Nietzsche referiu-se a Dostoievski como «o único psicólogo com que tenho algo a aprender: ele pertence às inesperadas felicidades da minha vida, superior mesmo à descoberta de Stendhal».

Com a publicação de Crime e Castigo em 1866, Fiodor tornou-se um dos mais proeminentes autores da Rússia no século XIX, tido como um dos precursores do movimento filosófico conhecido como Existencialismo.


crime_castigoComeçou por ser publicado na revista literária O Mensageiro Russo, em artigos mensais, ao longo do ano de 1866. Foi mais tarde reunido num só volume. Constitui o segundo romance do autor após o regresso da Sibéria, onde esteve exilado durante dez anos. É considerado o primeiro grande romance do seu período «adulto».

Crime e Castigo aborda a angústia mental e dilemas morais de Rodion Raskolnikov, um ex-estudante empobrecido de São Petersburgo que planeia e executa o assassinato de uma velha avarenta, a troco das suas economias. Raskolnikov argumenta que poderá utilizar o dinheiro em boas causas, compensando assim o acto criminoso, e tendo em simultâneo libertado o mundo de uma parasita inútil. Outro motivo para tal acção é provar a tese segundo a qual algumas pessoas possuem uma habilidade natural para estas coisas, e estão inclusive no direito de as executar. Por diversas vezes ao longo do romance, Raskolnikov justifica os seus actos comparando-se a Napoleão Bonaparte, crente de que o crime é aceitável quando está em causa um Bem maior.

Dostoievski planeou o tema do romance no Verão de 1865, após ter perdido a maioria dos recursos financeiros no jogo, e estando por isso incapaz de pagar contas ou alimentar-se como deve ser. Na altura, o escritor devia largas somas de dinheiro a credores, ao mesmo tempo que tentava ajudar a família do irmão Mikhail, que morrera no início de 1864. Com o título inicial de Os Ébrios, o romance pretendia lidar com a questão do alcoolismo em todas as suas ramificações, sobretudo através do retrato de uma família e da educação de crianças nestas condições. A partir do momento em que Dostoievski criou a personagem Raskolnikov e o respectivo crime, inspirado pelo caso de Pierre François Lacenaire, o tema tornou-se secundário e foi confinado à história da família Marmeladov.

Dostoievski mostrou o conto/novela (não tinha sido planeado como romance) ao editor Mikhail Katkov, cuja revista mensal, O Mensageiro Russo, gozava de grande reputação na área, tendo publicado autores como Ivan Turgueniev e Leo Tolstoi. Fiodor, contudo, por se ter envolvido em diversas polémicas com o editor no passado, nunca tinha sido publicado. No entanto, tendo em conta a sua situação precária, e depois de outras alternativas terem falhado, viu-se obrigado a contactar Katkov, requisitando um avanço monetário em troca de uma contribuição. Numa carta ao editor escrita em Setembro de 1865, Dostoievski explicou-lhe que o manuscrito focava-se na história de um jovem atormentado por «ideias bizarras e confusas, que pairam em redor da sua mente», tendo por isso embarcado numa exploração dos perigos psicológicos e morais associados ao «radicalismo». Nas cartas escritas a partir de Novembro de 1865 dá-se uma importante mudança conceptual, passando o «conto» a ser considerado um «romance».

Dostoievski tinha de correr contra o tempo, de modo a cumprir os prazos de entrega de O Jogador e Crime e Castigo. Anna Snítkina, uma estenógrafa que não tardou a tornar-se a sua segunda mulher, foi uma preciosa ajuda para o autor neste período complicado. A primeira parte de Crime e Castigo surgiu na edição de Janeiro de 1866 de O Mensageiro Russo, tendo a última sido publicada em Dezembro desse ano.

Enredo

Raskolnikov, um antigo estudante angustiado, vive num minúsculo quarto alugado em São Petersburgo. Recusa todo o tipo de ajudas, inclusive do seu amigo Razumikhin, e concebe em vez disso um plano para assassinar e roubar uma antipática idosa que vive de agiotagem e penhoras, Alyona Ivanovna. Encontra motivação numa espécie de chamamento irresistível, algo maior do que ele próprio, que lhe diz que o seu destino é matar a velha. Enquanto pondera nisto, Raskolnikov conhece Semyon Zakharovich Marmeladov, um alcoólico que acaba de levar a família à falência. Recebe igualmente uma carta da mãe, a anunciar uma visita para breve e a informá-lo do súbito casamento da irmã, cujos planos detalhados pretendem debater à chegada.

Após muita ponderação, Raskolnikov esgueira-se para o apartamento de Alyona Ivanovna, e mata-a com um machado. Nesta acção, acaba por matar também a meia-irmã da idosa, Lizaveta, que entra por acaso no momento fatídico. Abalado com tudo isto, rouba apenas um punhado de coisas e uma pequena bolsa, deixando para trás a grande maioria do dinheiro. Coloca-se em fuga, e beneficiando de uma série de coincidências, acaba por escapar incólume e desapercebido.

images-1Após o desajeitado crime, Raskolnikov cai num estado febril, e começa a ficar obcecado com o sucedido. Esconde a mala e os objectos roubados debaixo de uma pedra, e tenta limpar a roupa de forma desesperada, procurando eliminar qualquer rasto de sangue. Cede à força da febre no final desse dia, tendo apenas alento para um breve telefonema a Razumikhin. Por entre as oscilações da doença, ao longo dos dias seguintes, Raskolnikov começa a ceder à tentação de se trair a si mesmo. Reage de forma abrupta de cada vez que alguém menciona a morte da agiota, caso agora conhecido e comentado na cidade. Por entre o delírio, vagueia por São Petersburgo, atraindo cada vez mais atenções e especulações acerca da sua ligação ao crime. Num dos passeios pela cidade, depara-se com Marmeladov, que foi mortalmente atropelado por uma carruagem na rua. Acorrendo ao local, oferece o dinheiro que lhe resta à família do falecido, onde se inclui a filha adolescente, Sonya, forçada a tornar-se prostituta para sustentar a casa.

Enquanto isto, a mãe, Pulkheria Alexandrovna, e a irmã, Avdotya Romanovna (ou Dounia) chegam à cidade. Dounia trabalhou até agora como governanta da família Svidrigaïlov, tendo sido obrigada a demitir-se devido ao patriarca, Arkady Ivanovitch Svidrigaïlov. Este, casado, sentiu-se atraído pela beleza física de Dounia, e pelas suas qualidades femininas, propondo-lhe riquezas e um relacionamento. Mortificada, esta abandonou o lar dos Svidrigaïlov e perdeu a fonte de rendimento, mas acabou por conhecer Pyotr Petrovitch Luzhin, um homem modesto e de poucas posses. Luzhin propõe casamento a Dounia, garantindo dessa forma a segurança financeira desta e da sua mãe, desde que a boda se dê rapidamente e sem muitas perguntas. São estas as razões que as levam a São Petersburgo, ou seja, encontrarem-se com Luzhin e obter a aprovação de Raskolnikov. Luzhin, no entanto, contacta Raskolnikov no meio de um dos seus delírios e exibe um temperamento pateta, arrogante e presunçoso. Raskolnikov descarta-o imediatamente enquanto potencial marido da irmã, percebendo que esta o aceitou apenas para ajudar a família.

À medida que o romance avança, Raskolnikov acaba por conhecer o detective Porfiry, que começa a suspeitar dele numa base puramente psicológica. Em simultâneo, uma relação platónica começa a surgir entre ele e Sonya. Esta, apesar de prostituta, é plena de virtudes cristãs, tendo sido levada a tal actividade apenas e só para fugir à pobreza. Pelo meio, Razumikhin e Raskolnikov conseguem convencer Dounia a terminar o relacionamento com Luzhin, cuja verdadeira natureza acaba por vir ao de cima. Nesta altura, Svidrigaïlov aparece por sua vez, tendo viajado da província apenas para se encontrar com Dounia. Confessa que a mulher morreu, e que está disposto a pagar a Dounia uma grande quantidade de dinheiro sem esperar nada em troca. Após tomar conhecimento de tais factos, esta recusa sem hesitar, suspeitando de todo o enredo.

Com o evoluir dos encontros entre Raskolnikov e Porfiry, os motivos do primeiro para cometer o crime acabam por se tornar evidentes. Porfiry começa a desenvolver suspeitas cada vez maiores, sem no entanto possuir provas concretas ou testemunhas que sustentem tal teoria. Para além disso, surge outro homem a admitir tudo, sendo posto a interrogatório e mais tarde preso. Mesmo assim, os nervos de Raskolnikov continuam a deteriorar-se, e este luta constantemente com a tentação de confessar, ainda que saiba que uma condenação total é improvável. Decide procurar apoio em Sonya e confessa-lhe tudo. Por mero acaso, Svidrigaïlov hospedou-se num quarto contíguo ao dela, e ouve tudo. Quando os dois homens se encontram, Svidrigaïlov informa o outro do caso, e ameaça usar tal informação contra ele, em caso de necessidade. Fala do seu próprio passado, e Raskolnikov começa a temer que os boatos acerca de vários crimes cometidos pelo outro são fundamentados. Em conversa posterior com Dounia, Svidrigaïlov nega ter algo a ver com a morte da mulher.

Raskolnikov está nesta altura completamente esgotado. Sonya incita-o a confessar, e o testemunho de Svidrigaïlov pode ser suficiente para condená-lo. Para além disso, Porfiry confronta-o com as suas suspeitas, garantindo-lhe que uma confissão irá seguramente reduzir-lhe a pena. Entretanto, Svidrigaïlov tenta seduzir Dounia, mas acaba por desistir quando percebe que ela nunca será capaz de amá-lo. Passa uma noite atormentada e acaba por suicidar-se ao amanhecer. Precisamente na mesma altura, Raskolnikov volta a encontrar-se com Sonya, que mais uma vez lhe pede para que confesse e limpe a consciência. Desloca-se então à esquadra, onde é informado do suicídio de Svidrigaïlov. Hesita um instante, ponderando que tem de novo a possibilidade de escapar com o crime perfeito, mas acaba por deixar-se convencer por Sonya e confessa tudo.

O epílogo descreve o modo como Raskolnikov é condenado a oito anos de trabalhos forçados na Sibéria, sendo acompanhado por Sonya na viagem. Dounia e Razumikhin casam-se e acabam relativamente felizes, enquanto Pulkheria, mãe de Raskolnikov, adoece e morre, sem se conformar com o destino do filho. Raskolnikov enfrenta dificuldades na Sibéria. Será preciso passar algum tempo na prisão até que seja possível uma regeneração e redenção morais, sempre debaixo da influência positiva de Sonya.

Personagens

Dostoievski concebe o protagonista, Rodion Romanovich Raskolnikov, à imagem das suas novas ideologias anti radicais. A história central envolve um crime resultante de uma «intoxicação ideológica», e descreve as desastrosas consequências físicas e morais daí resultantes. A psicologia de Raskolnikov é o foco central, cuidadosamente interligada com as ideias que sustentam a transgressão. Os eventos secundários servem apenas para reforçar o dilema angustiante que envolve Raskolnikov. De outro ponto de vista, o enredo é uma variante de um dos temas padrão do século XIX: um jovem ingénuo da província chega à capital em busca de fortuna, apenas para sucumbir à corrupção inerente, perdendo no processo todo e qualquer vestígio da pureza e energia primordiais.

Raskolnikov (Rodion) é o protagonista, e o romance desenvolve-se a partir da sua perspectiva das coisas. Um ex-estudante de 23 anos, agora desocupado, é retratado como sendo «muito atraente, com altura acima da média, magro, bem constituído, com belos olhos negros e cabelo castanho escuro». A característica mais forte de Raskolnikov é contudo a sua personalidade. Por um lado é frio, indiferente, e anti-social, mas por outro, pode revelar surpreendentes traços de compaixão e carinho. Ao mesmo tempo que comete um crime, exibe uma caridade instintiva. Esta interacção caótica com o mundo exterior e a sua visão niilista das coisas tanto podem ser causa como consequência da alienação social.

Apesar do título, o romance não foca em demasia o crime e o respectivo castigo, mas sim a luta interior de Raskolnikov (o enredo demonstra que o castigo resulta mais da sua própria consciência do que da acção da lei). Crente de que está com isso a beneficiar a sociedade, Raskolnikov comete o crime, convencido de que possui capacidades intelectuais e emocionais suficientemente fortes para lidar com as consequências, mas o complexo de culpa desde logo o domina ao ponto de desenvolver uma doença somática e psicológica. É somente no epílogo que chega o castigo formal, após confessar tudo, que por fim o liberta da alienação social.

Sónia Semyonovna Marmeladova, alternadamente tratada por Sónia (Sonya) ou Sonechka, é a filha de um alcoólico chamado Semyon Zakharovich Marmeladov, que Raskolnikov encontra numa taberna no início da história. É frequentemente vista como estóica, tímida, e até inocente, apesar de ter sido empurrada para a prostituição para sustentar a família. Partilha com Raskolnikov os mesmos sentimentos de vergonha e alienação, tornando-se na primeira pessoa a quem ele confessa o crime, e apoiando-o apesar de ser amiga de uma das vítimas (Lizaveta). Ao longo do romance, Sonya é uma fonte importante de força moral e reabilitação, e de certa forma uma figura quase angelical.

Avdotya Romanovna Raskolnikova – A irmã de Raskolnikov, forte e agradável, apelidada de Dunya, Dounia ou Dunechka. Começa por planear um casamento com o abastado (embora arrogante e egocêntrico) Luzhin, de modo a libertar a família de problemas financeiros. Tem o hábito de andar às voltas pelo quarto enquanto pensa. É seguida até São Petersburgo pelo perturbado Svidrigaïlov, que procura conquistá-la através de chantagens. Acaba por rejeitar ambos, terminando ao lado do melhor amigo de Raskolnikov, Razumikhin.

Pulkheria Alexandrovna Raskolnikova – Mãe de Raskolnikov, inocente, optimista e carinhosa. Após a sentença do filho, adoece (física e psicologicamente) acabando por morrer. No leito de morte, sugere saber mais acerca do destino do filho do que aquilo que lhe foi comunicado por Dunya e Razumikhin.

Dmitri Prokofich Razumikhin – Amigo leal de Raskolnikov. Contribui para a temática anti radical do autor enquanto elo de equilíbrio entre razão e sentimento. O facto de o próprio nome do personagem significar «razão» sugere que Dostoievski pretende utilizá-lo como sustentáculo da sua fé em Deus.

Outras Personagens

Praskovya Pavlovna Zarnitsyn – Senhoria de Raskolnikov (conhecida como Pashenka). Tímida e reservada, Praskovya Pavlovna não tem papel relevante no enredo. Raskolnikov chegou a estar noivo da sua filha, uma rapariga doente que faleceu, e Praskovya Pavlovna havia-lhe concedido um crédito prolongado à conta do noivado e de uma nota promissória de 115 rublos. Entregou-a depois a um funcionário do tribunal, que a utiliza, fazendo com que Raskolnikov seja convocado à esquadra no dia seguinte ao crime.

Porfiry Petrovitch – Chefe do Departamento de Investigação encarregue de resolver as mortes de Lizaveta e Alyona Ivanovna, que juntamente com Sonya, incita Raskolnikov à confissão. Ao contrário dela, porém, fá-lo através de jogos psicológicos. Apesar da falta de provas, está plenamente convencido que Raskolnikov é o assassino, após várias conversas com ele, mas concede-lhe a oportunidade de confessar voluntariamente. Tenta provocar e desestabilizar Raskolnikov de modo a levá-lo a confessar.

Arkady Ivanovich Svidrigaïlov – Sedutor, depravado e abastado, é o antigo patrão e posterior pretendente de Dunya. Svidrigaïlov é suspeito de vários crimes de sangue, e ouve por acaso a confissão de Raskolnikov a Sonya. De posse desta informação, atormenta Dunya e Raskolnikov mas não informa a polícia. Quando Dunya lhe confessa que jamais o amará (depois de tentar dar-lhe um tiro), desiste dela e suicida-se. Apesar da aparente crueldade, Svidrigaïlov assemelha-se a Raskolnikov nos fortuitos actos de caridade. Adianta o dinheiro para que as crianças da família Marmeladov entrem no orfanato (após a morte dos progenitores), oferece a Sonya um total de três mil rublos e deixa o restante dinheiro à sua noiva juvenil. Facto curioso: Svidrigaïlov tem olhos azuis, sendo que a cor azul na cultura russa simboliza a pureza, a simpatia e a inocência. Isto sugere que Svidrigaïlov tem bom fundo, apesar da aparência irascível. (Também Sonya tem olhos azuis).

Marfa Petrovna Svidrigaïlova – Falecida mulher de Arkady Svidrigaïlov, possivelmente morta por ele, e que segundo o próprio lhe apareceu sob a forma de um fantasma.

Katerina Ivanovna Marmeladova – Irascível e doentia segunda mulher de Semyon Marmeladov, madrasta de Sonya. Empurra a jovem para a prostituição no meio de um ataque de raiva, embora se arrependa mais tarde, e bate frequentemente nos filhos, ainda que trabalhe sem descanso para a melhoria das condições de vida da família. Tenta de forma obsessiva demonstrar que se encontra muito abaixo do nível de vida que merece. Depois da morte de Marmeladov, serve-se do dinheiro de Raskolnikov para pagar o funeral. Acaba por morrer de doença.

Semyon Zakharovich Marmeladov – Alcoólico inveterado que se alimenta do próprio sofrimento, pai de Sonya.

Pyotr Petrovich Luzhin – Advogado desafogado que está noivo da irmã de Raskolnikov no início do romance. As razões do noivado são bastante desprezíveis, pois confessa por meias palavras que a escolheu pelo facto de ela ficar absolutamente dependente dele, a nível financeiro.

Andrey Semyenovich Lebezyatnikov – Companheiro de quarto de Luzhin, um socialista utópico e feminista, que fica a saber dos planos deste e acaba por desmascará-lo.

Alyona Ivanovna – Agiota de origens duvidosas que vive para o dinheiro, possuidora de um temperamento intratável. Transforma-se no alvo de Raskolnikov, e este mata-a no início da trama.

Lizaveta Ivanovna – Irmã de Alyona, deficiente, inocente e submissa. Raskolnikov mata-a quando esta entra inadvertidamente no quarto, logo após a morte de Alyona. Amiga de Sonya.

Zosimov – Amigo de Razumikhin e o médico que cuida de Raskolnikov.

Nastasya Petrovna – Criada da senhoria de Raskolnikov, que o serve com frequência.

Nikodim Fomich – Simpático chefe de Polícia.

Ilya «Pólvora» Petrovich – Agente de polícia, assistente de Fomich.

Alexander Grigorovich Zamyotov – Escriturário de polícia e amigo de Razumikhin. Raskolnikov torna-se suspeito aos olhos de Zamyotov ao descrever como, em tese, teria cometido vários crimes, apesar de mais tarde se desculpar.

Nikolai Dementiev – Um pintor mártir e sectário, que confessa o crime, uma vez que o seu culto defende que ser castigado por um crime de outrem constitui o sacrifício supremo.

Polina Mikhailovna Marmeladova – Filha adoptiva de Semyon Zakharovich Marmeladov, com dez anos de idade, e meia-irmã de Sonya, conhecida como Polechka.

Estrutura

O romance possui claramente uma estrutura tripartida – princípio, meio e fim. Divide-se em seis partes, mais um epílogo. A noção de «dualidade intrínseca» tem sido contraposta com a ideia de uma certa simetria:

As partes I-III apresentam o protagonista racional e orgulhoso. As partes IV-VI, o surgimento da faceta «irracional» e humilde. A primeira parte constitui por isso a morte da primeira faceta e a segunda parte o nascimento da segunda faceta. O ponto de transição surge exactamente a meio.

O equilíbrio do texto surge através de uma distribuição simétrica de episódios chave ao longo das seis partes. A recorrência destes pressupõe o «efeito espelho», com ambas as partes a reflectirem-se mutuamente. Há também quem veja uma estrutura alternada, com as partes I, III e V dedicadas ao relacionamento do protagonista com a família (mãe, irmã e outros), e as partes II, IV e VI direccionadas para a interacção com a autoridade estatal e «figuras paternais».

A sétima parte, o Epílogo, foi alvo de estudo e controvérsia. Alguns definem o final como «supérfluo, desanimador e em dissonância com o resto do livro», enquanto outros surgem em sua defesa, encontrando paralelos com a tragédia grega e a ressurreição católica.

O romance está escrito na terceira pessoa, com narrador omnisciente. Foca sobretudo o ponto de vista de Raskolnikov, porém, muda com frequência para a perspectiva de Svidrigaïlov, Razumikhin, Peter Petrovich, ou Dunya. Esta técnica narrativa, que mescla o narrador com a consciência e ponto de vista de diversos personagens, era original na época. Analistas comparam-na às experiências posteriores de Henry James, Joseph Conrad, Virgínia Woolf, e James Joyce. Um leitor deste tempo estava habituado a uma ordem narrativa mais linear e ordenada, pelo que o autor passou muitas vezes por displicente e desordenado.

Simbolismo

Sonhos

Os sonhos de Raskolnikov têm significado simbólico, o que sugere uma abordagem psicológica. O sonho da égua a ser chicoteada tem sido considerado como o principal símbolo de todo o romance, enquanto gratificação e castigo, sociedade condenável, destruição niilista do inadequado, gratificação inerente, e o choque e desprezo de Rodion, enquanto exemplo do seu carácter conflituante. Tais sentimentos em Raskolnikov são centrais para definir a sua personalidade, consciência pesada, desprezo pela sociedade, a visão de si próprio enquanto homem extraordinário, acima dos melhores, dono de uma licença para matar, e consequente justificação para o crime. Tal postura é fulcral, pois dá origem ao primeiro crime enquanto símbolo da sua imaginada superioridade social. O episódio do sonho surge numa conversa entre Raskolnikov e Marmeladov. A filha deste, a devota e casta Sonya, é depois obrigada a ganhar a vida como prostituta devido ao alcoolismo do pai. O sonho é por isso também um aviso, prenunciando um crime (pecado) com vários pontos em comum com o assassinato da agiota. Este (sonho) decorre num cenário onde Rodion atravessa uma ponte, afastando-se do calor e poeira sufocantes da cidade rumo à natureza fresca das ilhas. Isto constitui uma transição mental, que sugere o regresso de Raskolnikov a um estado de clareza psicológica. Retorna à inocência de infância, onde observa um grupo de vagabundos a chicotear uma velha égua até à morte. Depois de acordar, define o episódio como «um sonho desprezível», a mesma expressão que usara para definir o seu plano mortal. Existe portanto um paralelismo entre as duas coisas, onde se sugere que a criança representa o lado moral, que observa chocado o seu outro lado – simbolizado pelos vagabundos – a ser levado à crueldade e frieza perante uma vida de isolamento e privações. O riso constante dos vagabundos perante a chacina brutal revela até que ponto foram endurecidos pelo sofrimento, o que é um reflexo da situação de Raskolnikov. Esta interpretação é reforçada pelo facto de o líder do grupo, Mikolka, sentir que tem o direito de matar o cavalo, pensamento em linha com a teoria do protagonista, que defende o direito ao crime por parte de indivíduos eleitos. A comparação que se estabelece entre a chacina cruel da velha égua e o plano para matar Alyona Ivanovna revela a brutalidade do crime de Raskolnikov, facto frequentemente relativizado pela sua constante desvalorização da idosa, apelidada de simples «parasita». Acordado, a opinião sobre a mulher é desprezível, situação reforçada pela sua teoria obsessiva. Contudo, o sonho actua enquanto manifestação do subconsciente de Raskolnikov, e sem as restrições racionais, a natureza do seu crime vem ao de cima. Assim sendo, para que seja possível uma redenção, este vê-se obrigado a renunciar à sua teoria. Nas páginas finais, Raskolnikov, que está nesta altura na enfermaria da prisão, volta a ter um sonho agitado acerca de uma praga de niilismo que penetra na Rússia e na Europa, vinda de Leste, e que espalha pelo território uma onda de dissidência irracional e dedicação fanática a «ideias novas», panorama que acaba por absorver toda a Humanidade. Apesar de nada ficarmos a saber acerca do conteúdo destas «ideias», as mesmas perturbam de forma irreversível a sociedade, sendo vistas como nada mais do que ataques gratuitos ao pensamento comum.
Torna-se evidente que Dostoievski se referia à nova e abrangente corrente niilista que começava a espalhar-se pela sociedade e literatura russas e que ele combateria até ao fim da vida.

 Cruz

Sonya oferece uma cruz a Rodion quando este se vai entregar à polícia, que simboliza o fardo que este deve suportar. Esta diz-lhe que carregarão a cruz juntos, ajudando-o na missão de confessar o crime. Sonya e Lizaveta tinham trocado as cruzes, portanto a cruz pertencia de facto a Lizaveta—que ele não pretendia matar, sendo deste modo um importante símbolo de redenção. As feições de Sonya recordam-lhe o rosto de Lizaveta, o que é outro exemplo de má consciência para além de uma simbólica partilha de culpa. O estoicismo, em paralelo com a pobreza, é um dos grandes temas da obra. O desespero que traz a pobreza cria um cenário onde a sobrevivência só é possível através do sacrifício pessoal, algo que Raskolnikov rejeita permanentemente, através de raciocínios filosóficos. São disso exemplo a recusa do emprego oferecido por Razumikhin e do casamento arranjado da irmã.

Atmosfera em São Petersburgo

O início do romance, onde se faz referência a uma «noite extraordinariamente quente» estabelece não só a atmosfera sufocante de São Petersburgo em pleno Verão mas também a atmosfera sufocante que rodeia o crime. É o próprio autor a reconhecer as possibilidades simbólicas da vida urbana. Certos críticos consideram a obra como um dos primeiros grandes romances russos onde «os momentos cruciais decorrem em tavernas sujas, na rua, ou nos quartos sombrios dos pobres».

A S. Petersburgo de Dostoievski é uma cidade de pobreza implacável. O autor interliga os problemas urbanos aos pensamentos do protagonista e subsequentes comportamentos deste. As ruas e praças lotadas, as casas e tavernas decadentes, o ruído e mau cheiro, tudo isso é transformado pelo autor num manancial de metáforas e estados de espírito. Considera-se que «a cidade real, descrita com precisão espantosa, é também uma cidade mental, uma vez que a atmosfera reage aos estados de espírito do protagonista, sendo praticamente um símbolo dos mesmos.

Cor Amarela

A cor amarela é utilizada ao longo da obra enquanto símbolo de sofrimento e doença mental. Como exemplos, destaque-se o bilhete amarelo de Sonya, enquanto licença de prostituição, as paredes do quarto de Raskolnikov, ou da agiota, entre outros.

 

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