Herman Melville

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Viveu entre 1819 e 1891. Foi romancista, contista e poeta. A maioria dos trabalhos foi publicada entre 1846 e 1857. Conhecido sobretudo pelas obras Typee (1846) e Moby Dick (1851), caiu praticamente no esquecimento nos últimos trinta anos de vida. A escrita de Melville baseia-se nas suas experiências enquanto marinheiro, no estudo da literatura e da filosofia, e na análise das contradições na sociedade americana num período de grandes mudanças. A sua principal característica talvez seja uma insinuação perversa, em linha com as influências literárias. A capacidade de Melville para adaptar aos seus objectivos a informação que retira das leituras é visto por alguns académicos como «um talento comparável ao de Shakespeare».

Nascido em Nova Iorque, foi o terceiro filho de um comerciante, e viu-se obrigado a desistir abruptamente dos estudos após a morte do pai, em 1832. Pouco depois, a família caiu na bancarrota. Melville deu aulas durante um breve período, antes de embarcar num navio de mercadorias, em 1839. Essa viagem até Liverpool servirá de base para o seu quarto livro, Redburn (1849). Antes, nos derradeiros dias de Dezembro de 1840, alista-se a bordo do Acushnet, o seu primeiro baleeiro, mas acaba por desertar 18 meses depois, nas Ilhas Marquesas (Polinésia). O seu livro de estreia, Typee (1846), um relato ficcionado sobre a sua vida com os nativos, tornou-se um sucesso tão grande que o autor decidiu fazer uma sequela, Omoo (1847). É nesse ano que Melville casa com Elizabeth Knapp Shaw; tendo os quatro filhos nascido entre 1849 e 1855.

Em Agosto de 1850, Melville muda-se com a família para uma quinta próxima de Pittsfield, Massachusetts, onde forma uma breve mas profunda amizade com Nathaniel Hawthorne. Moby Dick é publicado em 1851, provocando reacções contraditórias, e revelando-se um fracasso comercial. Um ano depois, a carreira de Melville enquanto autor popular recebe o golpe final, com o insucesso de Pierre. Nos anos seguintes, opta por escrever contos para revistas, de que são exemplos Bartleby, o Escrivão e Benito Cereno. Esses e outros textos são depois reunidos numa colectânea, em 1856, com o nome de The Piazza Tales. Em 1857, encetou viagens por Inglaterra e Próximo Oriente, e vinte anos depois, serviu-se da sua experiência no Egipto e Palestina para escrever o poema épico Clarel: A Poem and Pilgrimage in the Holy Land (1876). Em 1857, publica O Homem de Confiança, o seu último trabalho em prosa. Devido a um novo trabalho, muda-se para Nova Iorque. Dedicou-se então à poesia, tendo o seu primeiro trabalho sido uma reflexão sobre as questões morais da Guerra Civil Americana, Battle-Pieces and Aspects of the War (1866).

Em 1867, morre-lhe o filho mais velho, num episódio por esclarecer com uma arma de fogo. Em 1886, Melville reforma-se e auto-publica dois volumes de poesia. Nos últimos anos de vida, procura regressar à prosa e trabalha num manuscrito a que dá o título de Billy Budd, Sailor. Inacabado no momento da sua morte, acaba por ser publicado em 1924 e depois transformado numa peça de teatro e numa ópera inglesa, em 1951. Uma década depois, dá origem a um filme. A morte de Melville em 1891, originada por problemas cardíacos, renovou o interesse na sua figura. O centenário do seu nascimento, em 1919, fez com que os académicos voltassem a estudar a sua vida e obra, tendo os seus textos ascendido à categoria de «clássicos».

Nascido em Nova Iorque, em 1819, Herman foi o terceiro de oito filhos nascidos entre 1815 e 1830. Os irmãos tiveram importante papel na carreira e vida emocional do autor. Originário de uma abastada e excêntrica família de Boston, o pai passava a maior parte do tempo na Europa, na sua actividade de comerciante e importador.

Ambos os avôs de Melville eram considerados heróis de guerra, o paterno por ter participado no episódio conhecido como Boston Tea Party, na Revolução Americana, e o materno por ter liderado, enquanto general, a defesa de um forte no mesmo período, factos que enchiam o neto de orgulho.

Durante a década de 1820, Melville viveu uma vida privilegiada e opulenta, numa casa com diversos criados. De quatro em quatro anos, a família mudava-se para habitações maiores, situadas em bairros mais selectos, até chegar à Broadway em 1828. O pai vivia acima das possibilidades, pedindo com frequência grandes somas de dinheiro emprestado, ao pai e à sogra. A opinião da mãe acerca deste estilo de vida não é conhecida, mas há biografias que sugerem que esta «julgava que o dinheiro da mãe era infinito, e que tinha direito a ele no imediato, uma vez que estava a braços com inúmeros filhos». Até que ponto estes esquemas eram ocultados das crianças é algo impossível de saber. Por volta de 1830, a tolerância da família esgotou-se, e os fundos foram cortados, numa altura em que a dívida a ambos os lados era astronómica.

A educação do autor começou quando este tinha cinco anos de idade, numa altura em que a família se mudava para uma casa nova. Em 1826, ano em que a criança teve alguns problemas de saúde, o pai descrevia-o como «muito atrapalhado na conversa e algo lento na compreensão». As coisas haveriam de mudar rapidamente, já que segundo outros testemunhos paternos, «a surpresa é grande. Herman foi agora o melhor nas provas orais, e tem feito grandes progressos no último terço do ano». Em 1829, as crianças mudam de escola mas a evolução não diminui: «Herman progride cada vez mais, e sem ser um académico brilhante, mantém um nível aceitável, e teria capacidades para mais, se eu o conseguisse motivar a dedicar-se plenamente. Apesar de ser uma criança inocente e amigável, não consigo convencê-lo».

Emocionalmente instável e com a renda de casa em atraso, o pai procura recuperar das dificuldades com nova mudança, em 1830, e com novo emprego. Em Albany, Melville frequentou a Academia até finais de 1831, tendo estudado Línguas, Aritmética, Geografia, História, entre outras coisas. Mais uma vez, os motivos da sua saída são seguramente económicos. «As referências detalhadas ao Classicismo nos trabalhos de Melville sugerem que estes estudos tiveram grande influência no seu pensamento e obra, tal como o conhecimento quase enciclopédico que revelava acerca do Antigo e Novo Testamento», sugerem alguns académicos.

Em Dezembro de 1831, o pai regressou a Nova Iorque num navio a vapor, mas o gelo obrigou-o a viajar durante dois dias e duas noites numa carruagem aberta, com uma temperatura de 2º negativos , o que lhe provocou uma pneumonia. No início de Janeiro, começou a exibir sinais de delírio, situação que se foi agravando até redundar em demência. Acaba por morrer no final do mês, pouco antes de completar 50 anos. Tendo já sido retirado da escola, Melville testemunhou certamente todo o processo, e vinte anos depois, descreve uma morte muito semelhante em Pierre.

Dois meses após a morte do pai, a família procura sobreviver de diferentes formas. Os académicos costumam citar o narrador de Redburn para ilustrarem a resposta emocional do autor:

«Não devo pensar naqueles dias encantadores, que antecederam a falência do meu pai….e a nossa mudança de cidade. Pois quando recordo tais dias, há algo que me sobe pela garganta e quase me estrangula».

Quando o avô morreu, no ano seguinte, descobriu-se que o pai tinha gasto praticamente toda a herança que lhe pertencia. A avó morre em 1833. Herman emprega-se num banco, ainda adolescente, mas é visto com bons olhos.

Em 1834, mudam-se para outra casa e Melville abandona o banco para se dedicar a um negócio de família com o irmão.

Em 1835, apesar de ainda trabalhar na loja, regressa aos estudos, ajudado pela venda do património da avó materna, num aparente esforço para compensar o tempo perdido. Começa a ler Macbeth, e cita passagens às irmãs.

Em 1837, volta a abandonar os estudos. Depois de novas mudanças e dificuldades financeiras, decide começar a dar aulas, e torna-se professor de cerca de trinta alunos, alguns da sua idade. Findo o período escolar, regressa à casa da mãe, em 1838.

Escreve alguns ensaios, onde já se encontram influências de William Shakespeare, John Milton, Walter Scott, Richard Brinsley Sheridan, Edmund Burke, Samuel Taylor Coleridge, Lord Byron, e Thomas Moore.

Em 1839, surge a possibilidade de embarcar num baleeiro, numa viagem entre Nova Iorque e Liverpool. Regressa, após passar cinco semanas em Inglaterra. Redburn: His First Voyage (1849) relata parcialmente as suas experiências neste período.

Retoma o ensino em Nova Iorque, mas abandona ao fim de um semestre, por falta de pagamento. No Verão de 1840, parte em busca de trabalho por outros estados, trajecto que o leva a subir o Mississippi, onde toma contacto com vários episódios, mais tarde descritos nos seus livros.

Inspirado por escritos da época que mencionavam as aventuras inerentes à caça de uma enorme baleia branca chamada Mocha Dick, Melville alista-se a bordo do navio Acushnet, um pequeno baleeiro. Assina contrato no dia de Natal e poucos dias depois assiste a uma missa, em cuja igreja se exibem imagens de «marinheiros tombados no mar, muitos deles em combate directo com baleias».

Parte em Janeiro de 1841, com destino ao Oceano Pacífico. Confessará mais tarde que foi ali que a sua vida teve verdadeiramente início. Seguem rumo ao sul. Existem poucos relatos verídicos desse período de 18 meses, ainda que muitos aspectos da vida a bordo sejam relatados no romance Moby Dick. Melville abandona o navio ao largo da Polinésia, nas Ilhas Marquesas, em Julho de 1842.

Durante três semanas, vive junto da tribo Typee, cujos membros são considerados canibais pelos outros dois grupos de nativos, mas que se revelam muito amigáveis com Melville. Typee, o primeiro livro do autor, menciona um breve caso amoroso com uma bela rapariga nativa, episódio que se transformará num símbolo do «romance entre o branco e a selvagem» na imaginação popular.

Melville não parece preocupar-se com as consequências da deserção. Volta a embarcar num baleeiro australiano, com destino ao Taiti, toma parte num motim e passa um breve período numa cadeia. Depois de libertado, vagueia sem destino vários meses, até embarcar em mais um baleeiro, desta vez rumo a Honolulu. Trabalha como escriturário durante quatro meses e por fim regressa a Boston, em 1844. Dará bom uso literário a todas estas aventuras nas obras Typee, Omoo, e White-Jacket.

A experiência em alto mar, aparentemente desprovida da presença de Deus, provoca no autor um «afastamento metafísico». A sua personalidade acaba por ser influenciada de duas maneiras pelas aventuras no Pacífico. Por um lado, apesar de vir de origens abastadas, encontra uma maior proximidade com as classes desfavorecidas. Por outro, o contacto com as diferentes culturas da Polinésia permitem-lhe analisar a cultura ocidental com uma perspectiva neutra.

Melville termina Typee em 1845, em Nova Iorque. Apesar de baseado nas suas aventuras, o livro não é propriamente uma autobiografia, até porque mistura eventos de diferentes períodos. Por outro lado, também não é um trabalho de ficção. Os críticos consideraram-no «uma apelativa mistura de aventuras, episódios cómicos, etnografia e crítica social, descrita com genial distanciamento e que deu origem a um retrato idílico dos mares do Sul, na sua simbiose de sugestão erótica e romance casto». Depois de algumas dificuldades de publicação, acaba por vir à luz do dia em Londres, em 1846, tornando-se num sucesso imediato. Isso convenceu o editor de Boston a aceitar a publicação da sequela, Omoo, visto como um livro «menos rico mas mais profissional». As duas obras valeram fama imediata a Melville, enquanto escritor e aventureiro, e este entretinha frequentemente os admiradores com inúmeras histórias. Contudo, nada disto gerou receitas suficientes para garantir a sua independência financeira.

Casa em Agosto 1847, e passa a lua-de-mel no Canadá, regressando depois a Nova Iorque. Dedica-se à escrita de Mardi, um trabalho extenso e filosófico, uma espécie de narrativa alegórica que desilude os leitores, ávidos de mais um chorrilho de aventuras exóticas à beira-mar.

Com o nascimento do primeiro filho, em 1848, ressurgem memórias de infância acerca da falência e morte do pai e outros traumáticos episódios de infância, que dão origem a Redburn (1849), onde Melville insere também memórias da sua primeira viagem a Liverpool.

In 1850, a família muda-se para Massachusetts. Nos anos seguintes, surgirão mais filhos, num total de quarto, dois rapazes e duas raparigas.

O começo de Moby Dick foi célere. Em Maio de 1850, o autor escreveu a um amigo, também autor, confessando já estar «a meio da coisa». Em Junho informa o editor inglês que prepara «um romance de aventura, baseado em determinadas lendas que rodeiam a pesca da baleia», e promete ter tudo pronto no Outono. É hoje impossível confirmar a veracidade destes planos, mas o certo é que nos meses seguintes, Melville modificou de forma radical todo o esquema, concebendo então o que já foi descrito como «o livro mais ambicioso alguma vez tentado por um escritor Americano».

Em Setembro de 1850, a família adquire uma quinta, hoje em dia preservada como casa museu. Ali vivem durante 13 anos. É neste período que Melville faz amizade com Nathaniel Hawthorne, que morava ali perto. O autor escreve-lhe cartas «entusiásticas, profundas e afectuosas», e sente-se inspirado e encorajado por este novo relacionamento, coincidente com a fase em que dá forma a Moby Dick. Acaba por lhe dedicar o romance, apesar da amizade se desvanecer pouco depois.

A obra é publicada em Outubro, em Inglaterra, em três volumes e depois em Novembro nos Estados Unidos, num único volume. Pelo meio, nasce o segundo filho.

Pierre: ou, The Ambiguities, um romance semiautobiográfico, de leitura difícil, foi mal recebido. O autor foi mesmo considerado louco em alguns meios.

A 22 de Maio de 1853 nasce Elizabeth (Bessie) terceiro descendente e primeira filha do casal, sendo por esses dias que o autor conclui Isle of the Cross. Herman viaja até Nova Iorque para apresentar o trabalho ao editor, relatando posteriormente que o mesmo foi «impedido» de publicar o manuscrito, acabando este por se perder.

Entre 1853 e 1856, Melville publica 14 contos em revistas. Em 1856, uma selecção que inclui Bartleby, O Escrivão e Benito Cereno, é editada sob o título The Piazza Tales.

A 02 de Março de 1855 nasce Frances (Fanny), o quarto filho. Na mesma altura, publica Israel Potter.

Em finais de 1856, Melville empreende uma viagem de seis meses pelas Ilhas Britânicas e Mediterrâneo. Na passagem por Inglaterra, passa três dias com Hawthorne, que aceitara ali um cargo diplomático. Na pequena cidade costeira de Southport, por entre as dunas onde descansam e partilham charutos, principiaram uma conversa que Hawthorne mais tarde relata no seu diário:

«Melville, como sempre, começou a divagar sobre o Destino e o Futuro, entre tudo o resto que se esconde atrás do sol, tendo-me confessado que «estava praticamente decidido a deixar-se aniquilar»; mas mesmo assim, não encontra tranquilidade nessa resolução; penso mesmo que nunca o fará, enquanto não conseguir agarrar uma convicção definitiva. É curiosa a forma como persiste – e tem-no feito desde que o conheço, provavelmente desde sempre – em divagar para a frente e para trás nestas questões, tão áridas e monótonas como as dunas onde nos sentamos. Não consegue nem acreditar, nem estar confortável na sua falta de crença, sendo demasiado honesto e corajoso para abdicar de tentar uma das duas. Se fosse um homem religioso, seria certamente um dos mais convictos de sempre; é dono de uma natureza elevada e nobre, e considero-o mais merecedor da imortalidade do que qualquer um de nós».

A posterior visita de Melville à Terra Santa inspirou-lhe o poema épico Clarel.

A 01 de Abril de 1857, publica o seu ultimo grande romance, O Homem de Confiança. A obra valeu-lhe elogios generalizados nos tempos modernos, enquanto complexa e misteriosa investigação acerca das questões da fraude, honestidade, identidade e engano. Contudo, à data da publicação, foi arrasada com críticas que variavam entre a incompreensão a o ataque implacável.

De modo a recuperar as finanças em declínio, o autor foi aconselhado por amigos a ingressar no que era visto por muitos como o lucrativo campo das palestras. Entre 1857 e 1860, discursou em vários liceus, mas as suas conferências, que criticavam o pseudo-intelectualismo da cultura vigente, acabaram por ser arrasadas pelas audiências da época.

Dedicou-se então à poesia, tendo apresentado um conjunto de poemas a um editor, em 1860, que não foi aceite. A partir de 1863, regressou com a família a Nova Iorque. Com as finanças cada vez mais depauperadas, começou a ter problemas conjugais. Os familiares da mulher pressionavam-na a todo o instante para que ela o deixasse, julgando-o louco, mas esta recusou-se.

Após o final da Guerra Civil Americana, publica Battle Pieces and Aspects of the War (1866), uma colecção com mais de 70 poemas, descritos como «um diário polifónico do conflito, em verso». Foi praticamente ignorado pelos críticos, que pouco mais lhe concederam do que elogios condescendentes. A obra vende mal. Das 1200 cópias, tinham sido vendidas apenas 525, dez anos após o lançamento.

Em 1866, a mulher e outros familiares serviram-se de influências para obter ao autor um emprego como inspector alfandegário (com um salário magro, mas justo). Manteve a posição durante 19 anos, sendo reputado como o único empregado honesto de uma instituição notoriamente corrupta. Em 1867, o filho mais velho dá um tiro em si próprio, de forma talvez acidental, e morre em casa aos 18 anos. Há quem diga ter-se tratado de suicídio.

A partir de 1866, pode dizer-se que a carreira profissional do escritor estava acabada, mas este continuava a dedicar-se à produção literária. Melville tinha dedicado anos à sua «obra-prima», o poema épico de 18 mil versos Clarel. Um tio, quase por favor, financia-lhe a publicação do texto imenso, em 1876. O livro foi considerado bastante obscuro e é ainda hoje um dos poemas mais extensos da Literatura Americana. Com uma tiragem inicial de 350 cópias, as vendas revelam-se uma vez mais catastróficas. Os exemplares que ficaram por vender, acabam por ser queimados quando Melville se confessa incapaz de os comprar a preço de custo.

Clarel aborda a viagem de um jovem estudante Americano até Jerusalém, em busca da fé. Um dos personagens principais, Rolfe, assemelha-se a Melville nos seus tempos de juventude, enquanto nómada e aventureiro. Os estudiosos concluíram também que o retirado Vine se baseia em Hawthorne, que morrera doze anos antes.

Enquanto foi possível a Melville manter o seu trabalho na alfândega, este conseguiu manter afastados os sintomas de depressão, condição que regressou com a morte do segundo filho. Melville acabou por se reformar em 1886, na sequência da morte de vários familiares da mulher, situação que proporcionou a obtenção de diversas heranças, que esta administrou com mestria e alguma sorte.

À medida que os leitores ingleses aderiam à moda dos relatos sobre aventuras marítimas, redescobrindo os romances do autor, este experimentou uma ligeira retoma de popularidade nos finais do século XIX, no mercado inglês, ainda que o mesmo não acontecesse no americano. Aproveitou para escrever uma série de poemas, com anotações em prosa, inspirado pelas velhas experiências marítimas. Publicou-os em duas colecções, cada uma delas com edições limitadas a 25 exemplares, que distribuiu por familiares e amigos.

Deixando-se intrigar por um dos poemas, Melville decidiu reescrever a correspondente anotação, transformando-a num conto, primeiro, e numa novela, mais tarde. Trabalhou no texto de forma intermitente durante alguns anos, mas acabou por morrer, em Setembro de 1891, sem concluir o trabalho. A mulher acrescentou algumas notas e editou o texto, mas o mesmo só foi descoberto em 1919, por Raymond Weaver, o primeiro biógrafo do escritor. O trabalho acabou por ser publicado em 1924 com o título de Billy Budd. Transformou-se num sucesso imediato em Inglaterra e pouco depois, aconteceu o mesmo nos Estados Unidos. A versão definitiva foi publicada em 1962, mas já em 1951 tinha sido adaptado ao teatro, na Broadway, e à ópera. Em 1961 Peter Ustinov realiza um filme baseado na peça de teatro.

Melville faleceu na sua residência em Nova Iorque, com 72 anos, devido a problemas de coração.

 

Posteridade

Melville nunca atingiu o sucesso financeiro, tendo obtido como proventos literários ao longo da vida, pouco mais de 10 mil dólares. Depois do êxito com os romances de aventuras marítimas, baseados nas suas viagens pelos Mares do Sul, a sua popularidade caiu drasticamente. Por volta de 1876, todos os seus livros tinham deixado de ser editados. Nos últimos anos da sua vida e muito tempo depois da sua morte, foi sempre visto como, na melhor das hipóteses, uma figura menor da Literatura Americana.

Temas

Logo em 1839, num ensaio juvenil intitulado Fragments from a Writing Desk, o autor explora uma questão que será abordada nos contos Bartleby – O Escrivão (1853) e Benito Cereno (1855): a impossibilidade de se estabelecerem pontes na comunicação. O ensaio foca-se na relação entre o protagonista e uma mulher muda, cenário visto desta forma por estudiosos:

«A preocupação do autor com este tema começou cedo. Todas as suas personagens se apresentam atormentadas pela questão intensa, eterna e supra-humana do absoluto nas suas manifestações subjectivas. Todos os enredos abordam esta questão e todos os temas representam a relação delicada e mutável entre verdade e ilusão».

Não fica contudo claro quais são as implicações metafísicas e morais de tal questão, uma vez que o autor não obteve as respostas que procurava. Tal obsessão pelos limites do conhecimento levou-o a questionar a existência e natureza de Deus, a indiferença do Universo e o problema do Mal.


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É considerada uma obra extraordinária do Romantismo e Renascimento Americanos. Um marinheiro de nome Ismael conta-nos a obstinada empresa de Ahab, capitão do baleeiro Pequod, que passa por se desforrar de Moby Dick, uma baleia branca que destruiu o navio deste numa viagem anterior e amputou-o de uma perna ao nível do joelho. Apesar do romance se ter revelado um fracasso comercial e ter saído do mercado aquando da morte do autor em 1891, é uma obra que viu a sua reputação crescer ao longo do século XX, sendo considerada um dos grandes romances americanos. William Faulkner chegou a confessar que gostaria de ter sido o seu autor, e D. H. Lawrence apelidou-a de «um dos melhores e mais intrigantes livros de sempre», bem como «uma mas melhores narrativas marítimas alguma vez escritas».

«Chamem-me Ismael» é uma das introduções mais famosas da Literatura.

Concluído ao fim de um ano e meio de trabalho, o livro é dedicado a Nathaniel Hawthorne, «em nome da minha admiração pelo seu génio», e baseia-se nas experiências de Melville nos mares, nas suas leituras sobre a pesca da baleia e em autores como Shakespeare ou a própria Bíblia. As descrições detalhadas e realistas da pesca da baleia, da extracção do óleo ou da vida a bordo entre uma tripulação culturalmente heterogénea, misturam-se com temas como a exploração de classes, estratos sociais, Bem e Mal, e a existência de Deus. Para além da prosa narrativa, o autor serve-se de artifícios literários que englobam canções, poesia, solilóquios, entre outras coisas.

A obra foi inicialmente editada com o título «A Baleia», em Londres, no ano de 1851, e depois com o título final em Nova _Iorque, ainda no mesmo ano. As diferenças entre as duas edições eram de pouca monta, mas numerosas. O editor inglês censurou ou modificou algumas passagens, e o próprio autor acabou por fazer uma revisão, nomeadamente no que diz respeito ao título. Venderam-se apenas 3200 cópias durante a vida do escritor, situação que lhe rendeu pouco mais do que 1200 dólares.

Ismael explica-nos a sua necessidade de embarcar, e enceta a viagem entre a ilha de Manhattan Island e New Bedford. A estalagem está lotada, e este vê-se obrigado a partilhar uma cama com um indígena da Polinésia, um arpoador cheio de tatuagens, filho do rei da ilha fictícia de Rokovoko. Na manhã seguinte, ambos assistem ao sermão do padre Mapple, e seguem para Nantucket. Ismael trata com os armadores Bildad e Peleg, e alista-se no baleeiro Pequod. Peleg descreve o Capitão Ahab: «Um semi-deus imponente e intratável», que apesar de tudo «tem fraquezas humanas». Contratam Queequeg na manhã seguinte. Um indivíduo de nome Elijah profetiza um destino funesto a Ishmael e Queequeg se estes embarcarem com Ahab. À medida que se carrega o navio, embarcam nele um conjunto de indivíduos sombrios. E num dia de Natal gelado, o Pequod deixa o porto.

O narrador discorre sobre cetologia (a ciência que estuda os cetáceos), e descreve os membros da tripulação. O mestre é Starbuck, um natural de Nantucket, com 30 anos, de espírito racional, que escolhe para arpoador Queequeg; o contramestre é Stubb, de Cape Cod, imprudente e optimista, que tem como arpoador Tashtego, um orgulhoso índio de Gay Head; o terceiro imediato é Flask, nascido em Martha’s Vineyard, baixo, robusto, que escolhe como arpoador Daggoo, um africano alto, recém-chegado a Nantucket.

Quando Ahab aparece por fim no tombadilho superior, anuncia as suas ideias de vingança para com a baleia branca, que lhe roubou parte de uma perna, obrigando-o a usar uma prótese feita de osso de cetáceo. Ahab informa que oferecerá um dobrão – uma moeda de ouro – ao primeiro homem que avistar Moby Dick, e prega a recompense ao mastro. Starbuck argumenta que não está ali em nome da vingança mas do lucro. No entanto, o desígnio de Ahab provoca um misterioso fascínio em Ismael: «O fervor indomável de Ahab tornou-se o meu». Em vez de contornarem o Cabo Horn, Ahab aponta para o Oceano Pacífico, via sul de África. Uma tarde, enquanto Ismael e Queequeg tecem um tapete, Tashtego avista um cachalote. Sem demoras, surgem cinco outros tripulantes, até então desconhecidos, que Ahab leva consigo para o bote. O líder, Fedallah, é o arpoador de serviço. A perseguição revela-se infrutífera.

A sudoeste do Cabo da Boa Esperança, o baleeiro, tem o primeiro de nove encontros em alto mar com outros navios: Ahab cumprimenta o Goney, perguntando-lhe acerca da baleia branca, mas o megafone através do qual o capitão tenta falar cai à água antes que se oiça qualquer resposta. Ismael explica que devido à obsessão do Capitão com Moby Dick, este não obedece aos procedimentos normais nestes encontros, que sugerem uma «reunião entre dois ou mais baleeiros onde os dois capitães se reúnem num navio e os mestres noutro». No segundo destes encontros, com o Town-Ho, um baleeiro de Nantucket, revela-se o segredo do «julgamento de Deus», um relato acerca de um marinheiro rebelde que é açoitado por um superior e de como este último, liderando uma caça a Moby Dick, cai do barco e é morto pela baleia.

O narrador divaga sobre quadros de baleias, plâncton, lulas – e depois de se baixarem quarto botes em vão apenas porque Daggoo confunde uma lula com uma baleia branca – rastos de baleia. No dia seguinte, já no Oceano Índico, Stubb mata um cachalote, e na mesma noite, o cozinheiro negro do Pequod prepara-lhes um pouco habitual bife de baleia. Fleece faz um sermão aos tubarões que se digladiam em redor da carcaça da baleia, amarrada ao navio, afirmando que o seu instinto é serem vorazes, mas que é necessário ultrapassar isso. A baleia é preparada, decapitada e enchem-se barris de óleo. Aproximando-se da cabeça do cetáceo, Ahab implora-lhe que confesse os segredos marítimos. O encontro seguinte do Pequod é o Jeroboam, que não só perdeu o Mestre para Moby Dick, como lida agora com uma epidemia a bordo.

A carcaça continua à tona de água. Queequeg monta-se nela, amarrado ao cinto de Ismael com uma corda, como se fossem irmãos siameses. Stubb e Flask matam uma baleia franca, cuja cabeça é atada em paralelo com a cabeça do cachalote. Ismael faz comparações filosóficas com essa imagem: a cabeça do lado direito é «lockena» (de John Locke e do estoicismo) enquanto a do lado esquerdo será «kanteana» (de Kant e do platonismo). Tashtego esventra a cabeça do cachalote e retira desta baldes de óleo. Nesta acção, desequilibra-se e cai sobre a cabeça, que por sua vez cai ao mar. Queequeg mergulha atrás dele, e liberta o companheiro com a ajuda da espada.

O Pequod encontra depois o Jungfrau vindo de Bremen. Ambos os navios avistam baleias, quase ao mesmo tempo, mas é o Pequod que ganha a corrida. Os três arpoadores lançam as armas, e Flask é o autor do golpe mortal. Mas a carcaça afunda-se, e Queequeg escapa por pouco. A reunião seguinte é com o baleeiro francês Bouton de Rose, cuja tripulação se revela ignorante acerca das propriedades do âmbar cinzento presente na cabeça da baleia putrefacta que transportam. Stubb procura explicar-lhes, mas Ahab manda-o calar. Dias depois, um encontro com uma baleia arpoada, leva a que Pip, um jovem negro do Alabama, salte do bote. Isto obriga a libertar a baleia, uma vez que a linha do arpão acaba por aprisionar o rapaz. Furioso, Stubb exige que Pip permaneça sempre no bote, mas este repete a façanha tempos depois, e acaba por ser abandonado no mar, tendo enlouquecido quando finalmente o recolhem.

O óleo de cachalote congela e tem de ser de novo derretido. Fervem-se caldeirões no convés. O óleo é de depois colocado em barris e armazenado no navio. No final do processo, o pavimento é lavado. A moeda presa ao mastro principal exibe três imagens: uma chama, uma torre e um galo. Ahab vê nisto símbolos de firmeza, energia em ebulição e sucesso; Starbuck vê as provas da Santa Trindade; Stubb é atraído pelos símbolos do zodiaco; Flask não consegue descobrir nada de simbólico.

O Pequod cruza-se de seguida com o Samuel Enderby de Londres, capitaneado por Boomer, um tipo prosaico, que perdeu o braço direito num combate com Moby Dick. Apesar do episódio, este não alimenta qualquer rancor para com a baleia, que ele considera peculiar, em vez de maligna. Ahab termina abruptamente o encontro, e apressa-se a regressar ao navio.

Ao regressar do Samuel Enderby, Ahab vê-se livre da sua perna de osso e ordena ao carpinteiro que lhe faça outra. Starbuck informa o capitão acerca das fugas de óleo no porão. Relutante, este ordena que os arpoadores inspeccionem os barris. Queequeg, que passa os dias inteiros nos porões, apanha uma gripe, e ameaça sucumbir a uma febre. O carpinteiro constrói-lhe um caixão, e o arpoador receia falecer em alto mar. Experimenta ainda assim o caixão, enquanto Pip toca o tambor entre lágrimas. Considera-se cobarde e elogia a coragem de Queequeg. Contudo, o arpoador acaba por recuperar as forças, passa por uma breve convalescença e regressa ao posto, em boa forma. Daí em diante, usa o caixão como bote sobresselente.

O Pequod segue rumo à ilha Formosa, ao longo do Pacífico. Ahab alterna entre o aroma que lhe chega das ilhas Bashee e o rasto deixado por Moby Dick. Fala com Perth, o ferreiro, e pede-lhe um arpão especial, recheado de pregos e lâminas. Depois, embebe o arpão com o sangue de Queequeg, Tashtego e Daggoo.

Cruzam-se então com o Bachelor, um navio de Nantucket que regressa a casa carregado de óleo de cachalote. Encetam algumas caças à baleia bem sucedidas. Numa dessas investidas, no bote, Fedallah profetiza que jamais Ahab terminará num caixão ou carro funerário, e que antes da morte se cruzará com dois veículos fúnebres – um feito por mãos divinas, outro de madeira Americana – e para além disso, Fedallah trilhará os caminhos da morte antes do seu capitão, que apenas perecerá sob a acção da forca.

À medida que se aproximam da linha do Equador, Ahab barafusta com os instrumentos por estes apenas lhe dizerem onde está e não para onde se dirige. Sai irado, rumo ao convés. Nessa noite, o navio navega na direcção de uma tempestade impressionante. O mastro é fustigado por relâmpagos, que iluminam a moeda e o arpão de Ahab. Este faz um discurso sobre o poder do fogo, encarando o trovejar como sinal da força de Moby Dick. Starbuck considera tudo aquilo um mau prenúncio, e considera assassinar o capitão com um tiro de mosquete, durante o sono. Na manhã seguinte, ao descobrir que a tempestade arruinou a bússola, Ahab faz outra a partir de uma lança, e uma agulha, entre outros artefactos. O utensílio acaba por não resistir, e o navio fica sem meios de orientação.

O Pequod navega agora na direcção de Moby Dick. Um marinheiro tomba do mastro, no oceano. Atiram-lhe um salva vidas, mas ambos se afundam. É então que Queequeg sugere que se use o seu caixão, tornado inútil, como substituto. Starbuck ordena que o carpinteiro tome providências nesse sentido. Na manhã seguinte, dá-se mais um encontro agitado, desta vez com o Rachel, comandado pelo Capitão Gardener, natural de Nantucket. Este procura sobreviventes de um dos botes, que partiu em busca de Moby Dick. Entre os desaparecidos, está o filho do capitão. Ahab recusa participar nas buscas. Este calcorreia agora o deck vinte e quarto horas por dia, sempre secundado por Fedallah. De súbito, uma ave apodera-se do chapéu do capitão e desaparece com ele. No derradeiro encontro, o navio passa pelo Delight, muito danificado e privado de cinco membros da tripulação, mortos por Moby Dick. O capitão grita-lhes que o arpão que há-de matar a baleia ainda está por forjar, mas Ahab acena com a sua arma especial e ordena que sigam em frente. Este partilha um momento de camaradagem com Starbuck. Fala-lhe da mulher e filho, diz-lhe que foi um idiota por gastar quarenta anos naquela actividade, e afirma ver o traços do filho na expressão de Starbuck. O outro tenta convencer o capitão a regressarem a casa, para junto das famílias, mas este afasta-se sem palavra, detendo-se junto a Fedallah.

No primeiro dia de caçada, Ahab apanha o odor da baleia, sobe ao mastro e avista o inimigo. Reclama a moeda do mastro como prémio, e ordena que todos os botes desçam, com excepção do de Starbuck. A baleia parte o bote do capitão em dois, atira-o borda fora e provoca o caos entre a tripulação. Ao segundo dia, Ahab volta a deixar Starbuck como responsável do Pequod. Moby Dick esmaga os três botes, transformando-os em farripas, e enovela as linhas. Ahab é salvo, mas volta a perder a perna falsa e constata a morte de Fedallah. Starbuck implora ao capitão para que este desista, mas o mesmo jura a morte da baleia branca, nem que para isso tenha de nadar pelo mundo inteiro antes de obter vingança.

No terceiro dia, Ahab avista Moby Dick por volta do meio-dia, numa altura em que começam a ser acompanhados por tubarões. O capitão desce no bote uma última vez, deixando Starbuck a bordo. Moby Dick investe, e destrói dois botes. O cadáver de Fedallah, que permanece enrolado nas linhas, é atirado para o dorso da baleia, transformando-se esta no carro funerário da profecia. Febril, Ahab enterra o seu arpão no flanco da baleia. Moby Dick desfaz o bote, atirando com a tripulação ao mar. Apenas Ismael sobrevive. A baleia investe agora sobre o Pequod. Ahab compreende então que o navio destruído simboliza o segundo veículo fúnebre, feito de madeira americana, descrito na profecia de Fedallah. A baleia regressa em busca do capitão, que mais uma vez a ataca. A linha enrola-se em redor do seu pescoço, e à medida que a baleia ferida se afasta, o capitão é com ela arrastado, rumo ao infinito. O caixão de Queequeg aparece à superfície, único sobrevivente do vórtice criado pelo afundar do Pequod. Ismael flutua em cima dele durante um dia inteiro, até que Rachel, ainda em busca dos marinheiros desaparecidos, acaba por salvá-lo.

Estrutura

Segundo os críticos: «Moby Dick é um clássico porque evita os rótulos. É emoção e meditação, tragédia e comédia, peça de teatro e poema em prosa. Ensaio, mito e enciclopédia». A estrutura exibe a mesma complexidade, juntando elementos narrativos e não-narrativos. O modo habilidoso como o autor organiza os capítulos é visto como «prova da sua mestria como escritor».

A este respeito, considera-se que a «arquitectura da narrativa» é no fundo uma «variante idiossincrática do esquema bipolar observador/herói», ou seja, o romance está estruturado em redor dos dois personagens principais, Ahab e Ismael, que se entrelaçam e contrastam, sendo que este último cumpre o papel de observador e narrador. A história de Ismael é uma «narrativa sobre aprendizagem».

O texto abre com uma das frases mais famosas da Literatura Ocidental: «Chamem-me Ismael», o que sugere que vai ser ele o personagem principal, em breve acompanhado por Queequeg. Porém, depois da partida do Pequod, a história destes dois companheiros é «subalternizada» pela maníaca missão de Ahab. Conclui-se que o livro é estruturado em redor de duas consciências – Ahab e Ismael – sendo o primeiro uma força linear e o segundo uma força digressiva. Apesar de partilharem um sentimento de orfandade, procuram resolver esse vazio interior de formas diferentes: Ahab através da violência, Ismael da meditação. Se Moby-Dick acaba por ser alimentado pela raiva do capitão, é o desejo de  assimilar o «incompreensível» de Ismael que recheia o romance de lirismo. Existe um duplo objectivo no livro: a batalha entre Ahab e a baleia, e a vontade de Ismael em «compreender a baleia e o fenómeno da caça».

A organização dos capítulos não-narrativos está estruturada em três padrões: primeiro, os nove encontros entre o Pequod e outros navios que se cruzaram com Moby Dick. Cada um deles se apresenta em pior estado que o anterior, deixando perceber o funesto destino dos protagonistas. Segundo, os combates cada vez mais violentos com outras baleias. De início, os botes escapam praticamente a qualquer contacto, depois, surgem os alarmes falsos e as caças rotineiras, pro fim, a impressionante exibição de baleias nos confins do Mar da China. Um tufão ao largo do Japão dá o tiro de partida para o confronto final com Moby Dick. Terceiro, a documentação sobre cetáceos, tão abundante que pode mesmo ser divida em dois subtemas.

Estes capítulos começam por descrever os primórdios da caça à baleia e uma classificação bibliográfica das baleias, prosseguindo com histórias sobre o carácter maligno das baleias em geral e de Moby Dick em particular. A segunda parte do padrão descreve as baleias no seu quotidiano, a anatomia do cachalote, terminando com a evolução da baleia enquanto espécie, alegando a sua natureza eterna.

Afirma-se: «Moby Dick está repleto de significados. Quanto ao seu significado global, a coisa complica-se. Adivinha-se contudo uma canção profética, que flui enquanto corrente subterrânea, por entre uma superfície feita de acção e moralidade».

Considera-se ainda que a percepção é um tema central, concretamente a dificuldade de ver e entender, provando que a realidade profunda é algo de insondável e a verdade uma coisa demasiado relativa. Ahab explica que, à semelhança de todas as coisas, a baleia maligna é apenas uma máscara e ele está determinado em perfurar esse disfarce. O tema atravessa todo o romance, e torna-se perfeitamente claro no episódio da moeda de ouro, no qual cada membro da tripulação interpreta a moeda à luz da sua própria personalidade.

O biógrafo de Melville dá como exemplo desta busca pela verdade para além das aparências, a questão da raça. Todas as raças estão representadas entre a tripulação. Ainda que Ismael esteja inicialmente receoso de Queequeg, visto como um canibal tatuado, depressa conclui que «mais vale um canibal sóbrio que um cristão bêbado». É incomum numa obra Americana de meados do século XIX surgirem personagens negras que não sejam escravas, embora o tema seja amplamente mencionado. O tema é ilustrado sobretudo através de Pip, o desprezado rapaz de cabine, de cor negra. Quando este praticamente se afoga, Ahab, honestamente tocado pelo seu sofrimento, aborda-o gentilmente, mas este só consegue «imitar o linguajar comum na realidade dos escravos: Pip! Prémio para o Pip!».

Apesar de tudo, o autor não se refugia em soluções fáceis. A amizade fraterna entre Ismael e Queequeg, é o ponto de partida para uma espécie de harmonia racial, depois desfeita aquando do episódio da dança que degenera em conflito. Mais à frente, Pip tem um colapso mental quando descobre que um escravo vale menos dinheiro que uma baleia. Transformado em mercadoria violentada, «Pip transforma-se numa espécie de alma do próprio navio».

 

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