Boinas, Óculos e Bidés

oculos-redondos_318-42789


Pode não parecer, mas já me andam a dever uma pitadinha de adulação.

Afinal, foi há quatro anos que comecei a pagar o preço de passar doze horas por dia com o nariz mergulhado em computadores e livros. Estou obrigado pelos especialistas a usar óculos sempre que executar qualquer uma destas actividades, o que equivale a tê-los postos quase sempre.

A primeira coisa que me aconteceu foi recordar a famosa rábula onde um jornalista com pose de canal cultural entrevista um «jovem escritor».

Entra logo a matar:

«Quer dizer que é poeta…».

«Com certeza que sim, repare, tenho uma boina».

Nos últimos anos, adquiri também eu uma resposta pronta:

«Parece que escreves umas coisas…».

«Com certeza que sim, repara nos óculos…».


forma-preta-boina_318-43384


O verdadeiro riso está nas coisas que se julgam sérias, sendo nelas que os grandes autores da escrita humorística encontram os melhores exemplos.

Não faltam amostras dos estereótipos acima focados, e acrescento que para além das boinas e dos pares de óculos, existem ainda os «grupos criativos», os «críticos amigos» e muitos outros apêndices que elevam tais «promessas» a qualquer coisa.

Ainda a rábula:

«Já escreveram que eu sou o maior poeta de todos os tempos…».

«Ah sim? Quem?».

«Eu, ontem à noite no meu computador…e como coloquei o ficheiro em anexo, é coisa para ficar na História…».

A revista LER publicou em 2012 uma crónica exemplar:

Comecemos assim: escreves para vender e brilhar em recepções ou escreves porque te falta o carácter para não o fazer (Kraus)? Se escreves para vender, tenho pena que não te tenhas dedicado à construção civil (voltará pujante depois da crise), se escreves para aparecer nos jornais e na televisão, és um bidé com antenas. Os editores gostam de bidés com antenas e ainda mais se venderem muito e fizerem o broche de pino.

O que é fazer o que os editores dizem? É fazer tudo menos sexo anal com bodes. Isso não. O que temos de fazer é aparecer, responder, constar dos jornais: já lhe fizeram o favor de editar a porcaria que escreveu. (…) Vender livros é isto. Literatura é isto, seus trambolhos; se não querem, façam edição de autor lá na parvónia onde rastejam.


bide


 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s