Braveheart


 

Prefácio

Antes de entrar na análise do filme em causa, considero útil deter-me um pouco em diversos aspectos.

Uma das razões – exteriores à própria película – que me fazem considerar este um marco importante prende-se precisamente com algo já mencionado no texto anterior: «o efeito que o dito filme teve na vida do autor».

Notei recentemente que existe um «antes» e um «depois» de Braveheart na forma como usufruo do fenómeno cinematográfico. Sendo um filme de 1995, conclui-se que tinha cerca de 16 anos quando o vi pela primeira vez. Hoje surge-me perfeitamente límpida a noção de que foi nesse instante que notei o papel decisivo da arte e da cultura na nossa existência. Se tal era fácil de concluir acerca da Literatura, por exemplo, o Cinema ainda oscilava – na minha mente ingénua – entre uma forma de arte e uma forma de entretenimento (embora ambas nem sempre estejam dissociadas). Contudo, existia uma vasta distância entre o filme que se consome como uma telenovela ou um episódio solto de uma comédia televisiva e aquele que nos obriga pela primeira vez a convocar pensamento e emoção, que se arrisca a mudar a percepção que o espectador tem do mundo – interior e exterior.

Antes de Braveheart, não me recordo de nenhum filme que me tivesse mudado enquanto pessoa, ou que no mínimo me tivesse mostrado quem eu era – e podia ser. Tudo o que antes vira entrava directa e totalmente na categoria de entretenimento inócuo, nem sempre vazio mas nunca insubmisso.

Depois de Braveheart tomei consciência de algo, talvez elementar para a maioria, mas que me escapara nos primeiros 16 anos de vida: a Arte era um Poder.


Críticas

Ao longo dos anos, foram muitas e diversas as reacções, chegando mesmo a ser extremadas no louvor e na reprovação. Conquistou cinco Óscares – incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador – mas nunca escapou a três grandes focos negativos, uns mais sustentados do que outros.

1Rigor Histórico

Absolutamente incontestável. Se quisermos saber a verdadeira história de William Wallace – um rebelde escocês que a lenda (e o filme de Mel Gibson) elevaram à categoria de Herói – temos de consultar os livros académicos ou pelo menos desencantar algum documentário televisivo. O que não se entende é por que razão se transforma este filme específico numa espécie de «profanação histórica», quando nunca, em tempo algum, estivemos à espera de produções cinematográficas para aprender História Universal. Braveheart recolhe factos verídicos e dá-lhes uma pirueta artística? Claro que sim. Tal como Ben-Hur, E Tudo o Vento Levou, A Lista de Schindler ou Pearl Harbour, sem fazer muito esforço de memória. A única – e crucial – diferença entre todos os outros e Braveheart é que este assume-o sem pruridos, praticamente na primeira linha do argumento: «Os historiadores dirão que vos estou a mentir…» anuncia o narrador. Todos os filmes nos enganam. Apenas alguns o assumem.

2 – A Polémica com Mel Gibson

Antes disto, recordava-me deste actor somente de produções comerciais como Mad Max ou Lethal Weapon. Nunca me interessou mais do que qualquer outro, nunca lhe quis conhecer as convicções políticas ou religiosas. Não estamos impedidos de escolher entre seguir ou não a obra de alguém consoante nos identificamos ou não com o seu comportamento e opiniões pessoais fora da tela, mas parece-me menos útil ridicularizarmos um filme que em tempos apreciámos apenas porque de súbito nos zangámos com o seu realizador ou protagonista. Ninguém – com a hipotética excepção de grupos de ingleses sem poder de encaixe – perdia tempo a fazer paródias sobre as cenas mais emblemáticas de Braveheart antes de ser popular humilhar Mel Gibson. Há campanhas assim, se não inexplicáveis, pelo menos inaceitáveis, onde obtemos prazer a desmembrar antigos ídolos. Gibson era uma vedeta popular antes deste filme e tornou-se numa estrela depois dele. Até que um dia, decidiu fazer uma película que alguns consideraram antissemita. O resto, é (triste) história.

3 – Violência e Melodrama

Não custa admitir que estão presentes em abundância. O que mais uma vez não se entende é por que razão isso parece ser um problema. Não é sequer necessário perder tempo a elaborar intermináveis listas de outros filmes recheados de violência brutal e gratuita, ou de cenas encharcadas em lágrima fácil, que até os autores do género teriam vergonha de escrever. Talvez sejam ainda resquícios da tal má vontade para com Gibson, os comentários que se ouvem acerca disto em Braveheart. Talvez estes escribas gostassem de retratar batalhas ocorridas no início da Idade Média da mesma forma asséptica e ridícula com que se morria nos velhos filmes de Faroeste: uma única bala e uma queda vagamente parecida com uma quebra de tensão.

Não é o caso aqui. Parece-me lógico que é necessário morrer com uma flecha no pescoço, vomitar sangue, decepar cabeças, cortar braços e pernas ou queimar gente viva, para que sintamos o que é a guerra, a morte, a revolução. Não é um bailado.

Haja alguém que nos diga isso.


O Filme

Como já foi aflorado, a história começa com um narrador (que mais tarde se percebe ser Robert Bruce, futuro Rei da Escócia) a apresentar-nos um contexto muito especial. Afirma ele que «Os historiadores dirão que vos estou a mentir, mas a História é escrita por aqueles que enforcam os heróis». É notável a capacidade que o argumentista teve de mesclar evidências com fantasia, pois se a partir daqui sabemos que nenhum livro de História nos confirmará o que vamos ver, por outro é sabido – de forma irrefutável – que a História é escrita pelos vencedores. Logo, mesmo aceitando a inverosimilhança deste filme em concreto, não custa percebermos que o que está disponível nos registos históricos tem a sua quota-parte de engano.

O teu coração é livre

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Tudo começa em 1280 (o verdadeiro William Wallace nasceu em 1270), quando o nosso protagonista conta meros dez anos. O pai e o irmão foram convocados, como muitos outros membros de clãs e tribos próximas, para uma reunião de tréguas, durante o conflito que na altura existia entre Inglaterra e Escócia (neste momento espécie de colónia inglesa, longe de possuir um sentido identitário, ou de ser vista como uma verdadeira nação). Os diversos clãs, quando não perdem tempo em guerrilhas internas, inventam escaramuças com o invasor inglês (a fazer lembrar vagamente o ocorrido entre o nosso Viriato e o exército romano).

William, uma criança magra mas tenaz, de enormes olhos azuis e expressão angelical, persegue pai e irmão entre os arbustos, tão mal que rapidamente o pai nota a sua presença.

«O que fazes aqui?»

«Também quero ir».

«Volta para trás antes que te bata».

Apesar da linguagem rude, o enredo quer convencer-nos que existe uma relação terna (para os padrões escoceses do séc. XIII) entre aquelas três pessoas. Afortunadamente, pai e filhos Wallace chegam tarde à dita reunião, e escapam à primeira de muitas traições que tombarão sobre William. Os restantes, uma espécie de «elite» dos clãs escoceses, cumprindo o acordado e apresentando-se desarmados, foram emboscados por assassinos ingleses a soldo do Rei, e depois enforcados num celeiro, palco teórico das «conversações de paz». Atónitos, os mais velhos tomam verdadeira consciência do que significa enfrentar a coroa inglesa, e William, que teimosamente os seguiu apesar da ameaça, conhece o seu primeiro «despertar».

O rei inglês é Eduardo I, vulgarmente conhecido por «Longshanks» ou «Perna-Longa». Carrega consigo a reputação de ser um dos mais sanguinários monarcas que alguma vez se sentaram no trono, sendo neste período que se dá a anexação do Pais de Gales e parte da Escócia.

Revoltados, os ausentes na fatal cilada reúnem-se com o pai Wallace, de modo a ensaiarem uma espécie de «insurreição».

«Não temos de os derrotar, apenas de enfrentá-los».

Mais uma vez, o terno William quer ajudar o pai e o irmão nesse desígnio.

«Onde vais?»

«Quero ajudar».

«E uma grande ajuda serias». – Concede o pai, risonho – «Mas preciso que fiques e tomes conta da quinta».

«Eu sei lutar» – Protesta a criança, sedenta de afirmação.

«Eu sei. Eu sei que sabes lutar. Mas é a inteligência que faz de nós homens».

William acena afirmativamente, de expressão solene.

A noite passa. Uma noite gélida e premonitória, onde se entende pela primeira vez a solidão eterna e desolada que marcará a vida de Wallace. Na manhã seguinte, enquanto a criança inicia os trabalhos matinais, um punhado de vizinhos sobreviventes de mais uma emboscada sem sentido, aproximam-se. William espreita, sem encontrar nesses homens estafados e ensanguentados os rostos do pai ou do irmão. Vira-lhes costas, como se pudesse fugir ao destino. Mas não pode. Nem a esse, nem ao seu.

«Anda cá, rapaz».

Sem surpresa, pai e irmão morreram em combate. William renova o contacto com a morte, a perda, a dor. Os pesadelos começam a invadir-lhe o sono. Visitam-no os enforcados do celeiro, como se clamassem por justiça. E mais tarde, o próprio pai, numa sequência inspirada que coloca patriarca e filho no mesmo leito de morte, ou de vida paralela, num ainda difuso sinal do próprio fado de Wallace.

«O teu coração é livre. Arranja coragem para lhe obedecer».

Ao enterro, acorrem os vizinhos, onde se inclui o melhor amigo de Wallace: Hamish. Este é um miúdo encorpado, com pouca paciência para conversas e mais dado aos argumentos persuasivos de um par de tabefes. William é preciso e perspicaz, Hamish é força bruta e generosidade – uma espécie de Astérix e Obélix em versão infantil.

Acorre também uma delicada menina, filha de um dos vizinhos e sobreviventes do derradeiro confronto, que vitimou a família de Wallace.


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Finda a cerimónia em latim, incompreensível para todos, a pequena solta-se da vigilância materna e colhe uma flor selvagem mas bela, que deposita sem uma palavra na mão de um desgostoso William. Olham-se, por entre uma profundeza invulgar, e esta retira-se. De imediato surge o tio de Wallace, irmão do pai, que chegou atrasado.

Argyle, assim se chama o parente, apresenta-se como o elemento culto e viajado (deduz-se que o pai de William ficou prisioneiro das origens, enquanto o outro teve a oportunidade de correr mundo).

«A cerimónia foi respeitosa?»

«Foi em Latim».

«Não falas Latim? É algo que temos de remediar».

E depois, ao jantar:

«Amanhã partes comigo».

«Não quero ir-me embora».

«Também não querias que o teu pai morresse. Mas aconteceu».

E ainda:

«O que tocam eles?».

«Músicas proibidas, em gaitas de foles ilegais. Foi a mesma coisa quando o teu avô morreu».

William retira lentamente a longa espada da mão do tio. Parece sonhar com uma vingança precoce. Este logo o desengana.

«Primeiro, aprende a usar isto – toca-lhe na cabeça – depois, logo te ensino a usar isto – ergue a espada.

O que é um prolongamento da lição que o pai Wallace já concedera, antes de morrer.

Assim são os primeiros 20 minutos de filme. Constituem um verdadeiro poema cinematográfico acerca da feitura de um mito, do destino, da morte da inocência, de todo um leque radioso de emoções viscerais, que são afinal o que nos torna humanos: Amor, Honra, Fraternidade, Dor, Luto, Morte, Esperança, Magnanimidade.

Sem qualquer tipo de esforço, somos William. William com a sua doçura infantil, tão cedo roubada por um inimigo poderoso. William e o seu amigo para a vida, Hamish. William e o seu amor para a vida, Murran (a menina da flor). William que vai correr mundo, como todos os heróis e todos os mitos que um dia sonhámos emular, mas voltará, pronto para devolver a justiça ao seu (e nosso) Mundo.

O problema da Escócia

Tal mundo está relativamente controlado por Eduardo I. Sob a sua alçada temos:

 – Eduardo II, o filho, aqui retratado como um ser efeminado, fraco de espírito e de corpo, mais interessado numa (impossível de assumir) relação homossexual com o seu fiel pajem do que em aprender as artes da governação ou até do casamento.

 – Isabel, a noiva e futura rainha, chegada de França para selar um acordo de cooperação entre as duas coroas. Dona de grande força interior mas ainda ingénua no que diz respeito à intriga política, situação que rapidamente mudará com o auxílio de uma aia maliciosa.

 – A «nobreza» escocesa, onde se destacam o pai de Robert Bruce, e os líderes Mornay, Lochlam e Craig, todos eles subornados com títulos e propriedades em troca de subserviência.

A corte está reunida. «Longshanks» requisita a presença do filho, mas este envia a mulher. O rei disfarça o incómodo com fleuma e acidez, principais características do seu discurso. Considera necessária uma demonstração de força, pois apesar do recente casamento, a aliança com os franceses é frágil. Dominar a ilha é o seu desígnio.

«Como acreditarão os outros na nossa força se nem sequer dominamos a ilha?»

A habitual estratégia de suborno e fomento de querelas internas entre os clãs escoceses é incerta, sempre passível de falhas, mas os impostos acumulam-se acima do razoável.

«O problema da Escócia é que está cheia de escoceses». – Ironiza, perante risos cínicos. «Talvez esteja na hora de reinstituir um velho costume» – Explica, olhando lascivamente para a Princesa – «Prima Nocte. Se não os conseguimos derrotar pela força, iremos derrotá-los pelo sangue».

O conceito de «primeira noite» consistia muito simplesmente em conceder aos nobres ingleses direitos sexuais sobre qualquer noiva escocesa, assumindo-se que a prática poderia redundar em filhos de sangue inglês.

Ainda fora do jugo de Eduardo I está Robert Bruce. Este é visto como o herdeiro natural do trono da Escócia, mas oscila entre ouvir os conselhos do pai – a morrer de lepra – que lhe dizem para alinhar no habitual jogo político e ganhar os favores dos nobres, ou realmente exercer o direito de resistência ao domínio inglês.

Apesar das sombras, esta é ainda uma fase solar do filme. A inocência de criança limitou-se a ser substituída pela inocência da juventude.

William, agora com cerca de 25 anos – um adulto para os padrões do séc. XIII, mas ainda jovem e enérgico – regressa finalmente a casa e à tribo natal. É alguém viajado, que conheceu Roma, aprendeu Latim e Francês, e cumpriu os desejos do tio formando a mente ao mesmo ritmo do corpo. Porém, ainda possui desejos simples: gerir uma quinta, formar família, viver em comunhão com a Natureza.


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Há um casamento na aldeia. Estão todos presentes, os rostos que Wallace deixara na infância: Hamish, Murran, restantes vizinhos e amigos.

De súbito, um brutamontes de ar jovial atravessa-se no seu caminho. Desafia-o para uma «prova de virilidade».

«A força de um homem não está no braço, mas na cabeça» – Recita filosoficamente, reciclando os ensinamentos do pai e do tio.

«Não, está aqui» – Resolve o rival, distribuindo um familiar tabefe.

«Hamish?» – Reconhece William, quando se reergue.

Em seguida, um primeiro aflorar do mito de David e Golias, que muito depois será recriado em diferentes (e muito mais sérias) circunstâncias. Hamish aceita um desafio de Wallace, no qual tem de tentar acertar-lhe com um pedregulho. Falha por pouco, sem que o amigo se desvie. Para ilustrar a teoria, William, que sempre foi de pontaria afinada, utiliza uma pedra pequena para atordoar o outro, abrindo-lhe uma ferida na testa e «vencendo» o desafio. Estão feitas as apresentações. Wallace voltou a casa, como filho pródigo.

Segue-se Murran, agora uma das mulheres bonitas da aldeia. Há uma atmosfera entre ambos, inseguros sobre quem são. Antes que surjam esclarecimentos, o casamento é invadido pela patrulha inglesa, de modo a que o nobre inglês ponha em prática a ressuscitada lei de «prima nocte». Uma breve resistência é desarmadilhada pela própria noiva, que se submete de modo a poupar as vidas dos restantes, incluindo do noivo.

Aqui, o primeiro sinal acerca das características das personagens: são todos arquétipos, personagens planas, absolutos heróis e absolutos vilões, sem qualquer falha nessa construção, com duas únicas excepções, que exploraremos mais à frente: Robert Bruce e Princesa Isabel.

Um velho soldado observa Murran com doentio interesse, uma metáfora do interesse da velha e viciosa Inglaterra sobre a pura e jovem Escócia. Wallace interpõe-se entre os dois, ainda que de forma discreta.

Acto contínuo, segue-se o desenrolar da relação entre William e Murran. Este convida-a para um primeiro passeio, debaixo de uma intempérie (novo simbolismo).

«Está uma bela noite escocesa, a chuva cai ligeiramente de lado».

Perante a proibição dos pais, Murran foge-lhes, como fugiu quinze anos antes para oferecer uma flor àquele menino triste, tornado órfão.

«Costumas passear com estranhos durante a noite?».

«Foi a única forma de te fazer ir embora».

Como qualquer casal enamorado, passeiam, conversam, seduzem-se. Wallace exibe os habituais truques de galanteador, com a mesma energia desabrida que sempre teve. Fala -lhe em diferentes línguas, faz insinuações sexuais e logo lhe propõe casamento e filhos. Que rapariga nascida e criada num remoto lugarejo do norte da Escócia, que nunca ultrapassou as fronteiras daquelas montanhas, não diria que sim ao charmoso William, culto, corajoso, viajado, liderante?

Se dúvidas existissem, um William que durante quinze anos guardou aquela flor, símbolo do mais puro dos sentimentos, e que agora lha devolve como prova do seu amor, seca mas intacta, ainda envolta no mesmo pano onde a recolheu?

A expressão absolutamente estupefacta e rendida de Murran diz bem do significado de tal gesto.

Existe, contudo, um «pequeno» problema. O pai de Murran e a lei marital inglesa.

O primeiro revela-se bastante claro. Quando os velhos guerreiros que lutaram ao lado do pai de Wallace – onde se inclui o pai de Murran – o abordam para descobrir se ele quer participar em mais uma das suas (inúteis) «reuniões secretas», este rejeita.

«Quero viver em paz. E formar família» – Anuncia.

«O teu pai foi um patriota» – Riposta o mais inconformado. Mas o pai de Murran corrobora:

«Dizes que queres ficar longe de problemas? Se conseguires prová-lo, podes sair com a Murran. Antes disso não».

«Não? Mas não acabei de prová-lo?».

«Não».

«Não?».

«Não».


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William pode até julgar que está certo, que a experiência traumática de infância se diluiu enquanto viveu com o tio na Europa Continental, que no seu sangue corre apenas o desejo plácido de viver na sua pequena aldeia e tomar conta da família que formará com Murran.

Mas os mais velhos sabem mais do Mundo. E sabem – como recordou o pai de Hamish – que no sangue dos Wallace corre mais do que isso. Corre o fervor quente de um verdadeiro patriota. Pelo que William terá de fazer mais para provar as suas intenções.

Obviamente, a paixão não se compadece com normas. O jovem casal começa a encontrar-se em segredo, desde logo mostrando que o pai de Murran estava certo. Onde está William, está a subversão das regras, e logo, estão os potenciais problemas.

Por fim, casam-se em segredo, num noite fria, tentando a todo o custo evitar a lei marital.

E assim se conclui o segundo poema.

O sonho de William cumpriu-se. A seu lado, o amor de infância, os melhores amigos, a comunidade onde pretende viver em paz.

Porém, a realidade espreita. E avançará sem pudores.

Julgando obedecer às mais elementares regras de segurança, o novel casal passeia a uma distância razoável, comunica por olhares e pequenos gestos e arquitecta formas de se poder encontrar regularmente. Mas quando as regras são apenas elementares e olhamos mais para nós do que para aquilo que nos rodeia, há sempre a possibilidade de sermos descobertos. Sobretudo, se quem nos vigia é uma velha hiena, a mesma que há muito controlava os passos de Murran.

Na primeira oportunidade, convoca um par de soldados integrantes da habitual patrulha para cercar a presa, e desajeitadamente tenta violá-la num local ermo. Ninguém está suficientemente alerta para o evitar, a não ser que exista um marido extremoso.

Esse marido é William Wallace.

Impedido o ato hediondo, há agora que escapar do alerta que os soldados lançam. Murran procura evadir-se a cavalo, enquanto William pontapeia o inimigo.

É talvez o derradeiro sopro de inocência, o olhar final para uma utopia onde se acredita que os balões que sobem em direção ao céu nunca rebentam.

Porque, naturalmente, Wallace escapa – porque é homem, porque é forte e ágil, porque conhece os segredos.

E, naturalmente, Murran é capturada.mqdefault

Uma das cenas mais emblemáticas é a que nos apresenta a doce Murran presa ao poste em madeira, de olhar toldado pelas lágrimas e pelo terror. Percorre a linha de horizonte em busca de um William que não chega. O seu herói William, que vencia Hamish em provas de virilidade, que viajara pelo Mundo, que falava múltiplas línguas, invencível, inigualável, não chega. Aquelas lágrimas que lhe correm pelo rosto contêm a mesma dor inocente e confusa que povoava os olhos do pequeno Wallace, quinze anos antes. São feitas da mesma ingenuidade que julgou ser possível enfrentar o Mundo com uma careta. Que julgou, por um instante distraído, que fugir ao exército inglês era o mesmo que fugir à vigilância dos pais.

Quando o capitão da guarda rasga a garganta de Murran com um punhal, sabemos que a poesia morreu. Agora, estamos noutra dimensão.

«Um ataque aos soldados do Rei, é um ataque ao próprio Rei».

Pois que tudo comece.

Ficar longe dos problemas

Quem escapou para os montes, depois de uns golpes presunçosos na ralé militar de Eduardo I, foi William.

Quem dos montes regressa, seguro que a tragédia voltou a abater-se na sua vida e que os executores desse novo capítulo negro foram os mesmos de sempre, é Wallace.

E nem sequer é o Wallace que garantia ao futuro sogro que «queria ficar longe de problemas». Não. É um Wallace que talvez sempre tenha existido, mas que nunca fora visto. A partir de agora, já não falamos de um homem. Falamos do mito.

Como um demónio, por entre o flamejar das fogueiras acesas, eis que surge um indivíduo aparentemente pronto para se submeter à punição decretada pelo invasor. A aldeia exala um silêncio fúnebre, uma expectativa tensa, mergulhada em estado de sítio.

Wallace avança desarmado, montado num cavalo dócil, de braços abertos. O capitão sorri, as tropas aguardam.

Há uma breve e estranha troca de olhares entre o soldado que se apresta para deter o rebelde e este. Como se conseguissem ver-se para além das roupagens e das nacionalidades. «Não é nada de pessoal, mas o destino assim quis».

Wallace revela uma arma oculta entre os longos cabelos, e ataca. A partir daqui, nada voltará a ser o mesmo.

De todos os recantos, vemos aldeões que se transformam em soldados. Lavradores, pastores, artesãos, de súbito feitos guerreiros. A chacina é rápida e eficaz, sobretudo porque apanha os ingleses de surpresa. Como um cão diariamente pontapeado, considerado demasiado fraco para sequer ladrar, que de repente encontra forças para, num espasmo, morder o agressor.

diapositiva8Sangue derramado, raiva vulcânica finalmente liberta, Wallace arrasta o assassino da mulher para o mesmo poste e executa-o num gesto mecânico com o mesmo punhal, abrindo-lhe a garganta. E só nesse momento se liberta do transe. Permite-se, por um segundo, a ser William.

Os justiceiros temporários regressam aos seus postos de lavradores, pastores, homens simples de família, aldeões. Não há verdadeira noção do que aconteceu.

Apenas o pai de Hamish se atreve a explicar: «Filho de Wallace».

«O teu pai foi um patriota» – Atirara-lhe à laia de crítica quando William ainda queria ser William. Este acaba de dar-lhe a melhor das respostas. É filho de Wallace. É o líder com que eles sempre sonharam. O sonho de rebelião gerou ali a sua primeira semente.

É tempo de outros obterem as suas próprias vinganças. O noivo obrigado a ceder a mulher na noite de casamento, aproveita para chacinar o lorde inglês por isso responsável, depois de mais uma escaramuça vitoriosa. Enquanto os companheiros agem instintivamente, Wallace é já um político.

«Os restantes serão poupados. E irão para Inglaterra anunciar que a Escócia é livre».

A palavra passa, nos dois lados da fronteira. Os clãs mais próximos aparecem, solidarizam-se, fazem crescer a turba revoltosa. As patrulhas inglesas desdobram-se em ataques brutais, procurando deter a insurreição.

Wallace lidera agora os vizinhos, os companheiros do pai, os seus próprios amigos. O pai de Murran engoliu a tentação de se vingar do genro, percebendo-lhe as razões, e juntando-se a ele no combate ao verdadeiro inimigo. «Não te disse para ficares longe de problemas?» parece querer dizer aquela mão, quase a esmagar a cabeça de um humilde William, que se coloca diante dos seus pés. Mas logo se retira, em perdão.

Afinal, num contexto assim, até que ponto era possível «ficar longe dos problemas»?

Tentar agir como um

Uma brisa pode crescer até se transformar num temporal. Eduardo I sabe isso melhor do que ninguém. O seu filho, nem por isso.

Eduardo II está também ele toldado por uma espécie de inocência, que apesar de longe da exibida por Murran, pode tornar-se igualmente nociva. Para ele, ser Rei resume-se a desfilar fatos de gala, sugar elogios e aplausos imerecidos e brincar com soldadinhos de chumbo.

«Longshanks» visita-o, por entre um patético torneio de arco e flecha.

«Há um rebelde de nome Wallace que anda a semear a confusão na Escócia. O que sugeres que se faça?».

«Tratá-lo como qualquer ladrão vulgar, mandar o magistrado local puni-lo».

O Rei pede privacidade, evitando humilhar o filho publicamente. Assim que pode, lança-o ao chão com uma bofetada.

«Wallace já executou o magistrado e tomou conta do respetivo território. Ao amanhecer vou para França, tentar garantir apoios e expandir o teu futuro reino. Ficas encarregue de resolver esta rebelião. Um dia serás Rei. Ao menos tenta agir como um».

Quem também procura perceber como deve agir um futuro Rei, é Robert Bruce. Vemo-lo aqui na primeira de quatro conversas que terá com o pai, encontros esses que praticamente escreverão o destino de todos os personagens.

«Estalou uma rebelião» – Anuncia Robert, com um entusiasmo juvenil.

«Da parte de quem?»

«Um aldeão. William Wallace».

O pai de Robert Bruce pertence a uma velha casta de políticos.

«Apoiarás essa revolta com a ajuda das nossas terras a Norte. Eu ganharei o apoio dos ingleses se me opuser a ela com as nossas terras do Sul».

braveheart_27_robertO primeiro sinal de que Robert é uma das poucas personagens «humanas» do enredo – no sentido de ser modelada, passível de evolução positiva ou negativa – é o conflito de alma que confessa ao pai. Este ri-se, como se perante uma travessura de criança.

«Gostarias de apoiar Wallace no campo de batalha? Também eu…».

«Talvez tenha chegado a hora…».

«É hora de sobreviver. Os teus antepassados deixaram-te terra e título porque se recusaram a atacar. Presta atenção: Eduardo I é o mais sanguinário de todos os Reis que alguma vez governaram Inglaterra, e nada nem ninguém sobrará para contar a história se não formos igualmente implacáveis. Admiras esse aldeão porque os homens que não negoceiam são fáceis de admirar. Tem coragem? Um cão também a tem. É precisamente a capacidade de negociar e chegar a compromissos que torna um homem respeitável. Fica atento ao que diz a nossa nobreza. A chave para o seu pensamento é a chave para o trono».

Existem duas formas de encarar a vida. De frente, ou na sombra. Trabalhar contra o sistema ou dentro do sistema. Robert Bruce ainda hesita, porque tem algo a perder. Wallace e todos os que o seguem, não.

O exército de insurrectos cresce. Uma guerrilha cada vez mais perigosa conquista terreno a todo o vapor, aproximando-se o dia em que terá de enfrentar as tropas inglesas em campo aberto.

Os cabecilhas escoceses, corajosos e obstinados, não deixam contudo de estar ainda deslumbrados com o seu próprio percurso. Cada batalha que travaram foi considerada como a última, condenada ao fracasso como tantas outras nas gerações anteriores. O facto de William os liderar durante tantos meses rumo ao sucesso imparável ainda lhes parece um sonho. E talvez seja.

Note-se o nível de inocência juvenil neste diálogo.

«O meu tio Argyle comentava que nenhum exército pode sobreviver a um ataque de cavalaria pesada».

«O que faremos?».

«Ataques breves e fuga rápida, à maneira das montanhas» – Sugere o pai de Hamish.

«Faremos lanças. Enormes, duas vezes o tamanho de um homem» – Explica Wallace.

«Assim tão grandes? Mas há homens maiores que outros» – Argumenta Hamish.

«A tua mãe andou a contar-te histórias sobre mim» – Ri-se o pai.

A diferença entre estes quase-heróis e um grupo de adolescentes hormonais parece pouca. Mas afinal, é preciso manter o moral das tropas.


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Outro ponto de viragem, essencial para o desenrolar da campanha, é a chegada do irlandês Stephen, que rapidamente se tornará um dos adjuntos de William.

As tácticas para exterminar a revolta escocesa eram muitas. Uma delas, passava por assassinar os líderes. Um acompanhante de Stephen trata Wallace com reverência, dá-lhe presentes e jura fidelidade. O irlandês de aspecto tresloucado, pelo contrário, come da comida dos outros sem pedir licença, ri-se na cara de William, e exibe todo um conjunto de atitudes pretensiosas.

«Se me juntar a ti, poderei matar ingleses?»; «Para falar com o seu semelhante um irlandês é forçado a falar com Deus»; «Este não pode ser Wallace, sou muito mais bonito do que ele».

Toda esta parafernália exibicionista oculta no entanto um lado nobre. Stephen é aquele tipo de pessoa mortal para o seu inimigo, mas totalmente leal para o seu amigo.

«Sou o homem mais procurado da minha ilha, o que é uma pena porque não estou lá».

«A tua ilha? Queres dizer a Irlanda?».

«Certamente. É minha».

«Mas que irlandês tão tolo…» – Resmunga o pai de Hamish.

Stephen encosta uma pequena faca à garganta do outro.

«Esperto o suficiente para esconder um punhal dos teus homens, velhote».

A tensão é rapidamente resolvida por William.

«Estes são os meus amigos, irlandês. Mas sim, se te juntares a nós, podes matar ingleses à vontade».

«És louco, homem».

«É verdade. Parece-me que estou no sítio certo».

Stephen, com a sua visão original do mundo, transporta consigo uma sapiência diferente, que será muito útil a todos no futuro, sobretudo a nível emocional. É uma espécie de profeta alegre, que consegue manipular os outros na direcção certa precisamente por não ser levado a sério. Poucas horas depois, sem surpresa, salva William de uma emboscada preparada pelo reverente companheiro, que com ele chegara.

«O Senhor enviou-me para te manter em segurança». – Wallace olha para o céu, duvidoso.

Batalha de Stirling

Eis o que se passava nos campos de batalha antes de Wallace. Ambos os lados desfilavam as tropas, sendo o exército inglês invariavelmente superior em número e armamento. O invasor tinha cavalaria pesada, archeiros eficazes e infantaria disciplinada. Os rebeldes escoceses tinham uma trupe desengonçada, mal armada e pouco numerosa, os archeiros eram fracos, a cavalaria resumia-se a meia dúzia de elementos, quase todos pertencentes à nobreza escocesa, pouco dada a batalhas.

O processo normal consistia, se os ingleses estivessem bem-humorados, em negociar-se uma trégua, que passava por reforçar os títulos e propriedades dos nobres. Feito o acordo, todos desmobilizavam.

Desta vez, os ingleses estão menos tolerantes. Nos campos de Stirling fazem uma autêntica demonstração de força, capaz de provocar arrepios no mais corajoso dos soldados. Enfrentar aquilo é como enfrentar uma onda gigante.

Os nobres, já de si pouco ousados, engolem em seco e planeiam os termos da rendição. Filas de desertores tornam o parco exército escocês num objecto quase descartável. Mornay, Lochlam e Craig mal evitam a debandada.

Entretanto, chega Wallace e o seu «estado-maior»: Hamish e o pai, o sogro, Stephen, e outros elementos da revolta original, na aldeia.

Quem viu o filme ao menos uma vez, conhece a cena que se segue.


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«Este é o nosso exército, se te queres juntar a ele, presta-nos homenagem» – Clamam os nobres.

«Por se apresentarem aqui hoje, concedo-vos o meu agradecimento. Mas se é o vosso exército, porque desmobiliza?» – Dirige-se às tropas.

«Vamos para casa, os ingleses são demasiados».

«Meus amigos, sou William Wallace».

«Impossível, William Wallace mede pelo menos dois metros».

«Ouvi dizer. E se aqui estivesse desfazia os ingleses, com raios a saírem-lhe dos olhos e bolas de fogo a saltarem-lhe do traseiro».

O discurso prossegue.

«Eu sou William Wallace. (…) Estão aqui como homens livres, e homens livres têm de permanecer. Lutarão por isso?».

«Contra aquilo? – Um elemento destaca-se dos restantes – «Nem pensar. Fugiremos e continuaremos vivos».

«Certo. Se lutarem, poderão morrer. Se fugirem, ficarão vivos…por mais algum tempo. E quando estiverem nos vossos leitos de morte, daqui a muitos anos, não quererão trocar todos esses dias, entre hoje e esse momento, por uma oportunidade, uma mera oportunidade de regressar aqui e dizer aos nossos inimigos que podem retirar-nos a vida, mas nunca nos roubarão o sonho de liberdade?».

Para que a batalha aconteça, falta um último detalhe. Boicotar as «tréguas». Wallace intromete-se entre os nobres e provoca todos até à exaustão. Um dos resultados práticos é toldar a mente dos ingleses, que passam a agir sob o efeito da raiva.

O inesperado de toda a situação permite inclusive que Wallace manobre os sisudos nobres escoceses. Entrega-lhes a táctica para a batalha, que eles aceitam, algo atónitos.

Logo no início, Wallace escapa a uma flecha por pouco. Stephen comenta, naquele tom meio profético, meio louco: «O Senhor diz que consegue tirar-me desta confusão, mas garante-me que estás condenado».

William olha-o, sem nunca saber se deve levar aquele irlandês a sério. Este ri-se, qual duende tresloucado, e juntos avançam para o combate.

Um irado comandante inglês é levado ao engano, quando vê a cavalaria escocesa a retirar. Decide-se por um ataque frontal e descuidado, como quem pretende esmagar uma barata.

Ordena o avanço da cavalaria, que rasga furiosamente para a morte, escondida pelos escoceses nas prometidas lanças. Depois disto, dá-se o choque de infantarias, que os rebeldes vencem porque são alimentados por algo relevante.

Ou seja, enquanto os ingleses lutam por obrigação, por obediência aos superiores, com gestos mecânicos e treinados, os escoceses lutam com o coração. Lutam por um ideal, pela liberdade, pelos parentes mortos, pelas aldeias queimadas. No momento de defender um golpe ou executar outro, essa energia extra revela-se essencial. E de súbito, contra toda a lógica, o combate equilibra-se.

A artimanha final passa pela cavalaria escocesa. Retirou sim, mas para regressar pelos flancos, destruindo os archeiros inimigos e ajudando a chacinar a infantaria. O massacre é total, com baixas grandes para os dois lados (o pai de Hamish perde o antebraço), mas Stirling transforma-se num dos maiores sucessos do exército escocês em toda a História.

Como em tempos William demonstrara a Hamish, a precisão e a cooperação podem derrotar a força bruta e presunçosa.

O grito lançado por Wallace e correspondido pelos sobreviventes (onde se incluem os dois elementos que queriam desertar) é uma emancipação, um crescimento em relação ao que foi escutado no primeiro combate na aldeia. O que começou por ser uma brisa, é agora uma ventania moderada. A famosa espada que William herdou do tio é pela primeira vez lançada ao solo, enquanto símbolo de uma Revolução.


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Servir-se ou Servir

O que se ganhou em Stirling e o que se poderia ter ganho, são coisas diferentes. Como em tantos outros momentos na história do Homem, o surgir de uma oportunidade não significa o seu aproveitamento. Na verdade, na maioria das vezes, significa mesmo o seu desperdício.

William e os fiéis escudeiros são agraciados por uma nobreza maliciosa. Entre eles, um Robert Bruce ainda oscilante. Wallace é tornado cavaleiro e o seu estado-maior recebe um conjunto de condecorações.

Para eles, aquilo nada significa. Um título ou uma medalha a oscilar-lhes no pescoço não os faz melhores, mais fortes, ou menos imunes à morte. Sobretudo, não os torna mais livres do jugo inglês. Os nobres pensam o contrário. Aplaudem-no, constrangidos.

«Alguém conhece a sua política?» – Sussurra Bruce.

«Não, mas enquanto não se descobre, está a lutar por nós. Temos de bajulá-lo» – Explica Craig, a maior das víboras presentes.

O novo «estatuto» de Wallace, agora «Sir William», começa de imediato a ser cobrado. Os diversos clãs mergulham em histerias patéticas sobre direitos estatutários e outras minudências. Wallace retira-se, resumindo:

«Existe uma diferença entre nós. Vocês julgam que os títulos servem para vos fornecer terras e riquezas. Eu penso que esses títulos servem para fornecer a liberdade ao povo. E tenho de garantir que a vão obter».

Robert Bruce é o único que lhe presta uma vaga atenção. Quer pelo menos compreender o modo de pensar daquele homem, tão diferente dos que tem conhecido. Segue-o até ao exterior, de modo a falar-lhe em privado.

«Respeito o que disse ali, acredite. Mas todos estes homens são ricos em títulos e terras escocesas e inglesas. Têm muito a perder».

«E o homem comum, que perde sangue e vida no campo de batalha, arrisca menos?».

«Não» – Concede um cada vez mais cativado Robert – «Mas este país, de cima abaixo, não tem qualquer noção de identidade. Os clãs combatem entre si, os nobres passam o tempo a discutir detalhes. E contudo precisamos deles».

«Precisamos deles? Diga-me, o que significa isso de ser nobre? Os homens não seguem títulos, seguem a coragem. O Robert é o nosso líder por direito, o futuro Rei. Se ao menos guiasse o povo à liberdade, este segui-lo-ia sem hesitar. E eu também».

Os olhos de Bruce brilham de entusiasmo.

«Se fizer inimigos dos dois lados da fronteira, acabará morto».

«Todos acabaremos mortos. É só uma questão de como e porquê».

A fúria e convicção de Wallace são tais que este decide, sem o apoio dos nobres, atacar York, à época a maior cidade do Norte de Inglaterra. Já não se trata de responder à invasão inglesa. Trata-se de contê-la na origem.

E de novo, contra tudo o que seria expectável, vence.

Enquanto tudo isto se desenrola, Eduardo II continua mais preocupado com vestimentas e pajens do que com Wallace. Recebe vagas informações acerca da rebelião e de como o Norte de Inglaterra parece envolto em problemas, mas considera que mais cedo ou mais tarde tudo voltará à normalidade. O actual rei, «Longshanks», permanece ausente em França e a Princesa Isabel só agora começa a despertar para o que a rodeia.

A auxiliá-la bastante nessa tarefa, está a sua aia, que como qualquer dama de corte que se preze, obtém preciosos segredos militares através das artes de sedução. Já que, segundo ela própria: «Os ingleses não sabem para que serve uma língua».

braveheartÉ assim que se familiariza com a história do rebelde escocês, exímio a escapar a emboscadas desde criança, obrigado a permitir a profanação dos túmulos do pai e irmão para sobreviver a mais uma, ou a enterrar a amada morta num local secreto, amada essa que é o principal motor da sua revolta. Com o tempo, será cada vez mais fácil a Isabel desprezar marido e sogro e apoiar como pode aquele herói romântico, que parece possuir em excesso o que a ela lhe falta: paixão.

Aqui, o filme apresenta-nos finalmente a perda de inocência do lado inglês, também esta essencial para o desenrolar da trama.

Eduardo I chega a casa, por fim, o que muito enerva o seu incapaz filho. Reúne um pingo de compostura com a ajuda do seu amado pajem.

«Que notícias há do Norte de Inglaterra?».

«Nenhumas. Aguardo novidades a todo o instante».

«Pois vê lá que as novidades são tais que até chegaram a França. O que se ouve, meu filho, é que a rebelião de Wallace prosseguiu e que todo o nosso exército do Norte do país foi chacinado. Vejo que nada fizeste para o evitar».

«Acabei de reunir tropas, que já estão prontas a partir».

Entretanto, um servo traz uma mensagem.

Eduardo II treme ao ler o papel: «Wallace saqueou York».

«O que dizes?».

«Wallace saqueou York».

Não só saqueou, como enviou a cabeça do sobrinho de Eduardo I, como prova.

Alea jacta est, parece ouvir-se. «Os dados estão lançados».

images-1«Longshanks» entendeu o aviso. Wallace consegue ser tão brutal como ele. O que é um problema. Ainda assim, prático como sempre foi, começa de imediato a arrumar a casa. Atira o impertinente pajem, amante secreto do filho, pela janela. Esbofeteia e pontapeia Eduardo II, quando este ensaia um estertor teatral, condenado ao fracasso. E por fim raciocina, reflecte, pondera.

«Se Wallace consegue saquear York, consegue invadir Inglaterra. É preciso comprá-lo. Mas quem enviar? Eu não, ainda me arrisco a que a minha cabeça acabe num cesto. E certamente não o meu delicado filho, só de olhar para ele qualquer vagabundo ganha coragem para conquistar o país. Então quem mandar? Quem mandar?».

Os escravos fazem-se assim

Quais os verdadeiros motivos de William? Glória pessoal? Glória do povo escocês? Desejo de liberdade? Vingar a morte do pai e do irmão? Talvez um pouco de tudo isto, mas nada tão evidente como mostrar ao espírito imortal de Murran que continua a fazer o que está ao seu alcance para vingá-la. Talvez William ainda sofra ardentemente pelo facto de não ter estado presente no momento da morte da mulher, pelo facto de não a ter salvo quando ela mais precisava. E esteja agora condenado a correr, o resto dos seus dias, atrás dessa redenção. É exactamente isso que ele parece sugerir nos sonhos vívidos que o atormentam.

«Estou a sonhar».

«Sim» – Responde a presença etérea da amada.

«Não quero acordar, quero ficar aqui contigo».

«Eu também. Mas tem de ser. Tens de acordar».

É discutível se Wallace acordou. Se não esteve mergulhado até ao fim num delírio de vingança, confundindo-o com Revolução.

O enviado de «Longshanks» é a Princesa Isabel. Esta apresenta-se em York, sob uma bandeira branca. Negoceia em nome do Rei.

Espera talvez deparar-se com um bárbaro, atraente na sua selvajaria incondicional, mas longe de ser um homem de Estado. Engana-se. Wallace desmascara as mentiras que lhe foram transmitidas e refuta em Latim os novos argumentos que um enviado do Rei lhe apresenta. Levado pelo mesmo fervor com que seduziu Murran, muitos anos antes, questiona se preferem falar em Francês. Sim, é um bárbaro selvagem, mas em nada diferente de qualquer nobre, em qualquer parte do Mundo.

Isabel apresenta a proposta real: ouro, títulos, terras.

«As tréguas fazem-se assim».

«Os escravos fazem-se assim». – Rejeita.

William descobre, contudo, qualquer coisa de doce, de «Murran» nos olhos de Isabel. A mesma inocência, mas o mesmo atrevimento, a mesma força interior que a impede de ser uma marioneta vazia. Abre o coração, conta-lhe o seu lado da história, e deixa-a partir em paz. Ainda não sabe, mas ganhou uma preciosa aliada.

Quem regressa à corte é uma nova Isabel. Wallace tem agora um espião no coração do inimigo. E em boa hora o obteve.

«Aceitou a minha proposta?».

«Não» – Mal esconde o entusiasmo.

«Porque não avança, então?».

«Diz que espera por si em York, se estiver disposto a enfrentá-lo».

Os tempos em que Eduardo I se deixava surpreender por Wallace estão contudo ultrapassados.

«Enquanto esse atrevido me aguarda em York, entrarei por Edimburgo com cavalaria francesa, tropas galesas e mercenários irlandeses». – Declara.

«Tudo isso deve levar meses a reunir, quanto mais enviá-los a tempo…» – Comenta o filho.

«Enviei-os ainda antes de mandar a tua mulher. Portanto parabéns. A nossa pequena artimanha resultou». – Elucida. Isabel mal disfarça o choque.

Porém, ao contrário de antes, irá reagir rapidamente. A sua aia de confiança parte em segredo, de modo a avisar os rebeldes da terrível armadilha.

Se alguma vez existiu em William ou nos restantes algum delírio conquistador, chegou a hora de despertar para a realidade. É urgente regressar a Edimburgo de modo a evitar que o país que juraram defender seja reduzido a cinzas.

«É verdade, Stephen?».

«Tive de ver com os meus próprios olhos para acreditar. Mas não te preocupes com eles. Estou a dizer-te desde o início: A ilha é minha».

«É mesmo tua?».

«É mesmo minha».

No entanto, se Stephen anuncia controlar a Irlanda, ninguém parece ser capaz de controlar a Escócia. Wallace interrompe mais uma reunião de nobres, esgotado por incontáveis dias de marcha.

«Eduardo I vai atacar em força. Reuniu apoios por toda a Europa. A única alternativa é negociar» – Lembram-lhe os presentes. – «Não podemos derrotar um exército destes».

«Podemos. E iremos fazê-lo! – Berra William. – «Vencemos em Stirling e nem assim ficaram convencidos. Vencemos em York sem o vosso apoio. Se agora não nos ajudarem declaro que não passam de cobardes. E se alguém desta mesa se considera escocês, então tenho vergonha de ser um».

É incerto se esta ofensa decretou o fim das possibilidades de entendimento entre Wallace e os outros, porque o mais provável é que tal cenário nunca se tenha verdadeiramente colocado. Robert Bruce, uma vez mais (como um Rei deve fazer) procura consensos.

«Sir William, uma palavra em privado. Estamos gratos por tudo o que tem feito, mas lutar nestas condições não me parece coragem, apenas raiva irracional».

«É muito mais do que raiva» – Confessa Wallace, frustrado por ninguém entender o que é de facto necessário.

«Há força em si, eu vejo. Se nos unirmos, todos sem excepção, podemos vencer, e se vencermos, teremos o que nunca ninguém teve. Um país independente. Una os clãs! Una-nos!».

bh_hands1Robert Bruce, apesar de inseguro, acede ao «acordo». Acede ao coração, ao seu lado mais puro e nobre. Existe porém um outro lado, personificado na figura do pai.

Neste segundo encontro entre os dois, torna-se claro o paradigma. Bruce é o herdeiro natural do trono, pelo que não é uma questão de «se» mas de «quando» e «como».

Esta é talvez a alegoria mais interessante em todo o filme, pois a dupla faceta de Robert surge personificada quer no seu pai, quer em Wallace.

No futuro, teremos um de dois Reis:

 – O Rei do passado, simbolizado pelo pai e restantes nobres, decadente, leproso, envelhecido e ultrapassado, um soberano rico porém corrupto, cobarde e dono de um poder oco;

 – O Rei do futuro, à imagem de Wallace e do próprio Bruce, visionário, corajoso, independente, leal, generoso.

O primeiro teste a este dilema existencial estará presente em Falkirk.

A Batalha de Falkirk

Pode dizer-se que o pináculo desta sucessão de eventos é o confronto que se avizinha. Um espectador em 1298 facilmente concluiria que o destino dos contendores se jogava naquela terrível batalha. Uma vitória de Wallace, como ele não se cansava de dizer, abriria largo caminho para a Independência da Escócia, um sucesso de Eduardo I podia esmagar para sempre essas pretensões.

Pela primeira vez, «Longshanks» marca presença, assim como toda a fina flor do seu exército. A auxiliá-lo, presos por diversos acordos, franceses, galeses, irlandeses.

Do lado oposto, a guarda pretoriana de Wallace, Mornay e Lochlam. Craig não se compromete e Bruce parece atrasado. Hamish comenta isso com o amigo.

«Virá. Mornay e Lochlam vieram».

Desta vez, não há qualquer tipo de negociação. Os dados são claros. E nunca como agora se percebe o espírito implacável de Eduardo I.

«Os batedores dizem-me que os archeiros deles estão demasiado longe. Envia os irlandeses na frente. As setas custam dinheiro, os mortos não custam nada».

Assim se faz. Uma vaga de mercenários irlandeses corre ao encontro da infantaria escocesa, para uma primeira refrega. A expectativa é geral, mas no instante derradeiro, todos se detêm. Stephen cumprimenta-os, alegremente. Não mentiu. A ilha «é sua». O seu povo não perde uma oportunidade de trair o inimigo inglês. Tal reviravolta resulta no óbvio reforço das tropas escocesas e no enfraquecimento numérico do exército invasor. E logo em seguida, a cavalaria que se lança para corrigir a situação acaba prisioneira de uma emboscada previamente preparada por Wallace. Os archeiros «demasiado longínquos» disparam flechas incendiárias, que envolvem os cavaleiros ingleses num mar de chamas.

«Será possível?» – parecem perguntar todos. Será possível que Wallace derrote de facto Eduardo I no campo de batalha? Que mais uma vez se prove a lição de Stirling? Nunca saberemos. Os ingleses foram apanhados de surpresa, sim, mas apenas no momento. As surpresas determinantes tinham sido previamente cozinhadas por «Longshanks», que nunca perdeu a compostura. Na altura decisiva, quando o equilíbrio de forças é precário e o destino balança entre os dois lados, tudo o que bastava era que a cavalaria escocesa prestasse o precioso auxílio que tão bem resultara em Stirling. E o espectador fica claramente com a noção de que os escoceses «venceriam» se assim tivesse ocorrido. É de facto brilhante a forma como se consegue incutir no observador o sentimento de que «se as coisas fossem justas», Wallace tinha razão.

Mas, como é bem sabido, na guerra vale tudo – e muito mais numa guerra contra «Longshanks». Apesar de Wallace fazer sinais frenéticos, os nobres olham-no com desprezo e até um certo prazer sádico. Retiram-se.

«Mornay? Loclahm?».

«Dei a um o dobro das terras e dos títulos que já possuía. O outro vendeu-se por muito menos…» – Esclarece um tranquilo Rei. «Usa agora os archeiros».

«Perdoe a pergunta, Sir, mas não atingiremos as nossas tropas?».

«Sim…mas atingiremos as deles também. Há reservas. Atacar!» – Ordena, espantado com a hesitação do subalterno.

Da mesma forma que pressentimos que estava «ganho» no momento em que Wallace convocou o auxílio dos nobres, sabemos agora que está perdido. Tudo perdido. Resta-nos presenciar como. E a resposta é dramática.

A intempérie de flechas abate não só um enorme grupo de personagens conhecidas (amigos de Wallace, o noivo ultrajado, entre outros…) como fere o próprio William.

Em simultâneo, o pai de Hamish sofre um golpe fatal, que não o mata de imediato mas condena-o a uma morte anunciada e dolorosamente lenta.

E mais uma vez, sentimos aquela dor como nossa. Nos campos de Falkirk, expira qualquer ideia romântica de Revolução que possamos ter tido. Perece a campanha inspiradora de todo um povo, apaga-se a faísca que se soltara naquele dia longínquo, na aldeia de Wallace.

A partir dali, nada será como antes, assumindo que sobra alguma coisa.

«Enviem notícias da nossa vitória. E tragam-me Wallace. Vivo se possível, morto…também serve. Vamos andando?» – Conclui Eduardo I, como se tivesse acabado de tomar chá.

Por entre o fragor incontrolável, o sangue dos compatriotas, a iminência da derrota, William vislumbra a partida do visceral inimigo. É provável que, num segundo tresloucado, tenha pensado que a vitória negada estava ao alcance de um ataque viperino ao Rei. «Morreu o Rei, Viva a Independência da Escócia».

Lança-se contra esse moinho de vento. Stephen, um dos poucos sobreviventes, segue-o. Apercebendo-se da situação, uma das altas patentes ordena a outra que proteja o Rei. Este assim faz.

No choque frontal, o cavaleiro vence, derrubando William, mas o golpe é dado de forma hábil, para lhe poupar a vida. Wallace finge-se tombado, e quando o outro se aproxima, ataca-o e retira-lhe o capacete, para melhor lhe cortar a garganta.


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Temendo a morte, Robert Bruce grita de terror.

Sim. Robert Bruce, o herdeiro natural do trono da Escócia. Robert Bruce, o mesmo que prometera a William «unir os clãs» e marcar presença na grande batalha. Robert Bruce, o futuro Rei de Wallace, por quem este lutava até à exaustão.

É este Robert Bruce que, seguindo o conselho do pai, se aliou a «Longshanks», contra o seu próprio povo, contra todos os que jurou defender.

William não quebrou quando os nobres desertaram. Não quebrou quando perdeu a batalha, vendo morrer a seu lado grande parte dos companheiros que o acompanhavam desde início. Não quebrou ao longo de todos aqueles anos de luta sem tréguas.

Até agora.


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Destroçado, de alma desmembrada, ferido pela mais venenosa das traições, deixa-se tombar no solo, indiferente a tudo. Que a doce morte chegue, que a reunião com Murran não demore, pois já nada faz sentido. Quase nos sentimos a desfalecer com ele, naquele instante magnético.

Apercebendo-se do mesmo, e voltando a si, Bruce é incapaz de entregar Wallace à morte certa e implora a Stephen, que os seguiu, para que o salve. O irlandês lança-lhe um olhar elucidativo, e obedece.

Líder de espectros

A noite que tomba nos campos de Falkirk é a noite que tomba na alma escocesa. Robert Bruce caminha incógnito por um mar de mortos, moribundos, e famílias que procuram identificar ente-queridos. Este terror é obra dele. Não passa de um Rei de espectros, fantasmas que o atormentarão para sempre. Recolhe o lenço que Wallace carregava desde o primeiro dia, símbolo do seu amor por Murran. O que isto significa é que Wallace já «partiu». Deixou de estar nas mãos do corajoso aldeão o destino do povo escocês. Ou Robert Bruce encontra um caminho, ou não há caminho.

Regressa, pela terceira vez, ao debate com o pai, cada vez mais doente.

«Eu é que estou a apodrecer, mas o teu rosto parece mais moribundo que o meu».

Morreu, de facto, algo em Robert.

«Fizeste o que estava correto. Salvaste a tua família, aumentaste o número de terras. A seu tempo terás todo o poder na Escócia».

«Terras, ouro, títulos, nada…».

«Nada?».

«Não tenho nada! Os homens lutam por mim porque se não o fizerem eu expulso-os das suas casas e mato à fome as suas famílias. Os homens que tingiram de vermelho o chão em Falkirk lutaram por Wallace, e ele luta devido a algo que eu nunca tive. Não só nunca tive como lho roubei naquele dia, assim o vi no seu rosto no derradeiro momento. E tudo isso está-me a destroçar».

«Todos os homens traem…todos perdem a coragem…».

«Eu não quero perder a coragem! – Desespera – «Quero acreditar, como ele acredita. Nunca mais me apanharão a defender o lado errado».

O pai de Bruce sabe que isso é falso. E Robert, talvez disso desconfie.

William Wallace nunca teve mais de dois metros de altura. Nunca consumiu os ingleses em bolas de fogo saídas do seu traseiro, ou com raios a chisparem-lhe dos olhos. Mas isso não o impediu de se tornar numa lenda, num mito, num Herói.

Ao sobreviver a Falkirk, tornou-se imortal, omnipresente e omnipotente.

«William Wallace matou 50 homens. Cinquenta. Com a sua enorme espada».

«Cem homens. Cem, estou-te a dizer. Abriu caminho entre eles tal como Moisés no Mar Vermelho».

«A lenda cresce. Convoca novos voluntários em todos os recantos da Escócia. Será ainda mais difícil do que antes» – Lamentam os conselheiros de «Longshanks».

«Não passam de carneiros, miseráveis carneiros!» – Barafusta um Rei envelhecido e tomado pela doença – «Serão facilmente dispersados se matarmos o pastor».

Eduardo I está certo, mais uma vez. As novas tropas de Wallace, com excepção de Hamish e Stephen, os fiéis escudeiros, deixaram de ser os guerreiros experimentados e endurecidos por muitos anos de luta. Sem Wallace, regressarão ao anonimato.

Para além disso, Wallace perdeu algum tempo a ajustar contas. Mornay é assassinado no próprio quarto, numa brilhante sequência que mistura pesadelo e realidade. Lochlam tomba dos céus em cima de uma mesa de banquete, como se fosse um suíno, embebendo em sangue o jantar de Craig.


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«Não se sabe quem será o próximo» – Dissera este a Robert, minutos antes.

«Talvez tu». – Ri-se amargamente Bruce – «Talvez eu. Pouco importa».

William pode ter executado uma espécie de justiça divina, mas a morte dos nobres significa a ausência de auxílio por parte dos respectivos súbditos. E esse «detalhe» será decisivo, a longo prazo.

É de novo a Princesa Isabel que corre em auxílio do fatigado guerreiro. Mais uma vez a aia alertou-a para a emboscada que se aproxima.

«Um Rei deve encontrar o lado positivo em todos os cenários» – Ilustrara o monarca quando o preveniram para a possibilidade de Isabel «ser ferida no processo».

«Tal facto deixaria o meu filho tristíssimo. Mas por outro lado, se algo acontecer à Princesa, talvez os franceses nos prestem por fim um auxílio precioso».

No mesmo género de celeiro onde, décadas antes, um ingénuo William viu os amigos do pai serem executados, aguardam-no agora novos assassinos de elite. Com a preciosa ajuda de Hamish e Stephen, Wallace queima-os vivos.

É tempo de compensar a Princesa por tantos e tão importantes serviços prestados. Talvez Wallace repita para si mesmo que está com Murran, talvez Isabel consiga convencer-se que William a desposará e que juntos poderão governar a Escócia. Ou talvez ambos saibam que o caminho para a perdição pode conter nele diversos bálsamos.

Passam mais meia dúzia de anos, longos, duros, sem progresso. Estamos em 1305, Wallace conta 35 anos, ninguém sabe se está vivo ou morto. A Revolução esbateu-se, «Longshanks» está no leito de morte, a Princesa parece prepara-se para um futuro golpe de Estado, decidida a afugentar assim que puder o inútil Eduardo II. Robert Bruce aguarda a morte do pai, incapaz de ser ele próprio antes disso.

Vemo-nos em breve

Eis que Craig, um dos últimos sobreviventes da velha casta de nobres, é recebido num local secreto, por um derradeiro punhado de rebeldes. Wallace, Hamish e Stephen são os líderes.

«Quando toda a esperança parecia perdida, somos por fim socorridos pela nossa ilustre nobreza» – Cospe Stephen com sarcasmo.

«Venho em paz, Wallace. Se não vos temos ajudado é porque quase ninguém acredita que estejas vivo. É tempo de resolver isto. A Escócia será apenas uma».

«Uma? Queres dizer o meu clã e o teu».

«Não, quero dizer isto».

Retira o lenço perdido por Wallace em Falkirk, devolvendo-o.

«Esta é a prova da fidelidade de Robert Bruce». – Sorri, sabendo que se há coisa importante para William, é a memória da mulher. E se existe alguém em quem ele ainda se atreve a confiar (apesar do sucedido em Falkirk) é Robert Bruce.

Stephen parece concordar, quando o outro se retira.

«Bruce salvou a vida de William em Falkirk. Estava lá, vi com os meus olhos».

«Muito bem, esse fica de parte. Mas e os outros? Não conseguem chegar a acordo nem sobre a cor do céu, estás louco?» – Desespera Hamish. Não tolera que o amigo do peito considere sequer a hipótese de se encontrar com os nobres.

«Olha para isto. Olha para nós. Temos de tentar alguma coisa. Temos de continuar a lutar pela liberdade».

«Isso não passa de um sonho, William».

«Um sonho? Ah sim? Então o que andámos a fazer estes anos todos? Não andámos a viver esse sonho?».

«Tudo isto deixou de ser acerca da liberdade. É apenas pela Murran, achas que ela está no céu a ver-te».

«Não acho, tenho a certeza. E o teu pai também te vê».

Cansado, frustrado, desgostoso, Hamish termina a discussão como melhor sabe e sempre fez, desde que ambos eram crianças: esmurra Wallace e afasta-se.

O amigo tem certamente razão em alguns argumentos, mas William resume as coisas da maneira mais simples possível:

«Sabes o que acontecerá, se não aproveitarmos este convite? Nada».

Porque é exactamente isso. Atingiu-se o ponto de ruptura, e todos, de ambos os lados, têm essa noção. Ou Wallace chega a acordo com Robert Bruce e o que resta da nobreza escocesa, ou tudo o que aconteceu nos últimos 25 anos foi em vão.

Aqui, um dos momentos mais profundos e enigmáticos do filme. A despedida final entre William e Stephen.

É de certa forma perceptível que os dois homens «sabem» qualquer coisa que escapa aos restantes. Talvez desde que Stephen chegou ao acampamento, confessando que «o Senhor o enviara para ser o guarda-costas de Wallace». Ou quando acorreu em seu auxílio em Falkirk, temendo uma tragédia. Ou ainda, na anterior batalha de Stirling, quando de novo em «conversa divina» estava seguro que «escaparia ileso» – como aconteceu – mas que William «estava condenado».

E por outro lado, William não pode refutar totalmente os argumentos de Hamish. Aquilo é, não só mas talvez sobretudo, por Murran. Wallace «quer morrer» desde que a mulher foi executada. Ali chegados, é possível que só depois de ser transformado num mártir consiga «acordar» a Escócia.

«Vou contigo?» – Hesita Stephen.

«Não. Vou sozinho».

Olham-se, e por um momento, sabem.

«Vemo-nos mais tarde». – Aceita o irlandês.

995bvh_david_o_hara_002Sentimos o coração a apertar.

Tal como em Falkirk, resta-nos presenciar a sequência de eventos, como quem assiste a um desastre natural.

Wallace chega sozinho, acena a Bruce – também ele desconhecedor do que se avizinha – e logo o pérfido Craig dá a ordem esperada. Um punhado de soldados ingleses carrega sobre o rebelde desarmado, ferindo no processo um Robert desesperado, que o tenta salvar. Mas não desta vez.

Abram alas para o derradeiro encontro de Robert Bruce com o moribundo pai.

«Porquê? Seu monstro apodrecido, porquê?».

«A cabeça de Wallace era o preço da tua coroa. Os nossos nobres também o exigiram».

William pagou muito alto aqueles insultos, antes de Falkirk.

«Enganou-me».

«Deixaste-te enganar. Ou quiseste enganar-te a ti mesmo. No fundo do coração sempre soubeste o que tinha de acontecer».

«Porque não morre de vez?».

«Estarei morto em breve, tal como tu em breve serás Rei. Sabes finalmente o que significa a palavra ‘ódio’. Agora, estás pronto para governar».

Bruce, ensanguentado, a destilar desprezo por todos os poros, encerra naquele recanto da torre do castelo o seu lado negro, o lado negro da nobreza, quem sabe o lado negro da Escócia:

«O meu ódio morrerá…consigo».

Se a odisseia pessoal de Robert Bruce aparenta ter chegado ao fim, a da Princesa Isabel tem ainda que consumir os derradeiros momentos.

Começa por visitar William nas masmorras, na véspera da sua execução. Quer convencê-lo a pedir perdão, ou pelo menos a tomar uma espécie de sedativo, que o impedirá de sofrer tão agudamente os horrores da tortura.

«Se jurar a minha fidelidade à Coroa Inglesa, ou não estiver alerta amanhã, tudo o que represento já está morto».

Elementar.

Por caridade, William finge beber o líquido, de modo a amenizar as lágrimas da Princesa,mas tal como com Stephen, ambos sabem silenciosamente que Wallace não cedeu.

«Vais morrer, é terrível».

«Todos morremos. Por outro lado, quase ninguém vive, de facto».

O seu último gesto inocente é apelar a Eduardo I por clemência. Quem a desengana (uma vez que que o estado deteriorado do Rei já não lhe permite falar) é o futuro monarca, Eduardo II.

«Pouco antes de perder a fala, confessou-me que o seu último deleite era saber que morrerá depois de Wallace».

Este golpe final, muda definitivamente o olhar de Isabel, finalmente adulta, finalmente pronta para enfrentar os lobos:

«Como vê, a morte chega a todos – Murmura, sibilina, aos ouvidos do agonizante – Mas antes que ela o leve, fique a saber duas coisas: o seu filho não ficará muito tempo no trono, juro-lhe. E no meu ventre estou a gerar uma criança que não é do seu sangue. A sua linhagem morre consigo».

Sabemos que tal é falso, mas ninguém está aqui a celebrar uma biografia histórica. Estamos a celebrar um Mito sem tempo e sem pátria. Pelo que a poesia cruel que acompanha estas palavras surge-nos perfeita.

No dia da execução, os diversos quadros estão minuciosamente preparados, com as emoções a circularem entre todos eles com a precisão da filigrana.

Uma multidão irada, um mártir firme, Hamish e Stephen incógnitos, «testemunhas escocesas» essenciais. Um carrasco implacável, ainda que bafejado por uma ligeira compaixão – não se executa um Herói sem peso de alma.

«Longshanks» agarrado aos últimos fiapos de vida, apenas à espera de ouvir um grito de «Clemência» para morrer feliz. Isabel já sentada no trono, em angústia, sentimento partilhado com Robert Bruce, na sua torre escocesa. Os gritos de Wallace parecem viajar no tempo e espaço, para lhe assombrar o espírito.

A tortura prossegue, com William cada vez menos Wallace e cada vez mais William. Aperta o lenço de Murran, daí retirando as últimas forças. Encontra, numa das mais belas imagens de todo o filme, a mesma pureza que um dia teve nos olhos azuis de uma criança, entre a multidão. E por fim, «conquista» os próprios carrascos, colocando-os a gritar «clemência» em seu nome.

Não só Hamish ou Stephen, cientes que nenhum ideal merece tanto, mas o próprio inimigo, o povo inglês que talvez num segundo distraído se tenha esquecido dessa coisa secundária que são as fronteiras, quando algo mais nobre está em jogo.

O último grito de vida de William Wallace é o inesquecível grito de um povo:

«Liberdade».


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A sequência é arrepiante. No rosto de Stephen, na morte instantânea de Eduardo I (que assim «perde» a derradeira batalha com Wallace), no modo como essa mensagem invade a alma de Isabel e Robert Bruce.

Agora, todos sabem.

Batalha de Bannockburn

Seriam precisos mais nove anos para que a conjuntura reunisse, de novo, ingleses e escoceses num decisivo campo de batalha. Esse momento foi Bannockburn, em 1314.

A descrever o momento, Robert Bruce (percebemos pela primeira vez que era ele o narrador na primeira cena do filme).

«A notícia da morte de Wallace correu todos os cantos da Escócia. Desmembrado, penduraram-lhe cabeça, braços e pernas em diferentes cantos do Reino, para servir de aviso. Não obteve o efeito desejado por Eduardo I. Pelo que aqui nos reunimos, de modo a prestar vassalagem ao exército inglês, sendo-me depois entregue a Coroa Escocesa».

Poucas imagens terão sido mais fortes do que esta.

Alinhados, Robert Bruce, Craig e uma fileira de sobreviventes. Hamish, Stephen, o sogro de Wallace, e imagine-se, os dois aldeões que com ele dialogaram em Stirling, na altura dispostos a «desertar para salvar a vida» e convencidos por Wallace a combater. E combater foi o que fizeram, durante anos, sobrevivendo ao seu líder e estando ali hoje presentes, uma vez mais, para dizer aos ingleses que «poderão morrer, mas fá-lo-ão como homens livres».

Craig, a última excrescência de um tempo antigo, apresta-se para fazer o que sempre fez. Negociar a mediocridade.

Robert Bruce chama-o. Retira o lenço de Wallace. Hamish e Stephen observam.

Há duas maneiras de viver a vida. De frente ou na sombra. Contra o sistema, ou dentro dele. Robert Bruce, futuro Rei da Escócia, hesitou durante muito tempo. Como qualquer um de nós, teve medo, teve dúvidas, teve erros, falhou. Mas um dia aprenderemos. Um dia, quem sabe, aprenderemos.

Um dia, num qualquer 1314 de uma Era desconhecida, no campo de batalha existencial, perceberemos enfim que «nunca mais estaremos do lado errado».

E será esse o instante em que, como Robert Bruce, desembainharemos as espadas para a Batalha Final. Como Hamish, lançaremos ao alto a alma de Wallace ou de qualquer outro Herói que decidamos ser, para que esta cruze os céus, numa mensagem universal.


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E no fim, como nos diz Mel Gibson:

«Um punhado de homens, esfomeados e em inferioridade numérica, rasgaram os campos. Lutaram como Poetas Guerreiros. E conquistaram a Liberdade».

 

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