Viagem

Há um par de anos, fiz uma viagem de 12h em linha recta, rumo ao sudoeste da ilha. O percurso atravessou as regiões de Kildare, Offaly, Galway, Clare, Tipperary e Laois.

A atracção principal encontra-se na região de Clare, e dá pelo nome de Cliffs of Moher (Penhascos de Moher), considerada uma das sete maravilhas da Rep. Irlanda. Como o nome indica, trata-se de um conjunto de penhascos e desfiladeiros cuja altura máxima atinge os 215 metros a pique sobre o Atlântico. Recebe cerca de um milhão de visitantes anuais.

Tal aventura obrigou-me a levantar às cinco da manhã, em plena noite cerrada. Preocupado com as poucas horas de sono, a única coisa que consegui foi desperdiçá-las com uma profusão de sonhos confusos, que me provocaram um humor impossível.

Atravessamos a região de Kildare por entre extensas cortinas de nevoeiro matinal, que cruzam os campos verdejantes onde se filmaram as batalhas de Braveheart. O motorista está treinado para arrancar comentários e risos dos turistas, missão praticamente impossível a tal hora.

Primeiro ponto de interesse na cidade de Limerick, onde torneamos o King John Castle. A parte histórica da urbe situa-se numa ilha cercada pelos rios Shannon e Abbey.

Bud, o motorista, perde-se em histórias.

Ao fim da manhã, entramos na região de Clare, uma província rural com cerca de 120 mil pessoas. O tempo, apesar de ventoso, está límpido e contrasta com os relatos históricos de Bud. Todos nascem da fome que atacou o país nos séculos passados e a esta – e respectivas consequências – se erguem monumentos e folclore.

Atravessamos um punhado de vilas tradicionais, pertença do imaginário universal, que nunca falham na missão de nos arrancar um sorriso. As fachadas garridas, os centros históricos, as vivendas salpicadas nas encostas, os rios românticos, as muralhas, as ruínas, os pubs. Nada falta.

cliffs-of-moher-1Enfim, os Penhascos. Uma hora e meia por entre escarpas e precipícios, ventos gelados, e planícies a perder de vista polvilhadas por gado. Felizmente, não arruinaram o local com parafernália turística. A única coisa que está a mais naquele panorama, são precisamente os rebanhos de curiosos que percorrem os perigosos caminhos onde a morte espreita. Pergunto-me como será estar naquele espaço completamente entregue a mim próprio, num dia onde o Inverno seja intolerável.

Partimos para a vila de Doolin, em busca de almoço. Adivinho os preços inflacionados, pelo que me fico pelo farnel trazido de casa. Dizem que é uma região propícia para o golfe e para o surf. Para trás deixámos outro lugarejo conhecido como Spanish Point – literalmente Zona Espanhola – assim denominada pelo facto de alguns navios da Armada terem ali encontrado o naufrágio.


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À tarde, dirigimo-nos para a costa de Galway, cenário que alterna giestas e rocha cársica, nascida a partir do Degelo. Toda a zona é uma maravilha feita de Natureza sombria, praticamente livre do mundo moderno. Uma pequena parte foi transformada em Parque Nacional. Sentimo-nos mergulhados num cenário lunar, mas logo surgem as baías, os recantos cultivados, os lugarejos habitados, a fauna e flora características, os cuidadosos muros de pedra. Atrás de cada recanto espreita uma história, uma curiosidade, uma lenda. Não regressamos a Dublin sem passar pela Corcomroe Abbey, uma abadia datada do século XII.

Ao entrar em casa, sinto-me fisicamente esgotado e espiritualmente pleno.

Eis a essência das viagens.

 

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