Máximo Gorki

p000007673Viveu entre 1868 e 1936. Foi romancista, dramaturgo, contista e activista político.

Faz parte da escola naturalista que formou uma espécie de ponte entre as gerações de Tchécov e Tolstoi, e a nova geração de escritores soviéticos.

Aleksei Gorki nasceu num meio social pobre, em Nizhny Novgorod, cidade que em 1932 passou a chamar-se Gorki por ordem de Estaline. O nome foi revertido para o original em 1991. Órfão de pai, foi criado pelo avô materno, que era tintureiro. Em 1878, quando a mãe faleceu, teve que deixar a casa do avô para ir trabalhar. Foi sapateiro, desenhista, e lavador de pratos num navio que percorria o Volga, onde teve contacto com alguns livros emprestados pelo cozinheiro, facto que despertou a sua consciência política.

Em 1883, com apenas 15 anos, publica dois romances, Romá Gordieiev e Os Três. Aos 16 anos, muda-se para Kazan, onde tenta frequentar gratuitamente a Universidade. Não consegue. Frustrado, vai trabalhar como vigia num teatro para sobreviver. Mais tarde, torna-se pescador no mar Cáspio e vendedor de frutas em Astrakan. Como a situação não melhorava, decide ir em busca de melhores oportunidades, e viaja para Odessa com um grupo de marginais nómadas, que iam de cidade em cidade à procura de emprego. Exerce várias profissões, sofre com a miséria, a fome e o frio. Aos 19 anos, volta a morar em Kazan, onde, desesperado com a situação e sem vontade de viver, tenta o suicídio com um tiro, que o atinge num dos pulmões. Sobrevive, e para piorar mais a situação, adquire tuberculose. Essa experiência negativa resultará anos depois em dois escritos: Um incidente na vida de Makar, escrito em 1892, e Como aprendi a escrever, publicado muito mais tarde, em 1912.

Após a frustrada tentativa de suicídio, engaja-se na vida política, lê Marx e segue os passos de Lenine. Em 1890, é preso em Nizhny Novgorod, acusado de exercer actividades subversivas. Pouco tempo depois, é posto em liberdade e volta a viajar sem destino, acompanhado de indigentes miseráveis.

Publica o primeiro conto em 1892, intitulado Makar Tchudra, e para desviar a atenção das autoridades, que o vigiavam, adopta o pseudónimo Máximo Gorki, o que lhe facilitou um emprego no jornal de Samara. Consegue então grande alcance, como jornalista e como escritor. Logo a seguir, adere novamente ao Marxismo e milita em inúmeros grupos revolucionários, o que lhe valeu mais uma temporada na prisão.

Após ser libertado em 1901, começa a escrever para Teatro. Edita Pequenos Burgueses, peça teatral que segundo os críticos modernos, permaneceria inalterada, caso Gorki a escrevesse hoje. O texto foi pensado em 1900, quando o autor ainda se encontrava preso, e Gorki trabalhou nele algum tempo até se dar por satisfeito. No início, foi intitulado Cenas em Casa dos Bessemov, Esboço Dramático em Quatro Actos. A peça não segue uma linha de acção única, sendo antes um mosaico de situações e personagens representativas da vida russa na época. Estas vivem num meio mesquinho, revelando-se quase sempre incapazes de vencer as barreiras inerentes. A impotência, a vários níveis, é o único elemento comum. Cada uma das personagens falha, à sua maneira, na tentativa de romper o asfixiante círculo familiar. A peça mostra o conflito entre os membros de uma família de comerciantes, dominada pela figura do pai autoritário, que reprime os impulsos do filho intelectual e da filha deprimida. O único insurgente é o filho adoptivo, o ferroviário Nill, que Gorki elege como uma espécie de operário do ano, isto é, um herói que vai conduzir a Rússia à Revolução.

Em 1902, a peça estreia-se no Teatro de Arte de Moscovo, e obtém grande sucesso, mesmo com os cortes impostos pela censura.

Gorki toma parte, em 1905, numa primeira revolução com o objectivo de derrubar o Czar Nicolau II da Rússia, e após o fracasso da intentona, acaba preso por subversão, em São Petersburgo. No ano seguinte, porém, com a ajuda de outros intelectuais e sob fortíssima pressão da comunidade internacional, as autoridades russas são obrigadas a libertá-lo. Organiza, logo a seguir, o jornal «Vida Nova», mas acaba por ser obrigado a abandonar a Rússia.

Vai para os Estados Unidos, onde a sua permanência é dificultada pelo embaixador russo, e onde acaba vigiado pelo dono de um jornal de grande alcance, que o acusa de imoralidade pública, já que se casara pela terceira vez. Juntamente com a mulher, refugia-se em Staten Island e viaja depois para Itália. Em 1906, fixa residência em Capri, onde cria uma escola para imigrantes revolucionários, que dura até 1914.

Escreve, em 1906, Os Bárbaros, Os Inimigos, e depois o romance Mãe, em 1907.

Com o início da Grande Guerra em 1914, regressa à Rússia. Acompanha a Revolução e torna-se grande amigo de Lenine.

Em 1921, adoece gravemente dos pulmões e volta a Itália, em busca de um clima melhor, permanecendo em Sorrento durante vários anos. É lá que escreve Recordações sobre Lenine em 1924, Os Artamonov em 1925 e A vida de Klim Samgin em 1927-36. Apesar da amizade com Lenine, só regressa definitivamente à Rússia em 1928, quando decide estabelecer-se de vez na União Soviética. Já com uma saúde precária, transforma-se de imediato na maior figura literária do regime comunista.

Escreve então Yegor Bolychov, retratando o fim da classe média através da história de um comerciante.

Morre de pneumonia, a 18 de Junho de 1936. É sepultado com todas as honras oficiais. Em 1938, Leon Trotsky acusa Estaline de envenenar Gorki, no artigo «Quatro médicos que sabiam demais», publicado no «New York Times».

O que a vida e a obra de Gorki mostram não é o revolucionário perigoso que, segundo os seus adversários, teria envenenado o mundo através da literatura, mas o homem cuja memória, marcada pela lembrança das agruras sofridas e das injustiças presenciadas, anseia pela transfiguração do mundo.

A obra de Gorki centra-se no submundo russo. Este registou com vigor e emoção personagens que integravam as classes excluídas: operários, vagabundos, prostitutas, gente humilde, homens e mulheres do povo. Autores realistas e naturalistas já tinham abordado estes sectores sociais na literatura, mas olhavam para os pobres de fora, com piedade ou com frieza. Gorki, pelo contrário, conhecia aquele universo por dentro – ele próprio era um desses desvalidos – e soube captar o que havia de mais profundo na alma do povo russo. Daí a impressão de autenticidade que suas obras nos transmitem.

Foi o criador da chamada literatura proletária que teve seguidores no mundo inteiro.


mãe

Uma história revolucionária em todos os sentidos. Talvez nunca o espírito revolucionário tenha sido expresso de uma forma tão pungente, sincera e romântica. Dir-se-ia mesmo, de uma forma tão ingénua, no que isso tem de melhor.

Escrito e publicado em 1907, este romance descreve em pormenor a desgraça, a tristeza e a miséria em que vivia o povo russo no tempo do czar Nicolau II. É dessa miséria que emerge um grito lancinante de revolta.

Um grupo de jovens operários desperta para as ideias revolucionárias e encara-as como solução para pôr fim à pobreza e à injustiça de que eram vítimas os operários e os camponeses russos. Essa revolta que se sonha é encarada como um movimento universal, capaz de libertar todos os injustiçados do mundo. É nesse sentido que se trata de uma mensagem ingénua, pois não encerra em si qualquer ambição de poder. Pelo contrário, o que se pretende é acabar com o poder como forma de opressão.

Pavel é o mais brilhante desses jovens. Por trás dele, ou melhor, ao lado dele emerge a força imensa de uma mulher – a sua mãe, Pelágia. Esta é a grande guerreira, que sofre em silêncio todas as vicissitudes de uma mulher pobre na Rússia czarista, vítima da penúria mas também de um marido bêbado e violento. Quando este morre, Pelágia passa a seguir o caminho do filho, na senda da Revolução.

Esta sente-se a mãe de todos os revolucionários. Neste aspecto, Gorki estabelece um curioso paralelismo entre o amor maternal e uma espécie de amor universal que comanda a mente e a acção destes progressistas. Aliás, é bem clara a proximidade entre este comunismo nascente e o verdadeiro espírito do cristianismo.

A pureza do ideal revolucionário fica bem clara nesta ideia: não devemos derramar o sangue dos inimigos porque ele envenenará a terra; o nosso sangue, pelo contrário, quando derramado, purificá-la-á. No entanto, a luta irá, mais tarde ou mais cedo, desencadear a violência, assim que o ódio vencer.

 

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